CARPE NOCTEM - O mundo da meia-noite de São Paulo


11/05/2012


O chamado da noite - parte I, por Caio Alexandre Bezarias, título, edição e revisão por André L. Pavesi

Natasha caminhava apressada pelas ruas do Bixiga nos arredores do Darkness, olhando para os lados, para trás, até para os telhados das casas centenárias construídas pelos primeiros imigrantes italianos que tiveram algum sucesso na nova terra, casarões cujas janelas fechadas pareciam olhos a lhe espreitar e seguir; seu olhar era de temor, como se temesse os nordestinos e peões bêbados e os adolescentes idiotas posando de manos que vagavam pelas ruas tortuosas do bairro; ela sentia-se amedrontada, vampira que conhecia cada ser das trevas que vagava por São Paulo e que devia respostas e obediência somente à arquilendária Anciã que vivia na cidade.                                                                                                                    A garota baixa, carnuda, de seios e nádegas fartos, deliciosa e provocante, os cabelos curtos expondo um lindo pescoço alvo enfeitado por uma tatuagem em forma de perfil de morcego, que para sempre aparentaria dezenove anos e sempre pronta para o sexo, bebedeiras, noitadas e todas aventuras perigosas que movem a juventude limpou a boca com as costas das mãos duas, três, quatro vezes com força, até o lábio arder, enquanto aguçava seus sentidos de vampira ao máximo. A sensação de estar sendo seguida e observada continuava e a fonte daquilo era indefinível, estranho. Não era o chamado de Miranda, amiga, amante, com quem experimentava seguidas e incansáveis noites o deleite de sugar o sangue dos mortais e senti-lo fluir de uma para a outra, a essência vital dos humanos, simples alimento que impregnado do ardor e paixão de uma pela outra circulando por seus corpos, fortalecia, extasiava... gerando uma sensação de prazer e união entre elas, vampiras-amantes, tão intensa e deliciosa que as práticas lésbicas de Natasha do tempo de mortal, como sugar o néctar que escorria do sexo das meninas roqueiras e góticas que seduzia e iniciava, outrora o ápice do prazer perverso, hoje eram uma brincadeira infantil e sem profundidade ou intensidade algumas.  

Miranda sempre fora ciumenta e meio despirocada, violenta, mas também sempre amorosa e preocupada com sua linda ninfeta-amante por toda eternidade e nada disso estava presente na coisa que rescendia ao redor dela. Não, a névoa tênue e sufocante que a espreitava era vazia de qualquer ternura ou outro sentimento doce, era na verdade uma volúpia selvagem. E havia algo mais muito estranho, um odor doce percorrendo o miasma místico, erupções que emergiam aqui e ali, raios de desejo, de puro cio animal, buscando seu corpo de fêmea, mas dos quais não conseguia identificar fonte, seu emissor, seu “dono”; eram emanações puramente animais, pois não consistiam em desejo por uma certa mulher, queria todas as mulheres e encontrara Natasha, logo a queria. Era puro, intenso e violento, desejava as mulheres pelo cheiro do seu cio, queria colhê-las como flores selvagens da cidade; ela sentiu que havia o brilho da lua no olhar daquele ser, a certeza da paixão em seu toque. E que um alimentaria o espírito do outro ao se tocarem e se sentirem, com suas essências, seus eflúvios, com seu desejo carnal, sensual e primitivo despertado pela natureza animal.

Uma erupção de tesão, que aflorou imensa e avassaladora, pelo descuido de se deixar entregar àquelas sensações por um único instante, preencheu Natasha. A vampira lésbica sentiu-se tão enojada de si mesma que apertou o passo rumo ao Darkness, para lá encontrar sua amada e mergulhar na segurança de sua companhia, da caçada noturna de sempre e esquecer que se deixara fascinar pela desprezível essência masculina. Daquela essência queria apenas o sangue, que, com a sua amada, sugaria do corpo de um qualquer daquela raça desprezível. Sim, para o Darkness, o campo de caça em que reinavam absolutas e incógnitas, oh combinação perfeita, noite após noite...

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h15
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O chamado da noite, parte II - por Caio Alexandre Bezarias, título, edição e revisão por André L. Pavesi

 

         Apanhou a garrafa de cerveja nas mãos, sentiu ganas de atirá-la contra a parede, reprimiu a vontade, estilhaçou-a entre os dedos, os cortes na palma da mão fechando-se em segundos, sem deixarem o mínimo sinal de que tinham existido. Catzo! Caralho!!!Era para isso que fora transformado, para isso ser um filho de Gaia? Para o desejo e a busca pela saciedade definitiva desse desejo serem ainda mais nítidos e dolorosos? Os sentidos supersensíveis serviam somente para que o mundo ao redor apenas exacerbasse o desespero de sua busca infrutífera?

Isso era ser um membro do Povo? Sofrer mais que a mera humanidade?  Bela porcaria!! Dias e dias em busca daquela putana magnífica, a melhor, mais gostosa, perfeita e extasiante que já tivera em toda sua vivência masculina e nada!!! Qual o valor de saber que uma entidade ancestral pavorosa de tão estranha e antiga se escondia debaixo do Trianon e que toda a Bela Vista e arredores da Paulista fervilhavam de energia elemental, de emanação de Gaia, se não conseguia localizar uma única mulher?! A mulher que justamente o levara para essa condição, que lhe trouxera a dádiva que se tornara maldição.

         Isto se tornara Jorge, desde há vários dias: um patético homem que suspirava por uma mulher-lobo que o transformara para ser algo muito maior e mais profundo que um sujeito desesperado pendurado em uma janela, negando sua nova e poderosa natureza, mantendo-se preso a conceitos e recalques...humanos. Mergulhara num estado de tal estranheza, uma loucura contida, uma fúria prestes a explodir mas que jamais poderia fazê-lo que supôs ter finalmente ter conhecido a tal besta interna: a fúria se apossara dele e já não cria mais possível saciá-la, estava condenada (e condenando a ele, por isso) a ser para sempre uma volúpia, uma sede, um desejo que jamais seria aplacado em definitivo, sempre incompleto e finito. Onde aquela loba vadia se escondera tão bem que ele não farejava o menor aroma de um único fio de sua delicada pelagem?       

