CARPE NOCTEM - O mundo da meia-noite de São Paulo


10/02/2010


Lançamento de Paradigmas volume 4

  A Tarja Editorial certamente é conhecida de muitos, senão por todos no Brasil varonil que se interessam por literatura fantástica. É, salvo engano, a única casa editorial no Brasil inteiramente dedicada ao gênero. ao lado da Devir; de narrativas sobre vampiros a ficção científica meio cyberpunk, avança sobre todos seus subgêneros. Sua coleção Paradigmas atingiu um feito: chegou ao quarto volume, que será lançado nesta quinta-feira em São Paulo. Antes que começe a maledicência, sim, nós escribas do Carpe Noctem conhecemos editores e colaboradores da editora, como o Richard, o Gianpaolo, a Cristina Lasaitis. E não, essa postagem não é pura e simples ajudinha ou puxa-saquismo,"brodagem" entre amiguinhos de uma panela literária - nós humildes autores de Carpe Noctem não somos de panela alguma, se alguém quiser nos convidar para ingressar em uma, estamos aí! - acredite, os livros são uma amostra muito viva e importante da literatura fantástica brasileira.  Ao invés de fazer crítica barata e sem fundamento e espalhar fofoquinhas nas redes sociais, que tal aparecer por lá e conhecer essa patota e seus livros? Saia da frente do computador um pouco e vá encontrar um dos tipos mais estranhos e interessantes de humanos  que existem: escritores. Saudações etílicas e noturnas.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h45
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12/01/2010


Resenha – Anjo de Dor

    O conteúdo desta postagem é de um tipo inédito no Carpe Noctem, até então. E por que um texto de não-ficção e ainda por cima uma resenha? Bem, decidi postá-la como retribuição à gentileza de meu amigo Causo, que além de me convidar para o lançamento enviou-me uma cópia de seu mais recente livro.

    Roberto Causo é um dos mais importantes autores e pesquisadores da literatura fantástica no Brasil. Há mais de vinte anos que escreve, edita, traduz e pesquisa a fantasia, o terror e a ficção científica, além de realizar muitos eventos. A lista de serviços prestados por ele ao gênero nestas plagas é longa e não cabe aqui; aos curiosos, acessem http://rscauso.tripod.com/, para saber mais. Este romance de fantasia/terror, finalista do Projeto Nascente, tradicional concurso promovido pela USP para revelar talentos artísticos, foi publicado pela Devir, de São Paulo, das poucas editoras brasileiras que publicam literatura fantástica com regularidade.

    Anjo de Dor investe em um filão que hoje, para aqueles que acompanham a literatura fantástica produzida no país, parece lugar comum, batido até, tantos são atualmente seus autores, incluindo os deste blog: narrativas de terror e fantasia passados no Brasil que procuram maior atualidade, que arriscam um passo além, o de ser uma representação do lado negro da modernização do país, sem se ater em demasia ao ‘pitoresco’, ao ‘exótico’ da Terra Brazilis, ou seja, inserir em cenários e contextos nacionais temas, criaturas e situações do imaginário digamos, mundial, da ficção fantástica, refletindo assim o próprio momento histórico, social e cultural do país, uma busca, ainda hesitante e com resultados muitos diversos e irregulares, por uma forma brasileira e moderna de literatura de ficção fantástica (essa é também a busca de nós autores do Carpe Noctem).

    E do que trata esse romance?  Ele se apropria da temática da mulher fatal que pode trazer tanto êxtase celestial quanto perdição horrível ao homem e a situa em Sumaré – cidade do interior de São Paulo onde Causo passou boa parte da infância e adolescência – no início dos anos 90, quando o país ingressou, da maneira abrupta e violenta que conhecemos, em uma nova etapa da sua modernização – esse elemento, a contextualização histórica, tem certa importância na totalidade da obra, mas a maneira como é posta na narrativa pouco contribui para sua densidade, as referências ao confisco do dinheiro do país, pelo governo Collor, entre outras, são simples filigranas que não tornam o cenário mais vivo ou tenso, inclusive porque não se tornam necessárias diante do cenário meio pesadélico, que não necessitaria estar dentro de algo maior e mais incômodo, pois Sumaré é retratada como são a esmagadora maioria das cidades do interior do estado que passaram por um ciclo de crescimento econômico desordenado e posterior decadência: um lugar semi-morto, povoado por gente estreita e grosseira, uma terra tão estéril e sufocante que as energias mais fundas e obscuras dos homens são impelidas a vir à tona nessas ‘cidades mortas’ que garantem a atualidade do livro homônimo de Monteiro Lobato.

    O protagonista é Ricardo Conte, um ex-militar que leva uma vida modorrenta, regrada, pacata e solitária: vegetariano, metódico, vive sozinho em um sobrado e é barman da única casa noturna digna desse nome da cidade. A trama começa a se delinear quando a mais nova contratada da boate em questão aporta na cidade para uma temporada como cantora e principal atração do local, uma loira atraente e misteriosa que atende pelo nome de Sheila, dona de voz afinada e potente e um domínio completo sobre diversos gêneros musicais, o que faz com que sua fama se alastre até a região de Campinas. Logo se instala uma tensão sexual problemática entre ela e Ricardo, espalhando discórdia entre os empregados da boate e pondo abaixo, aos poucos, a vida certinha do rapaz. Essa erosão na ordem do mundo de Ricardo torna-se de caráter sobrenatural: a figura de Sheila desperta nele um poder latente, que julgava adormecido há muitos anos, de uma forma estranha e assustadora, que ele não suspeitava ser possível, enchendo suas noites de medo. E os outros conflitos se avolumam, com seus colegas de trabalho e com a própria loira fatal. Completando o jogo, entra em cena uma figura violenta e sinistra, um cafetão vingativo, centro de um passado pesado e nada dignificante que Sheila carrega, e do qual tenta fugir de modo desesperado. Com o surgimento de Ferreirinha a narrativa incorpora situações de ação e violência e cristaliza-se a idéia de que os homens, sem apelar ao além e suas entidades, são capazes de infundir o mais puro terror e caos na vida de seus semelhantes.    

    Anjo de Dor é escrito com segurança, sobriedade – este foi o primeiro texto longo de Causo, que o trabalhou por anos. Porém, esse domínio, essa sobriedade que garante uma obra madura também é fraqueza, pois o trato com os temas e o uso do idioma são comedidos em demasia, ele mostra um Brasil interiorano nada saudável, violento e as forças do além que dele se erguem com espanto, mas de uma distância algo demasiada, como se a ficção que narra fosse ficcional e distante demais para inflamar um pouco mais a narrativa, como se receasse causar mais medo no leitor. Em termos mais simples: poderia haver mais hemoglobina no estilo do narrador, termos mais fortes e agressivos, para o texto ser de fato uma narrativa de terror, pois, decididamente, é um bom exemplar de fantasia, de sobrenatural, mas faltam mais sexo e violência e mais imagens e situações fortes para causar no leitor aquela espiada na janela ou nos cantos enquanto se lê uma obra assustadora, que pertença ao gênero terror.

    Mas, caros leitores, não tomem essa resenha subjetiva e parcial a sério demais: Anjo de Dor é um avanço para o gênero fantástico no Brasil e merece ser lido, pelo puro prazer estético e para descobrirmos que essa terra abençoada ou amaldiçoada sabe-se lá por quem ou o quê é repleta de cenários e situações a serem explorados para se criar obras de ficção fantástica brasileiras e modernas. 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 19h48
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10/12/2009


Lançamento da antologia "Metamorfose"

Saudações a todos,

Segue abaixo o press release e o convite para o lançamento da antologia Metamorfose, organizada pelo amigo e agitador cultural Ademir Pascale, em mais uma iniciativa tão valiosa quanto rara, de apoiar jovens autores e a literatura fantástica em nosso país.

Vamos lá, meus amigos! Iniciativas assim tem que ser prestigiadas, antes que só sobre espaço nas livrarias para vampirinhos emos que brilham como malditos potes de purpurina!(sim, eu me referi ao Crepúsculo...argh!!)

Ab, A.

 

 

METAMORFOSE: A FÚRIA DOS LOBISOMENS

 

VAI FICAR FORA DESSA?

 

LANÇAMENTO:

 

Data: 19/12/09

Horário: a partir das 18h30

Local: Bardo Batata - Gastronomia e Cultura.

Rua Bela Cintra, 1333, Jardins, S. Paulo/SP

Site do Bardo Batata: http://www.bardobatata.com.br 

 

Organizador: Ademir Pascale (Invasão e Draculea: O livro Secreto dos Vampiros)

 

Autores convidados: Marco Bourguignon (Editor da Scarium) e Adriano Siqueira (Amor Vampiro)

 

Prefácio: J.Modesto (Trevas e Anhangá: A Fúria do Demônio)

 

Editora: All Print

 

Com presença confirmada de vários autores: Ademir Pascale, J. Modesto (prefaciador) Elenir Alves, Adriano Siqueira, Almir Pascale, M. D. Amado, Armin Daniel Reichert, Luciana Fátima, Larissa Caruso, Dione Mara Souto da Rosa, Frank Bacurau, Maurício Montenegro, Georgette Silen, Jorge Ribeiro, André Paim, André Bozzeto Junior, Pedro Moreno, Lino França Jr., Raphael O Lord, Mariana Albuquerque, Leonardo A. Ragacini e outros.

 

COMPAREÇA E PEGUE O SEU AUTÓGRAFO.

 

Cards e marcadores de páginas gratuitos no lançamento.

 

Link do mapa para chegar até o local (copie o link e cole em seu navegador):

http://ruas.guiamais.com.br/index.php?controller=guiaderuas&init=map&address=BR|SP|SAO PAULO|Rua Bela Cintra| 1333|-23.557880235294117|-46.66337976470588&zoom=1

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 13h29
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05/12/2009


Lançamento de livro

Boa noite a todos!

Este blog continua a reparar uma mancada que praticou por muito tempo: ignorar a crescente produção de literatura fantástica brasileira - da qual, aliás, é uma pequena e humilde parte, mas com pretensões de ser uma porção importante e sucesso arrebatador, com  direito a toda fama, glória, bebida e diversão que isso pode proporcionar - Assim, passaremos a divulgar, nestas plagas, todos os lançamentos e eventos do gênero aos quais formos convidados ou sabermos, não obrigatoriamente nessa ordem. 

O próximo acontecimento para os fãs da literatura mais imaginativa e pirada será em São Paulo, dia 12. A Terracota editora, comandada por Cláudio Brites, lançará uma coletânea que brinca com o tema fim do mundo ( qual será a profecia da vez?).Apareçam por lá, prestigiem, conversem com nós autores do gênero para descobrir que somos, das mais diversas formas, tão malucos como nossos textos revelam. Saudações noturnas e etílicas.

O texto da quarta capa do livro e o convite:

 

Está escrito. O mundo vai acabar no dia 31 de julho de 2013. Entre meio-dia e 13h13, no horário de Brasília. Fim. Esqueça qualquer outra
previsão que você já tenha visto, pois ela está totalmente errada.
Acredite, esse é o dia (13), o mês (julho) e o ano (2013) do fim de nossa existência. Como será? Não há como saber. Os textos sagrados
analisados não prevêem causas. Ao contrário, abrem um amplo leque de probabilidades catastróficas e deixam que a imaginação de cada um
descubra os detalhes. E você sabe muito bem que bons e maus motivos para o fim não faltam.
Os manuscritos sagrados só falam que tudo vai acabar, e no instante final nós finalmente saberemos se a verdade é uma ilusão e se o tempo
não existe. Nesse momento último, poderemos tocar o germinar de nossa existência. Ou, como fizeram os treze escritores aqui reunidos, enviar
uma carta aos nossos antepassados contando como tudo terminou.
Como foi o fim do mundo.

Abraços,

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h50
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01/12/2009


As fabulosas aventuras de Ingrid e Laura, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio 2: quem entende as mulheres?- por Caio Bezarias, com paciente revisão de André L. Pavesi - parte 1

 

 

Laura mal chegou a sua quitinete, tirou a roupa, correu a abrir uma cerveja, que bebeu em grandes goles, enquanto se dedicava a sua distração favorita para relaxar e esquecer-se de sua própria vida – observar os prédios da cidade enquanto escurecia, as luzes se acendendo, as silhuetas das pessoas indo de um cômodo para outro, paradas à janela, como se a observassem enquanto ela os observava, como se estivessem ligados entre si e se sentissem mais fortes com isso. Poucos minutos após a noite surgir e a paisagem cobrir-se de luzes, seu telefone fixo tocou. Ela soltou um grito e a lata vazia foi de encontro à parede. A linha fora cortada há uma semana, por falta de pagamento... Agarrou o bocal com lentidão, a mão trêmula e sussurrou um alô? encolhido.

– Nove da noite, na esquina da Paulista com a Consolação, no lado da Angélica. Estarei no meu carro, te esperando.

–Quem está falando?

– Não reconhece sua mestra, criança?

– Você? Mas como sabe meu número de telefone? E como consegue fazer com que funcione? Está cortado, você...