         Ele não mais saía de seu pequeno e bagunçado apartamento há algum tempo. Ele, o grandalhão que era uma lenda no Darkness, no bar do Chin, nos botecos ao redor da Galeria do Rock, o “rei do metal”, o “imperador noturno”, o cara que já fizera o diabo com inúmeras garotas na Catacumba, o dark room improvisado que imperava ao lado da escada principal da lendária casa noturna, ele estava há noites curtindo bode na janela, observando a vida alheia, sem uma mínima rajada de energia a conduzi-lo para a noite, para o seu amado centro, para os bares, becos e confusões do Centro e da Bela Vista, que tanto adorava.

         E foi no auge, numa noite desesperadora, em que tudo que fazia era esvaziar garrafas e mais garrafas de cerveja e disparar olhares tristonhos para a São Paulo noturna que aconteceu: ela simplesmente pulou para dentro, pela janela, saltou no chão salpicado de garrafas e latas de cerveja e papéis amassados, caminhou calma e displicente até o acanhado sofá, sentou-se, cruzou as pernas, expondo as partes, mal ocultas pela saia curtíssima e disparou as palavras aviltantes:

         – Um lobo tão bonito e gostoso passando noites em casa, como um adolescente ingênuo e romântico, que tomou fora da mocinha amada...   

–Ããããhhhh... – E ao tentar agarrá-la num salto, foi humilhado por Tainá, que se livrou (não seria “se livrou”?) dele sem dificuldade, o derrubou num movimento incompreensível de tão rápido e simples. E ainda teve de ouvir, estatelado no piso imundo, a mão de dedos finos e longos, pele perfeita de tão macia, o mantendo pressionado contra o chão sem esforço aparente:   

         – Quando Gaia  envia uma ordem, você obedece!

         – Eu obedeci! Meu corpo pedia pelo seu corpo, este corpo perfeito e maravilhoso que fez do meu corpo isso que ele agora é!! – Ao sentir o toque e o perfume dela a energia represada há tanto tempo explodiu, fluindo por seu corpo humano, que cobriu-se de pêlos longos, os músculos expandiram-se, o focinho cresceu, emitindo um som semelhante a ossos se partindo e a transformação completou-se para ele se tornar um grande lobisomem mantido imobilizado no chão por uma mulher de um metro e oitenta.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h14
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O chamado da noite - parte III - por Caio Alexandre Bezarias, título, edição e revisão de André L. Pavesi

– Ser um membro do Povo não é ser um romântico idiota que se isola e mergulha em auto-piedade porque não consegue encontrar a musa perfeita; aliás, meu caro, toda musa é questionável! Um macho do Povo, para satisfazer a volúpia que inunda o sangue de todo mamífero, de todo ser carnal filho de Gaia, conjuga a astúcia e o dom das palavras sedutoras, humanas, com o desejo animal furioso e arrebatador que o domina diante da primeira bela fêmea que surge ante seus olhos e corpo!

– Você é um homem-lobo, para você importa o cio, o ato, desde que a fêmea seja bela e disponível! Liberte-se da ilusão da mulher ideal que te salvará da refrega de noites e noites de caça, pois este se tornou seu destino: caçar e por meio disso espalhar a força de Gaia neste mundo moribundo. Saia de sua toca,vá para a cidade, Gaia não te fez para ficar aí como cachorrinho que perdeu a dona.

– E se eu lhe disser que minha dona é você?

– E se eu lhe disser que somos mamíferos selvagens que só acreditam no cio e no acasalamento, que amor é uma invenção desses ridículos humanos, para negarem sua natureza, da qual se envergonham como idiotas?

– Cheguei a me achar apaixonado por você.

– Ha ha ha ha ha!!!! – Tainá libertou-o, caiu no sofá e rolou, enquanto gargalhava. Jorge sentiu-se um rapazinho desastrado cuja declaração de amor ridícula e insegura à mais bela garota do bairro é destroçada por uma rajada de risos, murchou e retornou à forma humana.

– Nós somos criaturas de carne comandadas por princípios e poderes absolutamente impessoais e imemoriais. Após acasalar-se com a primeira garota que te excitar serei uma irmã, uma companheira de raça e talvez de caça, não devo ser mais que isso em sua mente e principalmente seu corpo. Vá, encontre as mulheres, as possua!!

– É para isso que veio?!

– Sim! Gaia ordenou, gritou a ordem. Incrível como as ilusões típicas dos humanos ainda te impregnam. Machos!! Não importa a espécie, sempre uns tontos. Daqui a pouco vai dizer que quer “fazer amor comigo”!! ha ha ha.– Fora daqui! – E com outro salto ergueu-se e desapareceu pela janela.

Ele permaneceu estático por alguns instantes, então sentiu que algo o puxava de novo para a janela, mas algo completamente diverso da pseudo-paixão pela sua lobeira[1]. Uma onda de partículas trazida pela brisa invadiu a pequena sala, procurou seu corpo e seu espírito de licantropo, despertando, acendendo, queimando-lhe por dentro. Era um eflúvio de muitos odores misturados a emanações menos materiais, mais sutis mas tão deliciosas quanto, todas diferentes entre si, mas de uma mesma natureza: as emanações que as fêmeas humanas deixavam pelo mundo afora, enquanto desfilavam. As palavras de Tainá, impregnadas da força e da ordem da Mãe-Terra despertaram a consciência e furor que jaziam nele desde a magnífica noite na Serra da Cantareira, impacientes para se manifestarem em pleno fulgor.

Ilusões e sentimentalismos que habitavam sua carne e espírito e pareciam eternos e imutáveis definharam sem deixar rastro, seus sentidos tornaram-se mais sensíveis, um novo frescor impregnava o ar.

Jorge aspirou o ar da noite, inflou o peito, ajeitou a camisa no corpo e os cabelos na cabeça e saiu para a noite, rumo ao Darkness, pois uma trilha nítida de cheiro e presença de fêmeas vinha de lá e dos arredores, o chamando, pedindo para que lá ele final e verdadeiramente concluísse sua transformação em membro do Povo.