– Tolinha. Posso fazer coisas que você nunca poderá saber ou imaginar. Por que ainda se espanta?

– Por quê? Ora, porque, porque ... preciso disso! Ando com você para ver e viver coisas incríveis. Quando me acostumar com loucuras como essa, vou me cansar e sair fora.

A gargalhada que explodiu no ouvido de Laura encheu-a de horror e fez com que se dobrasse em posição fetal, tão maligna foi.

– Cansar de mim e simplesmente sair andando? Sua menina arrogante, se tentar fugir de mim você some tão fácil e sem rastros como se mata uma barata e a joga pela privada. Agora termine suas vadiagens humanas e se prepare para a noite, pois estou com fome!

Ela ficou algum tempo encarando o aparelho, antes de batê-lo com força, abrir outra cerveja e entorná-la e repetir o ritual com mais outra.

A noite já corria densa e pesada. Laura esperava há menos de dois minutos, que pareciam muito mais longos e bastante incômodos, até que o carrão negro parou a sua frente. A porta traseira direita foi aberta com tanta força que parecia querer fugir. Dessa vez não era a própria Ingrid que dirigia, mas um sujeito alto, corpulento e meio gordo, um loiro de meia-idade, mal encarado, sotaque germânico pesado, que Laura deduziu ser o tal ajudante, o servo, o seguidor. Era o sujeito que mais mereceu a alcunha ‘alemão’ que Laura já vira. Ao encarar o tipo, entendeu com clareza porque ser ajudante da vampira era tão fascinante. O tratamento rude que a criatura das trevas lhe dispensava era um pequeno preço, a cada incursão noturna sempre era apresentada à encarnação suprema e definitiva de algo, que no mundo cotidiano, era ralo, fraco, tedioso; no mundo da hipnótica morena sempre havia uma coisa que merecia seu nome com todas letras maiúsculas. Valia a pena ser a buscadora de vítimas para um vampiro, pois as sensações e visões que isso proporcionava eram tudo que seu espírito voraz e vazio precisava. E para uma vampira  milenar, enfastiada com todos os seres e coisas de um mundo desgastado, essa diversão era essencial.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 20h21
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As fabulosas aventuras de Ingrid e Laura, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio 2: quem entende as mulheres? - por Caio Bezarias, com paciente revisão de André L. Pavesi - parte 2

 

 

Após rodar por mais meia hora ao redor dos quarteirões da Augusta que margeiam  a Paulista, o Alemão parou o carro diante um bar-restaurante e sabe-se mais o que numa esquina abarrotada, um lugar meio chique e meio modernoso-disciplicente, cheio dos modernos, metidos, gays e lésbicas cheios de si e demais tribos e tipos que infestam os arredores da Paulista em qualquer noite. Laura olhou para o lugar, contrariada, com verdadeira repulsa no olhar e tentou  imaginar o que Ingrid tramara. Ela, uma gótica rebelde e marginal, uma roqueira louca e selvagem no meio daqueles viadinhos e posudos? Arrumar um homem ali para ela, Ingrid, sugar o sangue? Como ela faria isso, tão deslocada ficaria num ambiente tão nojento? Seria um desafio impossível, um tormento. As conjecturas se esvanecerem de sua cabeça ao concluir que vampiros podiam ser perversos e malignos de várias maneiras.   Ingrid desceu do carro com majestade e lentidão, apreciando cada olhar de admiração, pasmo e inveja, e Laura foi logo atrás, em passos mais lentos, incertos. Claro que a gótica tinha uma fração da classe e charme da Anciã e só os conseguia porque esta estava a seu lado.

            A vampira entrou no café-bar-restaurante-balada, sentou-se na cadeira mais distante possível do movimento e com um sinal mandou Laura arranjar um macho humano cheio de juventude, energia e acima de tudo sangue. Tudo isso contido em um único gesto, que a humana compreendeu muito bem. Quem mais numa cidade infernal de mais de dez milhões de viventes entenderia tanto em tão pouco? Ela e mais dois ou três, talvez!

A gótica, bastante deslocada em um ambiente em que imperava cor, luz e felicidade artificiais, voltou uns quinze minutos depois. Já estava meio bêbada,mas vitoriosa:um sujeitinho típico da Augusta vinha logo atrás dela. Ar blasé supostamente moderno, magrelo, mas alto e bem proporcionado, perfumado, roupas  modernas e caras -  melhores que as camisetas culturetes dos universitários duros e fingindo um ar de interessante que infestavam a região. Laura sentou-se ao lado de Ingrid, disse duas ou três palavras a ela, que mediu o sujeito e após respirar o ar ao redor ergueu as sobrancelhas, sem dizer  uma palavra, tudo traduzindo tanto  desprezo que o mancebo ficou parado,  nu, estático, enquanto a entidade de cachos negros levantou-se e seguiu resoluta para a porta. A expressão no rosto do sujeito passou, em um segundo, do triunfo do herói da noite que iria para a cama com duas gostosas para o idiota com os ombros vergados pelo peso do mundo, que terminaria a noite sozinho, limpando a mão do frustrante produto da masturbação.

A vampira caminhou até a segunda esquina, parou e esperou calmamente a gotiquinha alcançá-la, meio ofegante.

– O que foi, o que houve de errado? Um cara jovem, bonito. Ele estava babando para ir com nós duas para um lugar qualquer. Seria fácil demais levar ele para uma treva e sugar até a última gota. Por que não quis? A voz  era estridente como uma campainha metálica.

A vampira deixou somente parte de seu porte e poder aflorar, pois esse pouco era suficiente. Encarou a menina com uma mistura de severidade, desprezo e ternura, não em partes iguais, e disse:

– Eu não gostei do cheiro que exalava do sangue dele. Não me agradou, sei lá, parecia um homem típico dessa região; limpinho, cheiroso e arrumado por fora, podre e aguado por dentro. O sangue daquele imbecil cheirava mal, entupido de álcool de cerveja e de porcarias industriais. Sujo e ralo. Me enjoava! Bem, ainda não são onze da noite, há tempo suficiente para você arrumar um macho de verdade, que come carne e tem sangue grosso, forte e aromático. Procure não errar na próxima. Aliás, não erre.

Sem aviso, a BMW negra parou diante das duas, as portas se abriram e foram recepcionadas pelo sorriso do Alemão.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 20h21
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22/11/2009


Livros de fantasia

Boa noite a todos!

Meu amigo Roberto de Sousa Causo, companheiro e tantos eventos e acontecimentos da literatura fantástica, grande batalhador do gênero nessas plagas, me escreveu pedindo para divulgar, nesse humilde blog, dois livros em que seu nome aparece. O primeiro, Rumo à fantasia, é uma coletânea, repleta de clássicos e de narrativas modernas, editada pela Devir, editora que tem selos para fantasia, horror e ficção científica, e da qual Causo é colaborador ( ele é o editor do referido livro).

O segundo, Anjo de dor, é mais uma narrativa fantástica por ele escrita, um romance de horror, também editado pela Devir - vale a pena conferir seu catálogo, cliclando no link à direita e conhecer a obra de Causo e sua coluna  eletrônica semanal sobre literatura fantástica, no Terra Magazine.

Abaixo, as capas:

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h00
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14/11/2009


Próximo conto

Boa noite a todos!

O próximo conto será publicado em breve. Como sua produção foi algo incomum (não perguntem porquês e detalhes), o preview será também incomum: nada de trechos, apenas o anúncio de que o segundo episódio das aventuras de Laura e Ingrid está chegando.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h40
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05/09/2009


Artigo sobre Fantasia

Boa noite a todos!

Os frequentadores desse blog que me conhecem pessoalmente já sabem disso há tempos, e os demais agora saberão: este que vos escreve é, além de professor de língua portuguesa, escrevinhador medíocre e frequentador da vida noturna de São Paulo, pesquisador acadêmico de literatura fantástica, com mestrado sobre Howard Phillips Lovecraft e o escambau. E mais um desses escambaus foi publicado há pouco: tive o privilégio de ser convidado por Edgar Nolasco e Rodolfo Londero para integrar a coletânea de artigos Literaturas Invisíveis - Ficção Científica, Auto-ajuda & Cia, publicada pela editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Contribui com um artigo sobre os sentidos políticos da literatura de fantasia moderna, em que defendo a desprezada riqueza de sentidos do gênero e desço o sarrafo no preconceito que o meio universitário nutre pela fantasia. Para mais informações,acesse o link, recém-adicionado a nossa lista à direita.

Caio Bezarias


Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 02h05
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20/07/2009


Vinte anos depois - parte I, por André L.Pavesi, com revisão de Caio Bezarias

 Vinte anos depois, ainda querendo um pouco de diversão noturna


Mesmo nessa pocilga que alguns chamam de pista de dança, lotada e nublada por gelo seco e cigarros, eu não a perco de vista. Ela não sabe quem eu realmente sou, envolvida numa teia de mentiras tão frágil quanto qualquer farsa. Quando caminha até mim, com sua atitude blasé e suas cigarrilhas alemãs, minha presa não faz idéia do ardor que corre em meu sangue. Sigo seu jogo, baby, mas as regras são minhas.

 

Com um movimento estudado de corpo, a bela Ivana, também conhecida como Lady Vamp por seus amiguinhos góticos, joga seus longos cabelos bicolores sobre um dos ombros, revelando pescoço, nuca e um perfume infernalmente doce. Antes que eu mesmo perceba o que estou fazendo, envolvo seu corpo com meus braços, e começamos a dançar. Dominamos a pista, enlaçados e perdidos para o mundo. Ela me provoca ao máximo, nesse nauseante joguinho de sedução, num instante dizendo “Venha!”, no seguinte me afastando. Toco sua pele macia como a asa de uma pixie1 e branca como uma morte na neve, enquanto as outras pessoas na pista abrem uma roda ao nosso redor.

 

Ah, que vontade maluca de soltar uma garra, uma única garra para rasgar a garganta dessa vadia de uma orelha a outra, destroçando pele, músculos, veias e garganta! Que desejo alucinado de ver a dor em seus olhos verdes como o mar, misturada à certeza de que sua vidinha inútil chegou ao fim! Mas ainda não é chegado o momento, ela ainda terá mais algumas horas de vida. Mais tarde poderei, quem sabe, subir com ela para um dos quartos do hotel parcialmente abandonado acima de nós e mostrar-lhe um mundo de dor.

 

Olho em volta e me toco que terei que ficar esperto essa noite. Pelo canto dos olhos vejo sombras escorregadias, que desaparecem quando me viro para encará-las. Numa das áreas mais escuras da pista, bem debaixo de um poster gigante de Marilyn Monroe, dois sanguessugas observam o pedaço, procurando alguém para matar sua fome milenar. Já seria fácil reconhecer os palhaços pela extrema palidez de suas peles – porra, eles parecem quase transparentes! - mas o sutil cheiro de carniça neles não deixa dúvidas. Se eu ainda fosse como um dos cachorrinhos de Gaia, teria a obrigação de me revelar a eles, prevenindo-os de que estão no meu território. Como essa maldita politicagem me enoja!

 

Ainda me lembro da época em que eu era um desses malditos que seguem as ordens da fraca deusa, como um bando de totós, lassies ou benjies; ainda me lembro daquele papo-furado sobre Gaia e a grande missão dos licantropos de purificar e equilibrar novamente o mundo. Mas me lembro muito melhor da noite em que a máscara caiu, revelando toda a podridão que me cercava.

 

Era uma noite de chuva de finais de março, e eu estava sendo caçado pelos de minha própria espécie. Meu crime? Ter quebrado uma maldita trégua e abatido duas sanguessugas. Claro que com minha sorte de vira-lata não podiam ser duas sanguessugas comuns, cujo desaparecimento só seria percebido por uma meia dúzia de vampiros vagabundos. Não, uma delas tinha que ser uma espécie de princesa de sangue, favorita de um dos altos figurões dos malditos mortos-vivos. Em questão de semanas, minha vida virou um inferno, fui banido do convívio dos meus pares – ou pelo menos, dos que eu julgava como meus iguais naquela época, perdi minha casa e tudo o que tinha, passando a viver como um fugitivo. Por Hel, isso faz quanto tempo? Quinze, vinte anos?

 

Voltando a minha punição...eu estava perdido, ferrado de todos os jeitos. Estava cercado numa antiga fábrica abandonada na região do Brás, na verdade pouco mais do que um galpão destelhado, cheio de entulho e merda de mendigo por todos os lados. Sentia algumas costelas soltas, meus olhos já estavam fechados de tanta pancada, um braço pendia de lado, inutilizado, pingando sangue. Pelo meu corpo, marcas de mordida e pedaços de pêlo arrancado marcavam claramente cada um dos golpes sofridos. Já me preparava para vender caro minha pele para cinco dos mais fodidos licantropos de toda Sampa, e quem sabe levar um deles comigo pro quinto dos infernos, quando o tempo simplesmente pareceu desacelerar, quase parar. De repente, era como se eu me movesse entre eles, me senti num maldito museu de cera. E acima de nós, flutuando metros acima de minha cabeça, lá estava Ela, a verdadeira Deusa, envolta num bruxuleante brilho opaco. E como ela estava diabolicamente linda!