Pouco mais tarde, Natasha e Miranda já caminhavam absolutas, como rainhas da noite que eram, Darkness adentro. Retornaram ao térreo e espalharam-se mais uma vez no balcão, em busca do próximo mortal.  Menos de uma hora antes já haviam experimentado o êxtase, sugar a vida de um sujeito abjeto, um bêbado que se julgava macho por ser grosseiro e violento, fazer seu sangue circular de uma para outra, por meio do beijo vampírico. Ah, fora tão maravilhoso que precisavam de mais, mais, repetir o ato mais três, quatro vezes, até  desafiarem o maior dos perigos e verem o céu anunciar o fim da madrugada e que deveriam recolher-se em breve. E a próxima vítima estava escolhida. O sujeito alto, forte, cabelos escuros, vestimenta completa e clássica de headbanger estava postado no canto oposto do balcão. Natasha teve uma sensação estranha ao pousar os olhos nele, algo no sujeito lhe era familiar, uma impressão forte, mas indefinível, no entanto guardou a impressão para si, pois aquele corpo forte, abrutalhado, sem dúvida tinha muito sangue correndo em seu interior.

Bastou lhe dirigirem um olhar e risinhos para o estúpido encher-se de ânimo, acenar para elas usando o copo e sorrir, antes de se aproximar...



[1] Se o caro leitor quer saber o sentido dessa obscura palavra, consulte um bom dicionário: é fácil, gratuito, indolor e aumenta a cultura e inteligência.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h13
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20/04/2012


Trechos do próximo conto

Natasha caminhava apressada pelas ruas do Bixiga nos arredores do Darkness, olhando para os lados, para trás, até para os telhados das casas centenárias de janelões de madeira, construídas pelos primeiros imigrantes italianos que tiveram algum sucesso na nova terra, que pareciam lhe espreitar e seguir, seu olhar era de temor, como se temesse os nordestinos e peões bêbados e os adolescentes idiotas posando de manos que vagavam pelas ruas tortuosas do bairro, ela, uma vampira que conhecia cada ser das trevas que vagava por São Paulo e que devia respostas e obediência somente à arquilendária Anciã que vivia na cidade.

Isto tornara-se Jorge, desde há vários dias. Mergulhara num estado de tal estranheza, uma loucura contida, uma fúria prestes a explodir mas que jamais poderia fazê-lo que supôs ter finalmente ter conhecido a tal besta interna: uma fúria bestial se apossara dele e já não cria mais possível saciá-la, estava condenada (e condenando a ele, por isso) a ser para sempre uma volúpia, uma sede, um desejo que jamais seria aplacado em definitivo.Onde aquela loba vadia se escondera tão bem que ele não farejava o menor rumor de um único fio de sua delicada pelagem? 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 02h07
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24/02/2012


Ascensão e queda de um borra-botas, por André Luis Pavesi com revisão e habituais sugestões de Caio Bezarias

Rude Johnny sempre achou que era o cara, o sujeito mais durão do pedaço. Lá pelos idos de 85, desfilava sua ignorancia pelas ruas do ABC ou do centro paulistano, se metendo com punks, skinheads, darks e o que fosse, peitando a tudo e a todos. Gostava de apavorar as minas e socar os caras, como ele mesmo dizia. Largou desde sempre o nome de batismo, exigindo ser chamado de Rude Johnny, sempre Rude Johnny, como um astro de um velho filme do Corujão.

Quando conheceu a verdade por trás da noite, Rude Johnny se sentiu em casa, era tudo que ele queria - poder, violência desmedida e sangue, muito sangue. Achou que viveria para sempre, Rude Johnny, o rebelde eterno.

Mas logo percebeu, para sua imensa decepção e desespero, que ele, Rude Johnny, o terror das ruas do ABC, era peixe pequeno, que pra cada humano que abatia havia um preço. Que a noite tinha donos, muito mais antigos e poderosos do que ele, com sua mente limitada de burrice avantajada, poderia sequer imaginar. Achou que era o topo da cadeia alimentar apenas para descobrir que era o rés-do-chão da verdadeira cadeia alimentar, muito maior, mais profunda, mais sinistra e suja.

Numa noite alucinante como tantas outras, Rude Johnny bancava o fodão pra cima de um bando de moleques. Cinco bostinhas, cinco minutos de diversão, pensava, sádico. Ledo engano, lamentável erro. Rude Johnny nem chegou a ver o que o acertou, apenas sentiu centenas de quilos de músculos, pêlos e garras esmagando sua espinha dorsal.

– Ah, valentão – um rosnado soou em seu ouvido, enquanto Rude Johnny era erguido pelo pescoço como um boneco de Judas pronto para ser malhado.  – Então você gosta de atacar a molecada na noite, não? Johnny-boy, ouça com atenção...São Paulo tem dono, e não é você!!

E essa foi apenas a primeira humilhação, as ruas já não eram seguras para Rude Johnny, que reduzidio a um moleque remelento virou Johnny-boy nas mãos dos poderes que realmente valem. Foi surrado, batido e humilhado tantas vezes que perdeu a conta. Seus pares lhe viraram as costas, como a um leproso dos tempos antigos. Quantas vezes ao cruzar um beco escuro não pensou ouvir de novo aquele rosnado cheio de sarcasmo e fúria? Quantas vítimas perdeu por um barulho fora de lugar, pela lembrança de um rosnado cantarolando Johnny-boy, Johnny-boy, bonitinho seu apelido...

E agora Rude Johnny dorme apavorado com um 38 embaixo do seu travesseiro, num quarto de janelas fechadas a tijolo e reboque. Rude Johnny sabe que mexeu onde não devia, e anda pelas ruas de cabeça baixa, olhando pra trás a cada momento, se borrando a cada porta batida. Onde está toda a diversão, pequeno Johnny-boy? Onde está aquela panca de Rude Johnny, o selvagem?