 

As mais diversas culturas ao redor do mundo a chamaram por inúmeros nomes através dos séculos. Nyx. Kali. Persefones. Ament. Eu prefiro chamá-la de Hel, a deusa da morte, aquela que acolheu o primeiro dos homens, e ainda estará lá para conduzir o último dos inúteis humanos rumo ao seu destino final.

 

Ela sorria para mim, de um jeito tão doce quanto obsceno, sua voz soando diretamente na minha medula. Nada de palavras de falso consolo, apenas a verdade nua e crua sobre a minha natureza, sobre meu verdadeiro papel no mundo. Descendo ao chão, ajoelhou-se ao meu lado, e tocando meu focinho arrebentado sussurrou em meu ouvido – Meu lobo...

Toda a dor que eu já tinha sentido naquela noite pareceu pequena perto do que veio em seguida – senti cada pedaço de meus músculos se rompendo de vez, apenas para se reconstruir, de uma nova maneira, com um novo trançado, mais forte e vigoroso. Ossos quebrados foram se esfarelando e ressurgindo no devido lugar, fortificados, órgãos danificados foram liqüefeitos e substituídos por novos. E todo o tempo o maldito sorriso não abandonou Seus lábios. Instantes viraram minutos de dor, enquanto meu corpo era inteiramente refeito. Naquele momento renasci para o mundo, para assumir meu lugar como um soldado de Hel, um servo da morte.

 

Minhas primeiras vitimas foram aqueles que minutos antes se vangloriavam de serem meus algozes, os desgraçados servos de Gaia. Quando o tempo voltou ao normal, marcando o começo da minha nova vida, afundei minhas novas garras em vísceras, costelas e sangue. Sob o olhar cheio de desejo e aprovação de Hel, derrubei um a um meus oponentes e profanei o mais sagrado dos votos dos licantropos, absorvendo sua alma, sua força e coragem.

1Pixies são criaturas mitólogicas, muito comuns na literatura da era vitoriana; maiores dúvidas, procure no Google!!

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 19h54
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Vinte anos depois - parte II, por André L. Pavesi, com revisão de Caio Bezarias

 

Acordei dias depois, numa cama que reconheci como minha, embora nunca tivesse botado minhas patas naquele lugar. De alguma forma, sabia que o apartamento de cobertura, a antiga suíte presidencial do abandonado Manchester Hotel seria meu novo lar, minha nova toca para uma nova vida.

 

Ah, como tem sido infernalmente gloriosa essa vida! De alguma forma o lobo que eu era foi apagado para sempre da existência. Mesmo o mais habilidoso dos caçadores de Gaia não reconhecia meu rastro – pelo Nove Círculos, desde então eu tenho circulado como um mero humano bem debaixo de seus focinhos bastardos!

Pelos anos seguintes, me tornei uma nova lenda urbana na metrópole que nunca dorme. O caçador negro, a-morte-que-anda, uma verdadeira história de terror para os licantropos de minha terra. Tirei de circulação mais vampiros e lobisomens do que imaginava possível, reservando a cada um deles um destino especial. Ah, ainda me lembro da cara de Lúcio quando entrou numa segunda-feira de manhã em seu escritório e achou a cabeça de sua concubina favorita largada sobre sua mesa de trabalho!! Assim como me lembro do pavor irracional, do cheiro do medo saindo de cada poro da amaldiçoada Ingrid enquanto segurava sua carcaça contra os raios do sol nascente.

 

 

Mas certamente minha bela parceira dessa noite nem faz idéia de nada disso; para ela, eu sou apenas um sujeito boa-pinta, passado dos trinta anos e que a leva a loucura, participando dos seus joguinhos patéticos de sedução. Para seus planos, eu sou pouco mais do que uma refeição cozinhando em banho-maria. Não, ela não é uma sanguessuga. Ela é pior do que isso, é uma humana viciada em jogos de sexo e perversão tão doentios que a levaram ao mais inumano dos atos – drogar-se com o sangue podre de um vampiro, e no pico mais louco dessa viagem transar com um morto-vivo, sabendo o que ele é. Mas pior do que isso, ela é uma fornecedora, levando garotos e garotas para seus amiguinhos sanguessugas se alimentarem.

 

 

Ela se aproxima de mim mais uma vez, deliciosa em seu espartilho vermelho, longas pernas enfiadas em botas pretas de cano alto. Diz que quer ir embora, insinuando que teremos várias paradas no caminho. - Quanto uma vadia pode ser previsível? Basta darmos a volta no quarteirão para chegarmos à entrada do Manchester Hotel, meu lar no últimos 20 anos. Nos anos setenta, o Manchester foi um marco de luxo e gosto duvidoso, mesmo para os padrões da época. Mas o grand hotel tinha duas caras - de fachada, um glamouroso ponto de encontro do jet set mundial, um oásis primeiro-mundista no terceiro mundo paulistano. Mas, como todo grande hotel, mantinha sua sujeira varrida pra debaixo do tapete, guardando segredos que fariam corar Nelson Rodrigues, cheio de quartos e andares para uso exclusivo de alguns poucos e maus. Durante toda a década de oitenta a decadência do lugar foi visível. Aos poucos, antigos habitués o deixaram de lado, algumas atividades ilegais – prostitutas, jogatina, drogas, pode escolher - simplesmente migraram para outras paradas, outro hotéis, menores e menos espalhafatosos, mas não menos podres. Finalmente, na virada dos anos 90, o grande Manchester Hotel, o número 1 na hospedagem de todo tipo de grã-fino, de presidentes a misses do mundo todo, abriu falência. Com o passar dos anos, alguns sócios morreram, os andares foram sendo fatiados e transformados em cinzentos escritórios, sem nem sinal do que fora até alguns anos antes. Uma ala inteira do hotel – adivinhe, justamente os andares bukowskianos, secretos do lugar – ficou trancada, reservada sem ocupação, até que me mudei para sua cobertura.

 

 

O caminho entre o bar e um dos quartos do Manchester é marcado por beijos espalhafatosamente quentes, o gosto de Scotch e tabaco impregnando minha garganta. Já no elevador, as carícias aumentam ainda mais de intensidade, justificando uma parada rápida para uma trepada mais rápida ainda, o que apenas fez aumentar a ferocidade de seu ataque sensual.

 

Cerca de uma hora depois, ela dorme em meus braços, com todos os instintos do baixo ventre satisfeitos. Ou pelo menos parece dormir, com esse tipo de gente nunca nada é o que parece ser. Levanto-me e vou até o banheiro, onde a diversão começa. Hel, eu simplesmente adoro essa parte, a hora do show! Em segundos, assumo minha forma natural, um pesadelo de pêlos negros e garras afiadas, trezentos e cinquenta quilos de dor e morte. A transformação continua tão dolorosa como da primeira vez – a dor infinita é um tributo pequeno a se pagar para quem quer seguir os caminhos de Hel.

 

As vezes, faço uma cena digna de filmes de terror – começo a me contorcer e gemer, me transformando lentamente diante de olhos cada vez mais esbugalhados, me divertindo pacas vendo a sanidade escorrer pelas orelhas de minha futura vítima. Mas com ela prefiro o tratamento brutal: arranco a porta do banheiro com uma patada, e pulo no quarto rosnando e babando como uma fera saída do Inferno – e não é exatamente isso que sou? Pela sua reação, ela devia mesmo estar dormindo naquele momento, não há como confundir tão clara transição, da cara amassada de quem acorda de supetão para uma expressão de puro pavor primitivo. Sua primeira reação, além de molhar o que restava de lençóis limpos da cama, é gritar como uma louca. Por um instante achei que ela fosse desmaiar, estragando toda a diversão da noite. Mas, depois de alcançar vários decibéis com seu berros, ela parece tremer da cabeça aos pés e despertar pra vida, saindo em disparada pela porta do quarto. Apenas como medida de incentivo, capricho num novo urro amaldiçoado, daqueles que parecem ecoar por toda a eternidade na cabeça de quem os ouve.

Tadinha da graciosa Ivana – ela sai em disparada, buscando primeiro os elevadores – emperrados por mim, claro – depois as escadas de serviço no final do corredor dos quartos, onde a saída para os andares superiores também está trancada, forçando-a a descer. Mantenho uma certa distância, perto o suficiente para que ela continue apavorada, e a sigo escada abaixo. Dois andares depois, ela encontra uma porta aberta, entrando em mais um corredor cheio de quartos. Um corredor escuro da ala abandonada do hotel. Exatamente como eu queria, ah!

 

 

Nas entranhas mais profundas do Manchester, num ponto que se ainda estivesse neste plano de existência seria bem no meio do antigo hotel, existe um tipo de loft, um antigo salão de festas. Suas janelas altas e estreitas foram construídas como seteiras dos antigos castelos medievais, protegendo o ambiente de qualquer interferência do mundo externo – um mundo externo em constante mutação, mas nem sempre amigável. Nos meus primeiros tempos no Manchester, encontrei esse lugar, com sua mistura única de cheiros e rastros, algo nauseantes, algo envolventes. Afastei todos os móveis e tranqueiras amontoadas nesse salão, limpando-o de tudo. Com a troca da porta por uma de aço reforçado e o reforço das janelas altas, tornei o antigo palco de inimagináveis orgias e profanações sem fim das ordens vazias de Gaia numa masmorra inviolável. Uma vez trancada a porta, nem uma porra de uma guerra nuclear pode coloca-la abaixo.

 

É justamente essa porta que Ivana vê no final de um longo caminho, provavelmente o mais apavorante de sua curta vida, depois de avançar aos tropeções por um verdadeiro labirinto de corredores escuros e portas trancadas. Ao longo dessa tão deliciosa caçada, assumi um comportamento de errático, inconstante, apenas para aumentar ainda mais a pressão sobre ela. Quando ela disparava alucinada, correndo e tropeçando no escuro sem nem mesmo ver o caminho, eu avançava no mais completo silêncio, como só um caçador noturno sabe fazer, apenas para me aproximar dela e urrar bem ao lado do seu rostinho lindo, encharcado de lágrimas e suor, sua pesada maquiagem escorrendo como pequenos filetes de sangue. Em seguida, socava a parede ao seu lado, ou passava minhas garras no pelo chão, cortando filetes no carpete, minha respiração monstruosa preenchendo todo o ambiente.

 

Fecho a porta atrás de Ivana, trancando para sempre. Nesse momento imagino que ela esteja mais confusa e cansada do que propriamente assustada. Deve estar olhando em volta, imaginando que encontrou um lugar seguro, longe de minhas garras.

Longe das minhas garras pode até ser, mas seguro...ah! Ao longo dos últimos vinte anos, tirei de circulação um sem-número de vampiros. A maioria encontrou um fim às vezes rápido, às vezes lento, mas sempre sangrento e doloroso em minhas garras. Mas para alguns, escolhidos diretamente por Hel em todo Seu sinistro esplendor, reservei um destino especial. Imagine o que é para esses filhos da noite, desgraçados amaldiçoados até o final dos tempos, ver o sol nascer por pequenas janelas – eu diria parecidas com seteiras de castelos medievais – sem poderem se alimentar, sem um simples esguicho de sangue para sacia-los. Imagine como a dor e a fome corrompem sua consciência, reduzindo-os a pouco mais do que animais.

Quanto tempo um petisco como a deliciosa Ivana, linda e doce, banhada em lágrimas e suor, transpirando medo por todos seus poros, durará trancada com eles?

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 19h51
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23/06/2009


Preview do conto-que-ainda-vai-ter-um-nome

Saudações noturnas,

Após um hiato loongo demais, estou de volta com mais um preview do meu próximo conto, que como o título do post já diz, ainda não tem um nome definitivo - vamos chama-lo por enquanto de "Vinte anos depois...".

É mais um caso clássico de como eu começo um conto jurando de pés juntos que ele vai seguir numa direção, ter um certo tipo de citações e cenário, e de repente ele simplesmente empaca nesse caminho - eu fico ali puxando, empurrando, praticamente implorando pro diacho do conto se mover na direção que eu achava que seria a mais correta, e ele simplesmente me olha com aquela cara de paisagem e permanece empacado. até que um momento, remoendo as idéias em algum ponto do caminho, ele simplesmente olha para outro lado e dispara numa direção totalmente nova.

Bom, chega de blá-blá-bla´...segue abaixo o preview do "Vinte anos depois..."

Até a próxima,

A.

 

"Com um movimento estudado de corpo, joga seus longos cabelos bicolores sobre um dos ombros, revelando pescoço, nuca e um perfume infernalmente doce. Antes que eu mesmo perceba o que estou fazendo, envolvo seu corpo com meus braços, e me uno a sua dança. Seguimos até o meio da pista, enlaçados e perdidos para o mundo. Ela me provoca ao máximo, nesse nauseante joguinho de sedução e repulsa. Ah, que vontade louca de rasgar sua garganta, um único talho, de uma orelha a outra, uma única garra rasgando pele e garganta! Que desejo alucinado de ver a dor em seus olhos verdes como o mar, misturada a certeza de que sua vidinha inútil chegou ao fim! Mas ainda não é chegado o momento, e ela ainda terá mais algumas horas de vida. Mais tarde vou subir com ela para um dos quartos do hotel abandonado acima de nós e mostrar para ela um mundo de dor."