Rude Johnny agora sabe que nunca foi o cara, o sujeito mais durão do pedaço. Em pleno século XXI, evita as ruas do ABC e do centro paulistano, se escondendo de punks, skinheads, góticos, até mesmo de emos, sem saber se vai peitar por azar algum dos verdadeiros senhores da noite. Nunca mais apavorou nem socou ninguém. Pensa em voltar rastejante ao nome de batismo, implorando para ser chamado de João Mauricio, ou mesmo Mauricinho, como Dna. Lourdes sempre chamou seu filhinho invocado.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 10h36
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22/12/2011


As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte I

 

Por Caio Bezarias, a partir de uma idéia de Vinícius, revisão e concepção do desfecho do texto por André L. Pavesi

 

O segundo cigarro de cada um se esvaia no ar, por mais devagar que fumassem. Não havia jeito, o intervalo estava acabando e Marquinhos e Valmir teriam de voltar para o estágio de técnicos de radiologia no Hospital da Vila Nova Cachoeirinha e seu séquito intolerável: médicos arrogantes, enfermeiras neuróticas e vadias, o desfile de horror dos pacientes e o pior de tudo, o fim de tudo... os  parentes histéricos dos pacientes meio-mortos, acidentados, quebrados e retalhados, a culpar  governo,  mundo e acima de tudo  hospital e todos seus funcionários por seus entes queridos estarem totalmente fudidos, por serem uns imbecis que não sabiam sequer manter seus rabos limpos, quanto mais manter-se inteiros e longe de problemas.

Valmir dirigiu uma última olhada desanimada para o toco, que já fazia a pele de seus dedos arder, antes de descartá-lo, e disse:

– Cara, a vida humana é como esses cigarros que nós fumamos nessa saleta fedorenta: uma coisa que não dura nada,  dentro de algo sujo que é o mundo, uma coisa que tentamos esticar ao máximo, e para quê? Uma hora vai acabar mesmo, na sarjeta. Agora... nós somos os cigarros, o vício, de quem, ou do quê?

Marquinhos deu uma última e funda tragada no seu toco, jogou-o pelo janelinha imunda com total desprezo e comentou, já passando pela porta:

– Esse trampo tá te deixando pensador, meio sensível. Prefiro você quando tocamos na nossa banda de metal, bem from hell, com cara de mau. Vamos, tá na hora.

Pouco mais de uma hora tirando filmes radiográficos coisas banais como articulações tortas nos dedos de peladeiros de final de semana, ombros e tornozelos deslocados de crianças arteiras e estavam ainda mais entediados, desesperados por mais um cigarro e pelo fim daquele turno, daquela noite e pelo fim do estágio obrigatório de radiologia...Então, pressentiram que viria coisa pesada, alguém realmente arrebentado, para eles se deleitarem com as imagens dos ossos macerados, membros esmagados ou apreciarem o espetáculo da correria e desespero de médicos, enfermeiros, mães, filhos: algo tão sutil que parecia um prenúncio sobrenatural veio com a brisa noturna: rumores indistintos no ar, uma vibração, alguma agitação indefinível nos médicos e figurões do hospital, que também pressentiam a coisa chegando.

O que entrou no prédio cujo branco já se tornara amarelado e manchado em vários pontos, levado por três policiais de olhar sombrio, estava cercado de uma atmosfera de dor tão palpável e emitia gemidos tão desesperados, ainda que abafados, que todos na entrada do hospital se afastaram instintivamente.

O sujeito fora um homem baixo e parrudo, de pele bastante morena, daquele tom de pele dos trabalhadores braçais que sempre trabalharam de sol a sol e bem pouco desfrutaram da luz do dia para relaxar; fora um homem porque o estado dos membros – partidos, todos, em pelos menos três pontos diferentes, em ângulos que causavam medonha agonia em quem contemplava –, o rosto esmigalhado –  uma massa de carne ensangüentada e inchada, um dos olhos indistinguível – e a flacidez do corpo indicavam  que se sobrevivesse nunca mais seria um homem completo, capaz de fazer qualquer coisa sozinho.

.Marquinhos e Valmir correram para a quarta sala do corredor e avisaram seus colegas a darem início aos procedimentos para os exames de contraste. Finalmente algo da pesada! Que traria assunto e lembranças estarrecedoras por dias e dias. Só faltava descobrir o que o meliante tinha aprontado e quem fizera aquilo com ele.

– Achamos o cara escondido, ou melhor, jogado numa valeta ao lado de um campinho e um córrego. Os moradores colocaram ele lá, pra nós não acharmos. Iam esperar nós vazarmos para acabar com o filha da puta. Mas por sorte ou azar dele, ficamos desconfiados e olhamos cada canto da quebrada. – Relatou o mais velho dos policiais, um sargento chamado Gomes.

– O que ele fez? – Quis saber Valmir, ansioso como uma criança aguardando o presente de natal.

– Estuprou e espancou uma menina de 12 anos, quase vizinha dele. Quando tiramos ele do buraco, as últimas palavras que disse, antes de entrar nesse tipo de delírio de dor em que está, foram “são todas umas putinha aqui na área, já nascem dando, só fiz o que outro maluco faria cum ela, logo, logo! No fundo, elas gostam. Por que, por que fizeram isso comigo?”

Marquinhos e Valmir se encararam, sem disfarçar o que sentiam ou pretendiam, seguros de que se os meganhas percebessem, aprovariam com calorosas palavras de incentivo...

Mais de uma hora depois, Romualdo, o sempre calmo e inflexível técnico dos exames de tomografia e contraste saiu da sala e com o tom aparentemente frio de voz, mas no qual alguém mais íntimo e experiente encontraria diversas modulações, anunciou:

– Ele é de vocês.

Antes que os dois rapazes entrassem,  outro policial, um simples soldado, pôs-se entre eles e Romualdo e perguntou:

– Por favor, qual o estado dele? O que acha que vai ser desse cachorro? Precisamos da informação, para repassar ao DP.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h13
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As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte II

– Hmmm. Veja, nós somos técnicos, quem dá o diagnóstico é o médico, mas baseado na minha vivência, bem, se ele quiser usar os braços terá de virar um ciborgue, quer dizer, ganhar um monte de pinos e ainda assim com muitas limitações,  vários órgãos têm lesões e hemorragias, o olho esquerdo já era e pelo que deu para perceber, considerando que não era exame radiográfico, eu apostaria que ele nunca mais vai andar. Isso tudo se passar dessa noite, a situação dele é muito grave.

– Então, sargento, se nos dá licença, temos de fazer nosso serviço, antes que o cara embarque. – Anunciou Marquinhos, arremetendo pela porta com Valmir, sequiosos pelo banquete.  Apanharam a maca e a empurraram, com calculadas pressa e desleixo (a peça esbarrou em tudo que havia pela frente) para a terceira, última e mais afastada das salas de radiografia.  

Durante duas horas, os dois amigos reforçaram os laços de amizade que os uniam, ao submeterem o sujeito vindo de um bairro pobre e violento da zona norte a todos os exames de raio-x possíveis e necessários.

O primeiro filme foi algo simples, o sujeito apenas soltou sons entrecortados enquanto realizavam o exame de crânio axial hirtz submento vértice, que consiste em deitar o paciente de barriga para cima, o feixe central do raio x incidindo no bregma – o topo do crânio –  para verificar uma possível  fratura.

Os dois estagiários se entreolharam, decepcionados e enraivecidos por nenhum sofrimento adicional terem causado ao estuprador. Após alguns instantes, em que ambos especulavam em silêncio qual o próximo passo, Valmir anunciou:

– Filme de seios da face método waters! – e sem esperar aprovação ou resposta, começou a pôr o sujeito na posição adequada para verificar lesões nos ossos da face, de barriga para baixo, no que foi auxiliado de imediato pelo outro. O entusiasmo deles foi tamanho que o sujeito saiu do torpor e emitiu urros tão desesperados que uma loira falsa peituda e quarentona, corpulenta e de olhar frio, entrou na sala sem aviso ou cerimônia, pouco depois: Valéria, uma das enfermeiras mais antigas do hospital, uma espécie de chefona informal do pedaço, quis saber o que se passava, pois as pessoas que aguardavam sua vez lá fora saltaram dos assentos, disparando gritos de susto e medo. Ao saber de tudo, ela dirigiu um olhar de ódio para a coisa na maca a sua frente, babando, chorando e tremendo, e prometeu que não seriam mais importunados em sua missão.

Os filmes dos ossos do antebraço e do braço foram uma apoteose de agonia e êxtase: em perfeita sincronia, cada um empregou toda sua força para esticar ao máximo os membros superiores do molestador de menina pré-adolescente e prendê-los sem o mínimo traço de gentileza à maca, apertando as tiras ao máximo – ora, onde já se viu macho ser gentil com macho?

– AhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhAAAAAh! – gritou Jonilton de Jesus Assis muitas e muitas vezes nas horas seguintes, uma dor tão profunda, que não só o corpo sofreu danos perenes: sua mente, que desde sua infância fora uma coisa rala, fácil de ser moldada e distorcida, mergulhou em uma insanidade pastosa e pueril, para tentar se esconder da dor, e lá, aparentemente, ficaria.

Sem se importar com o que os gritos expressavam, com seu conteúdo, apenas saboreando sua intensidade, os amigos continuaram:  

– Bem, agora temos de fazer os exames do escafóide, os ossos do punho, o exame que...FODE!!! E dizendo isso, Marquinhos apertou, até os nós de seus próprios dedos ficarem brancos, o pulso mole e arroxeado, antes de posicioná-lo abaixo do feixe de radiação, como se para se certificar que estava muito bem fraturado antes de acionar a máquina.

Para agonia de um e êxtase de outros, boa parte dos exames teve de ser repetida: além do de escafóide, o de tórax ap (função: registrar fraturas no esterno), o das pernas e pés e o do braço direito, pois Marquinhos e Valmir foram tão requintados em sua selvageria  que o cara fez o impossível: remexer-se muito, mesmo aleijado e amarrado. O prazer que sentiram foi tanto que não se importaram com as mais que certas carcadas vindouras, por gastarem tantos filmes, uma quantidade imensa, mesmo com algo tão fodido e desprezível como aquela coisa.

A sala de raios-x estava, ao cabo de tudo aquilo, pesada e acre. Tanta dor, deleite para com a dor e respiração tensa abarrotaram o ar de miasma e gases nocivos, no entanto os dois rapazes se sentiam muito bem, tão intoxicados com o bem estar de causar sofrimento que, claro, as duas horas lhes pareceram não mais de vinte minutos. Mas por fim chegou o fim: um dos médicos de plantão surgiu, dando ordens:

– Muito bem, a diversão acabou. Não podem ficar com o figura aqui para sempre: sei que demora muito para radiografar por completo uma pessoa nessas condições, mas se nos demorarmos mais para cuidar dele, o cara morre aqui mesmo e se isso acontece antes de passar pelos primeiros socorros sabem a encrenca para nosso setor. Levem ele para o centro cirúrgico.

Uma vez a sós com o pervertido, o médico olhou os filmes, espantou-se com o estrago que os populares do Jardim Filha de não-sei-o-quê fizeram no sujeito e meditou: não importava classe social, educação ou falta desta, local de origem, cultura, se era inexperiente ou vivido, o ser humano sabia ferir seu semelhante com toda a precisão, sem necessidade de conhecimento prévio a respeito. Estava prestes a chamar a enfermeira para executar os primeiros procedimentos, quando deu-se conta de que não estava só na sala. Virou-se num átimo e diante de Rogério havia uma mulher magnífica, perfeita, postada ao lado da maca: pele alvíssima, de um tom estranho, não a palidez da falta de vigor e saúde, mas algo diferente; muito alta, corpo cheio de curvas – quadris generosos, seios opulentos e firmes, braços longos e esguios, elegantes; cabeleira negra  enorme, deslizando pelas costas e que resplandecia de reflexos azuis nos infinitos cachos; rosto perfeito, todo traços suaves sem uma única assimetria ou parte destoante – boca vermelha e brilhante, olhos de íris negras, profundos e perscrutadores, cílios longos e alinhados, nariz fino e discreto;  vestia calça e blusa de couro negro brilhante e calçava botas também negras  de cano e salto enormes.

Ele estremeceu por inteiro diante da visão e guinchou:

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h12
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As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte III

– Você??!! O que quer aqui?

A mulher esticou a mão e, usando somente suas longas unhas pintadas de vermelho sangue, ergueu o rosto do sujeito, que gemeu alto, antes de responder:

– Olá, meu velho amigo.

– Não sou seu amigo – retrucou o médico.

– Não? Nós devemos favores um ao outro, por um certo tempo, e trocamos confidências, além da empatia mútua.

– Não me lembre que eu, um médico, ajudei você, uma vampira de milhares de anos a conseguir vítimas para seu séquito de monstrinhos.