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 22h51
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11/06/2009


Novo link

Boa noite a todos!

Temos o prazer de comunicar o acréscimo de mais um endereço a abrilhantar nossa seção de links: o blog de Cristina Lasaitis, escritora de ficção científica e fantasia, que tivemos o prazer de conhecer e conversar, no último sábado, em evento da Tarja Editorial, de São Paulo. Cristina é uma escritora muito imaginativa e com olhos argutos voltados para as contradições de nosso mundo e  denossa cidade. Não deixem de visitar, ler os textos e comentar.

Saudações etílicas a todos.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 23h41
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07/06/2009


Atribuições de um licantropo. Ou: tornar-se jovem aos 35 - parte I. Por Caio Bezarias, revisão de André L. Pavesi

Junho de 1986, Tucuruvi, zona norte de São Paulo              

A noite era fria, fria como eram as noites de junho em São Paulo, há não tantos anos. Nuvens brancas e densas corriam pelo céu, mostrando e escondendo as estrelas, poucas mas bem nítidas. Apesar da temperatura, o ar era agradável de respirar. Havia pouco movimento nas ruas, uma ou outra pessoa bem agasalhada que corria para casa e para a TV; era um bairro de gente simples e de gente simplória. Em um sobrado de esquina, alguém estava sentado sobre uma mureta meio torta: um rapaz magro mas alto e bem proporcionado para sua idade, que não fazia nada de especial, apenas olhava o mundo: a brancura das nuvens galopando pelo céu parecia feita por um pintor divino, o piscar das estrelas era mágica pregada no céu, as luzes dos poucos prédios que então havia na região eram cada uma um segredo a ser desvendado. Todas as coisas transmitiam um som, um acorde, um brilho, um sinal insinuando um mundo empolgante e cheio de descobertas, quando ele fosse adulto e dominasse a capacidade e os recursos para se mover entre lugares e pessoas que agora o impressionavam e enchiam-no de curiosidade e desejo.   

Ele estava maravilhado com o futuro que seus sonhos e descobertas prometiam – claro, o que ele já sabia e experimentara era pouco, tinha somente 13 anos... – As leituras  que pouco a pouco fazia, as muitas canções falando de amores profundos e sofridos, de emoções intensas e assustadoras e os relatos dos seus vizinhos mais velhos descortinavam uma cidade violenta e repleta de tribos estranhas e fascinantes, que se enfrentavam e se misturavam lá longe, em porões escuros e barulhentos no Centro da cidade,  tudo um mosaico que ele iria decifrar e colorir.

Ele estava cheio da energia que enlouquece o adolescente e o faz descobrir que a vida é um sem-fim de possibilidades. E ele era jovem, faria tudo que sonhava e o que não sonhava, tinha tantos e movimentados anos a sua frente.

Os poucos que passavam não deixavam de notá-lo: parecia mais alto do que realmente era e em seu rosto ainda imberbe e sem barba estava marcado tudo que corria em seu interior, naquele momento mágico. Uns riram,  julgando-o apenas mais um menino boboca; vizinhos e conhecidos, sabedores de seu hábito de observar as estrelas nada diziam ou davam um aceno,  e uma mulher de trinta anos, metida em um casaco longo e pesado, rosto marcado por  uma mistura de sabedoria e amargura, dirigiu-lhe uma observação meio jocosa, que  não entendeu e ainda retribuiu com um sorriso.

A última pessoa a passar pela rua estreita e tortuosa, antes de ele se recolher, cedo, foi a mais importante, mas ele nunca soube. Um homem de altura média, cabelo escuro e cheios de caracóis, rosto marcado e vivo, vestindo roupas típicas da década anterior, veio da direita, caminhando sem pressa alguma; não interrompeu por um único instante o passo lento e regular nem dispensou o mais breve  olhar para o garoto,  pois sabia sua tarefa desde que Gaia o chamara,  há poucos minutos,  tirando-o da chácara centenária e meio abandonada  que resistia ali perto, a uns duzentos metros de distância, onde ele e mais dois lobisomens, convocados pela Mãe-Terra, faziam uma espécie de ritual para concentrar e depois espalhar sua energia vital entre seus filhos ingratos e cegos. E foi justamente isso que o tirou do galpão meio apodrecido em que ele e os parceiros trabalhavam para o bem dos humanos mas também contra eles: A imagem do garoto, sentado, acompanhada de algo semelhante a um choque elétrico, em que ecoava a ordem de  impregná-lo com a energia vital que eles estavam ali concentrando, pois se ele a recebesse e soubesse conservá-la e usá-la, seria um importante agente de Gaia sem saber, espalharia entre a decadente infinidade humana  a energia da vida autêntica.  

Assim fez Lúcio, como sempre fez em seus mais de duzentos anos de vida: pôs de lado o que fazia e obedeceu de pronto a Mãe-Terra, sem dúvidas ou questionamentos. Enquanto passava , ligou-se à energia corporal do rapaz, energia que era pura emanação de Gaia, como a natureza e ser do lobisomem também eram, e  impregnou-o com o máximo da força e do desejo de viver sem limites, sem medo de trazer caos e sofrimento a quem quer que fosse – mesmo a si mesmo – se  isso fosse condição para viver de fato, como a Mãe de Todos ordenou-lhe.

Lúcio partiu, sereno, sem se importar com o que a força desmedida que inoculou no rapaz causaria em sua vida futura.

Naquela noite o garoto foi dormir esperançoso e exaltado, imaginando mil possibilidades e maravilhas para sua vida, certo de que seria interessante e movimentada e começaria de fato em breve.                         

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 02h04
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Atribuições de um licantropo. Ou: tornar-se jovem aos 35 - parte II. Por Caio Bezarias, revisão de André L. Pavesi

Julho de 2008, Rua 24 de maio, centro novo de São Paulo

                Fim de tarde, sexta-feira, as ruas do Centro apinhadas. Escriturários, gerentes, chefes, contínuos, secretárias, técnicos e bancários, vendedores, balconistas e outros mais se apressavam em correr para casa ou buscavam uma mesa de bar para relaxar, após uma semana, um mês, um ano, uma vida inteira matando a si mesmos nos cubículos, escritórios e lojas que enchiam prédios de formas geométricas e sem beleza do Centro da cidade.