– Ora, não disse nada sobre isso. Estou aqui por outra razão, por essa coisa abjeta, esse monte de protoplasma doentio e morrente. A sua ciência médica nada poderá fazer por ele, que deixará de existir ainda esta noite se entregue apenas a seus cuidados, mas com minha intervenção a existência e o sofrimento dele poderão ser prolongados, por muitas e muitas noites.

Ele encarou-a com severidade e sem medo:

– E por que eu, um médico, cuja função no mundo é aliviar e combater o sofrimento, deveria te ajudar ou permitir isso?

Ingrid chegou tão perto de Rogério, num movimento que ele não percebeu, que seu hálito gelado e sem vida dela golpeava as bochechas dele, enquanto respondia:

– Porque, meu caro doutor, você, como os dois rapazotes que torturaram essa coisa por horas, quer impingir o máximo de dor possível a essa excrescência, deseja isso, sabe que ele merece isso, pois machucou, talvez para sempre, uma menina que ainda não é mulher, que a violentou simplesmente por ela ser do sexo feminino, como se isso a tornasse impura e inferior. Ele merece uma eternidade de dor, seguida de outra e mais outra. E você, humano, homem que finge não possuir a besta dentro de si, que se julga amigo e amoroso para com seu próximo, você fará isso, quer isso. – cada sílaba que partia da boca doce e avermelhada de Ingrid estava envolta numa névoa gelada e atingia a consciência dele como um uma pequena e dolorosa agulha de gelo -  Será muito simples e não exigirá mais do que as prerrogativas de sua função de médico e os privilégios e poderes que advêm dela. Observe. –  ergueu o dedo indicador da mão esquerda diante dos olhos arregalados do médico, fez um minúsculo corte com a ponta da unha do mesmo dedo da mão direita, abriu a boca do monte de protoplasma nojento e deixou que apenas três gotas de seu sangue mergulhassem na garganta, para em seguida fechar completamente o corte, com uma simples carícia de sua língua umedecida de saliva.

O sujeito tremeu e gemeu, sua respiração tornou-se regular e em seguida ele fechou os olhos, adormecendo.

– A intervalos regulares, uma mocinha de pouco mais de vinte anos, vestida de negro, cabelos curtos, virá a este hospital. Ela entregará a você, em um minúsculo vaso, três gotas de minha linfa. Usando de sua posição e autoridade, verterá o filtro miraculoso[1] nesta garganta abjeta. Três gotas, uma porção suficiente e discreta, o suficiente para a consumação de um prodígio, impossível para sua preciosa ciência médica:  mantê-lo vivo e sentir uma das sensações fundamentais da vida, a dor, mas não o bastante para restabelecer-se e curar-se, pois ele jamais será um ser bípede, capaz de ser mover, nutrir-se e tudo mais,  por si,  de novo.

– E isso até que ponto?

– Não se preocupe, apenas o suficiente para ele enlouquecer de desespero, para sua pobre e fraca mente descobrir que nem mesmo o reino em que se refugiou poderá escondê-lo da vingança que a condição feminina exige, apenas o bastante para eu, você e minha pupila que trará meu sangue, uma doce e perfumada criança humana, que sabe quem ele é, que o conheceu em tempos idos, nos deliciarmos com o sofrimento dele tempo bastante. Depois, tudo terminará – E dizendo isso, ela saiu pela porta, calma e majestosa.

Rogério suspirou, dirigiu um olhar de desesperança para o sujeito, caminhou a passos pesados e ombros curvados até a janela, onde contemplou o vazio por muito tempo.

Semanas e semanas se passaram . O estado do sujeito era acompanhado com atenção, pois assim que estivesse em condições, seria transferido, à espera do processo e julgamento, por polícia e justiça. E aqueles dos quais partiam essa atenção, ficaram intrigados: o sujeito sobrevivera, contrariando todas as previsões, mas não exibia melhoras; sua carne continua avariada, arroxeada, era apenas  invólucro e sustento para nervos transmitirem dores eternas, que brotavam de lacerações, esmagamentos, fraturas, cortes e contusões que cobriam todos os ossos e vísceras daquele corpo maldito, destroçado, porém sempre vivo. Marquinhos e Valmir espionavam, intrigados e perturbados, mas também deleitados ao descobrir que o sujeito continuava vivo e sofria.

E ninguém relacionou o fenômeno com as visitas regulares, sempre no começo da noite, que  doutor Rogério recebia de uma garota baixinha, vestida de negro  pontuado por adereços de metal, uma mocinha de não mais de vinte ou vinte um anos, que lhe entregava, em silêncio e chispando olhar de satisfação, um minúsculo frasco de vidro em cujo interior  parecia volutear um líquido espesso e escuro, quase negro

Esse líquido ensinou a Jonilton, um homem de mais de quarenta anos que acreditava bastar desejar algo para ter  posse sobre aquilo e o direito de fazer o que bem quisesse com seu objeto de desejo, que a fuga e o vazio são  efêmeros; o  torpor e a tênue e doce fuga para as lembranças da infância idealizada e vazia eram destroçados por imensos tentáculos vermelhos, incandescentes e horrivelmente dolorosos, que vinham de cima, dos lados, de todos os lugares, do nada, inundando o mundo simples em que sua mente e seu corpo se escondiam, assim que sua garganta recebia a maldição, levando-o de volta à dor, ao tormento e aos gritos, lembrando-o, noite após noite, hora após hora, dor sobre dor, que tudo tinha um porquê, e que o alívio do vazio final ainda lhe seria negado, por mais tempo que sua frágil mente pudesse suportar.



[1] Comentário dos escribas que apenas registraram essa narrativa: nossa querida Ingrid esmerou-se um tanto no requinte de linguagem desse trecho, que pode ter seu não tão obscuro significado decifrado consultando-se um bom dicionário ( físico, de papel, de preferência!)

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h11
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19/12/2011


Lançamento do livro "Maretenebrae - A Queda de Sieghard"

Saudações noturnas,

Segue o release do livro "Maretenebrae - A Queda de Sieghard", dos autores L.P. Faustini e R.M. Pavani, um benvindo lançamento de literatura fantástica nacional.

Ainda não tive o prazer de ler o livro todo, mas o material que vi até agora me parece bem promissor, num edição bem cuidada, e principalmente com uma história que lida com conceitos bem interessantes, e que segundo os próprios autores remetem à tradição de Michael Moorcock e Elric, sua obra-prima.

Após o release seguem os contatos dos autores, blog do livro, twitter, facebook.

Ab, A.

 

Um épico digno

 

Pegue uma aventura ambientada no período medieval em uma terra de fantasia chamada Sieghard, misture guerras e ação desenfreada, adicione elementos de filosofia, religião, política e investigação, e você terá um dos mais novos épicos brasileiros. Lançado no dia 02 de dezembro de 2011 pela Editora Biblioteca24horas, "Maretenebrae - A Queda de Sieghard" é um projeto ambicioso de dois novos autores, L.P.Faustini e R.M.Pavani, com o intuito de entreter e iniciar os leitores na filosofia e nos questionamentos que sempre intrigaram o gênio humano, como por exemplo, somos donos de nosso próprio destino?

"Para salvar o mundo é preciso, primeiro, salvar a si mesmo" (Victor Didacus, capítulo XXXIV)

Para que o objetivo dos autores seja realizado, Maretenebrae apresenta sete protagonistas que "personificam" (como os próprios autores dizem), cada qual, um dos sete pecados capitais. "Uma baboseira cristã", poderiam dizer os não-religiosos. Porém engana-se quem acha que lerá discursos bíblicos na trama. "Na verdade, a personalidade e o comportamento dos personagens principais são pautados por esses pecados", explica L.P.Faustini, "A união, por força, entre homens tão distintos na luta pela sobrevivência resulta em situações constrangedoras, revoltantes e às vezes, divertidas". R.M.Pavani pontua: "A questão de  vícios e virtudes é muito mais antiga que o cristianismo. É uma dualidade: o bem e o mal, o caos e a ordem".

Com 540 páginas, Maretenebrae apresenta 5 ilustrações de miolo, incluindo um mapa (que podem ser baixadas no blog oficial), mas o diferencial fica por conta das 4 partituras musicais inseridas no final do livro para quem quer saber como tocar as canções entoadas durante a trama. No canal youtube de Maretenebrae, os autores apresentam também a música orquestrada Peregrinatio como a música tema de sua obra.

Maretenebrae é um épico digno, criado por jovens autores ambiciosos que ainda tem muito que aprender e ensinar através de seus livros. Por que não acompanhar de perto o destino deles nesta aventura pelas terras de Sieghard?

 

L.P.Faustini & R.M.Pavani

http://maretenebrae.blogspot.com/

http://www.twitter.com/maretenebrae

http://www.facebook.com/Maretenebrae 

 

Gostei muito das ilustrações oficiais do livro (segue o link abaixo); elas cumprem muito bem o papel de inspirar, de motivar a leitura!

http://maretenebrae.blogspot.com/2011/11/ilustracoes-oficiais.html

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 09h08
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30/11/2011


Sinais de vida

Boa noite a todos!!

Sim, Carpe Noctem ainda existe e seus autores continuam trabalhando, em silêncio e nas sombras.

Mais uma vez, pedimos desculpas aos bravos e fiéis leitores pela ausência de notícias ou novos textos e anunciamos que o próximo conto está em finalização, nada menos que a próxima aventura e Laura e Ingrid, uma narrativa que NÃO SE PASSA NO CENTRO DE SÃO PAULO e baseada em um triste e revoltante fato, uma demonstração, de que o ser humano não precisa invocar poderes das trevas para causar dor, medo e sofrimento...

Também temos novidades sobre a coletânea de H.P. Lovecraft: um trecho do livro já está disponível para download e as instruções para pagamento e reserva de um exemplar também foram publicadas no SiteLovecraft. Logo abaixo postamos um pequeno trecho do conto e o endereço eletrônico do site.

Saudações noturnas e etílicas

 

As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV:

 

Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha

 

O segundo cigarro de cada um se esvaia no ar, por mais devagar que fumassem. Não tinha jeito, o intervalo estava acabando e Marquinhos e Valmir teriam de voltar para o estágio de técnicos de radiologia no Hospital da Vila Nova Cachoeirinha e seu séquito intolerável: médicos arrogantes, enfermeiras neuróticas e vadias, o desfile de pacientes e o pior de tudo, o fim de tudo... os  parentes histéricos dos pacientes meio-mortos, acidentados, quebrados e retalhados, a culpar o hospital, o governo, o mundo e principalmente o hospital e todos seus funcionários por seus entes queridos estarem totalmente fudidos, por serem uns imbecis que não sabiam sequer manter seus rabos limpos, quanto mais manter-se inteiros e longe de problemas.

Valmir dirigiu uma última olhada desanimada para o toco, que já fazia a pele de seus dedos arder, antes de descartá-lo, e disse:

– Cara, a vida humana é como esses cigarros que nós fumamos nessa saleta fedorenta: uma coisa que não dura nada, mas que tentamos esticar ao máximo, e para quê? Uma hora vai acabar mesmo, na sarjeta. Agora... nós somos os cigarros, o vício, de quem?

Marquinhos deu uma última e funda tragada no seu toco, jogou-o pelo janelinha imunda com total desprezo e comentou, já passando pela porta:

– Esse trampo tá te deixando muito pensador, meio sensível. Prefiro você na banda de metal, bem from hell, com cara de mau. Vamos, tá na hora.(...)

 

O que entrou no hospital, preso a uma maca por todas as correias, estava cercado de uma atmosfera de dor tão palpável e emitia gemidos tão desesperados, ainda que abafados, que todos na entrada do hospital se afastaram instintivamente.

O sujeito fora um homem baixo e parrudo, de pele bastante morena, daquele tom de pele dos trabalhadores braçais que sempre trabalharam de sol a sol e bem pouco desfrutaram da luz do dia para relaxar; fora um homem porque o estado dos membros – partidos, todos, em pelos menos três pontos diferentes –, o rosto esmigalhado –  uma massa de carne ensangüentada e inchada,um dos olhos indistinguível – e a posição em que o corpo estava indicavam que se sobrevivesse nunca mais seria considerado um homem completo, capaz de fazer qualquer coisa sozinho.