                Ninguém se destacava em meio à massa. Todos eram cinzentos, cansados e fartos, e muitos já pareciam meio mortos, sem vitalidade ou essência, a vida sugada e substituída por rotina, obrigações,  desejos e ambições que na maioria das vezes não eram seus, mas instrumentos de interesses alheios.              

                As pessoas mal reparavam umas nas outras, estavam fechadas em suas conchas de pequenos dramas, ambições e frustrações, e ainda julgavam seu drama particular o mais profundo e desesperador de todos os dramas que faziam de São Paulo o que é. Assim sentia-se um  sujeito de pouco mais de trinta anos, alto, precocemente grisalho, olhar bravio, preso dentro de um terno barato, um sofredor e injustiçado, que ao passar por uma galeria da 24 de maio, apinhada de bares e  de gente que iniciava seu fim de semana do modo mais sensato possível – embriagando-se –  resolveu fazer o mesmo, pois lembrou-se da mulher já o esperando, de suas  exigências e reclamações e dos três filhos estridentes.

                Nenhum dos “colegas” de trabalho estava com ele, e isso era bom, estar sozinho era sua melhor terapia. Sentou-se na primeira mesa desocupada que encontrou, pediu cerveja ao atendente e pôs-se a assistir ao mundo fluir, enquanto a bebida fluía pelo corpo e aos poucos acalmava sua cabeça.

                Os pensamentos que tanto lhe atormentavam (O que dera errado? O que tinha feito de sua vida? O único responsável pela desgraça em que afundou era ele mesmo. Não havia saída, viveria e morreria infeliz e sufocado) não vieram e torturaram, como ocorria várias vezes ao dia. Deslizaram pela consciência e desapareceram, talvez expulsos pelo álcool, e deram lugar a uma terna nostalgia para com seu começo de juventude, quando a vida parecia um sem-fim de promessas e ele imaginava-se capaz de virar o mundo do avesso, em nome de sua realização pessoal, da aventura e do novo.

                O princípio da adolescência sem dúvida era a melhor porção da vida, depois, somente desgostos e problemas, pensou. Adolescência em que nas noites de sexta-feira esperava os pais dormirem para, silencioso como um rato, voltar para a sala, ligar a TV e deliciar-se com as deusas seminuas do Sala Especial, pois ainda não havia conhecido uma mulher e o sexo era  a maior das maravilhas que o futuro reservava. Sim, tempos fáceis e divertidos, em que aqueles filmes e seus tipos e roupas bizarros não eram ridículos. Tipos vestidos exatamente como o que ocupava a mesa bem a sua frente.  O homem não era mais um rapaz mas exibia boa forma, vestia-se com roupas quase exóticas: blazer bege  meio curto riscado por listras vermelho-escuro que formavam quadrados, sapatos impecáveis de bico fino e brilho intenso, gravata curta e cinza, camisa de seda verde-clara. O cabelo encaracolado precisava de um corte, e no rosto barbeado e moreno destacavam-se os olhos confiantes e a expressão, o cara sem dúvida era um cafajeste convicto e orgulhoso, como se saído de um daqueles filmes que tanto embalaram seus tempos de rapaz, tempos de  festinhas e bailes nos sábados à noite, improvisados em garagens, quando ele e seus amigos deslizavam suas mãos por cada parte do corpo das meninas, tentando apalpar os seios e as calcinhas durante danças de corpos e outras coisas grudadas, tempos em que a música e seus grandes heróis davam resposta e sentido para tudo, as garotas eram menos agressivas e interesseiras, a cidade um atraente labirinto de descobertas e prazeres.   

                Juventude, para onde fora? O que o mundo e principalmente ele tinha feito a si mesmo? Por que abandonou o sonho de ser músico e deixou o que deveria ser somente sua forma de sustento se tornar sua vida, a ponto de concluir um curso imbecil, o curso dos “idiotas que não sabem o que querem da vida, querem apenas ganhar dinheiro e não viver”, como dizia um amigo mais velho daquela época, sobre o curso de administração, que ele tanto odiou e ainda odiava.

                Mas algo ocorreu, diferente das demais tardes de sexta-feira, em que o ritual deixar o trabalho-embebedar-se-chegar em casa- discutir  com a inimiga que diziam ser sua esposa se repetia, semana após semana, mês após mês, ano após ano: descobriu onde a energia da juventude se enfiou e essa descoberta o fez um rapaz de novo, as lembranças da adolescência não eram mais dolorosos avisos de seu fracasso. Não lembrou-se do rapaz cheio de energia e planos que foi, voltou a ser esse rapaz. Os dias memoráveis, em que mostrou esperteza e rapidez insuspeitas para sua pouca idade; as noites de alegria, beijos e alguma lascívia; as letras bobas mas sinceras que escrevia aos montes, para serem cantadas pelo grupo de rock que nunca formou, tudo isso, ele descobriu ali, vinte anos depois, não esteve morto, apenas oculto e esquecido.

                O renovado rapaz, o garoto cheio de energia que renasceu naquela tarde quente e estranha compreendeu bem rápido algo muito importante: primeiro, antes de recriar sua vida e dar vazão àquela energia imensa, deliciosa e perigosa, que  tinha retornado tamanha que não poderia mais ser calada ou reprimida, antes ele deveria reduzir sua vida a um nada doloroso. Para ser recriada, deveria ser destruída. Mas houve algo desse fim de tarde que nunca percebeu: o renascimento de sua juventude ocorreu durante e logo após o sujeito vestido como um cafajeste dos anos 70 dirigir-lhe um olhar fixo mas muito breve.

O homem que voltara a ser jovem liquidou a cerveja, pagou e foi cuidar de sua nova vida. Já Lúcio reaprendeu algo que quase esquecera, tantas foram as atribulações, confusões e problemas que tivera nas últimas décadas: ele e os outros licantropos não eram apenas furiosos guardiães de Gaia a protegê-la dos homens. Mantê-la viva e forte também significava espalhar sua energia entre os humanos, a energia que anima a vida, sem nenhuma amarra ou limite, ignorando as conseqüências mais particulares e exatas que isso poderia gerar. Os homens e sua sociedade estavam por demais dominados pela Sombra do Sidh e precisavam reencontrar-se com sua essência, que não estava perdida, como muitos, até entre os licantropos, julgavam.

Lúcio, ao reencontrar o garoto de 1986 e fazê-lo ressurgir, redescobriu que os lobisomens não eram somente mestres severos ou predadores dos homens, eram também seus companheiros na jornada através das veredas e caminhos escuros do planeta, através dos jardins de Gaia.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 02h02
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