 

Endereço do SiteLovecraft:http://www.sitelovecraft.com/

Endereço para baixar trechos do livro: http://www.sitelovecraft.com/partelivro.doc

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 16h16
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15/10/2011


Novo livro de H. P. Lovecraft em português

Boa noite a todos!

Como muitos dos leitores sabem, além de um medíocre autor de literatura fantástica, também sou pesquisador acadêmico do gênero e minha dissertação de mestrado foi publicada sob o título A Totalidade pelo Horror  - o mito na obra de H.P. Lovecraft(editora Annablume, veja os links à direita), aliás primeiro estudo sobre o mestre do terror escrito e publicado em língua portuguesa. Bem, meus lances e coisas com Lovecraft não pararam nisso: fiz uma modesta contribuição na produção daquele que certamente será a melhor edição da obra do mestre em português: o criador e mantenedor do melhor site sobre Lovecraft em língua portuguesa, o SiteLovecraft (www.sitelovecraft.com), Denilson Ricci, está comandando a produção de O Mundo Fantástico de H. P. Lovecraft,uma edição independente, mas com alto padrão gráfico, de tradução, revisão, enfim, um livro de alto nível editorial, contendo inclusive textos inéditos em língua portuguesa, como vários poemas, biografia ilustrada, notas explicativas, na qual participei como revisor dos  textos de orelha e contra-capa e  revisor da tradução de "A Cidade sem Nome".

Certo, certo, muito legal e bonito, mas qual o motivo exato dessa mensagem? Apenas divulgar que o livro está em fase final de produção, que estamos em busca de mais leitores que assinem a lista de compra, o que além de tornar o livro mais conhecido, claro, barateará o preço final e indicando a vocês fiéis leitores de Carpe Noctem essa obra, que, esperamos e trabalhamos para tal, será um marco da literatura fantástica editada no Brasil. Se você possui mínimo interesse em H.P. Lovecraft, não perca, e se conhece algum aficcionado pelos horrores e delírios lovecraftianos, por favor indique o livro - cuja versão beta da capa está abaixo - e o site, cujo link está ao lado.


P.S.: e se ainda não leram, espantem-se com nossa mais recente narrativa de horror urbano, logo abaixo.


Saudações noturnas e etílicas.


Caio Alexandre Bezarias

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h21
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27/09/2011


Novo conto (título no Post Scriptum), por André Luis Pavesi, com revisão apurada de Caio Bezarias

 

Numa noite de sexta-feira que ficaria registrada na história como a mais fria noite paulistana em duas décadas, o padre consultava seu relógio - quase meia-noite - enquanto descia a Avenida Liberdade com o ar gelado lhe rasgando as vias aéreas. O pensamento de uma boa caneca de chocolate quente, talvez com algumas gotas de rum para aquecer, o fazia acelerar o passo mais um pouco.

 

Ao chegar perto do Viaduto Jaceguai, o padre logo percebeu, mais pelo cheiro de mijo velho que empesteava o ambiente do que por qualquer outra coisa, o habitual grupo de mendigos que costuma dormir num terreno ao lado de um supermercado. Sabendo que esses tipos sempre são atraídos pela batina, acelerou ainda mais um pouco o passo, afinal não estava disposto a ouvir choramingo de mendigo àquela hora da noite.

 

Mas seu esforço foi em vão: antes que conseguisse alcançar o viaduto, o padre foi interpelado por um dos mendigos, uma figura maltrapilha – impossível dizer se homem ou mulher – terrivelmente suja e coberta por trapos imundos e peças descasadas de roupas da cabeça aos pés, com pedaços de saco de lixo enrolados nos pés e pernas. Por baixo de um gorro ensebado, seus olhos brilhavam com uma avidez surpreendente no rosto inchado de bebida, parecendo antever as delícias alcoólicas que iria consumir com a grana que pretendia extorquir do padre. Afinal de contas, onde já se viu um padre negar uma esmola, certo?

 

Parando de forma súbita na frente do sacerdote – como diabos esses mendigos conseguem sempre andar tão rápido quando querem? – se perguntou o padre – o mendigo começou a sua ladainha de sempre, com uma voz enrolada, embolada, quase sem mexer a boca, os olhos correndo rapidamente pela figura do padre, como se avaliando o tamanho da esmola que iria arrancar.

 

Com uma quase finta, o padre se desviou para o lado, beirando a sarjeta, tentando fugir do mau cheiro que exalava do mendigo. Definitivamente, aquela não era uma noite pra se fazer caridade. Mas o mendigo não iria desistir tão facilmente e começou a resmungar ainda mais alto, seguindo o padre que tentava se desvencilhar dele, até que num movimento mais brusco segurou-o pelo braço.

 

Foi seu pior erro. Agarrar o braço do padre foi como segurar um fio desencapado de alta-tensão de memórias...enquanto o padre parecia se deliciar com as podres lembranças captadas diretamente na mente entorpecida do mendigo, toda uma vida de erros, começando no abandono da escola, os primeiros goles de cachaça ainda antes dos sete anos, uma mal-sucedida carreira como faz-tudo em obras e reparos em geral, tantos e tantos empregos perdidos por conta das bebedeiras cada vez mais freqüentes, as primeiras pedras de crack explodindo o pouco que restava do cérebro de Josivaldo Washington – Porca miséria, que porra de nome é esse?!?, pensou o padre – as inúmeras vezes em que o mendigo se prestou aos mais sujos papéis para conseguir sua cachaça e sua pedra, como da vez que aliciou dois garotos a entrarem no carro de um figurão para aparecerem na quebrada mortos e sem uma gota de sangue na manhã seguinte, ou das vezes que chupou seu traficante em troca de duas pedrinhas – mais duas pedrinhas, sempre mais duas pedrinhas, só mais duas, por favoooorrrrr

 

Mas o mendigo também mergulhou nas memórias do padre...lembranças tão imundas e torpes que fizeram a vida dele parecer um passeio no parque...lembranças de sangue e enxofre, de atos tão vis e perniciosos banhados em latim e hóstias profanas de uma igreja dedicada aos antigos inomináveis, de corpos humanos tratados, jogados e cortados como objetos, de almas amaldiçoadas a arder num ciclo sem fim de dor e punição...testemunhando na alma do sacerdote maldito um mal tão antigo quanto o tempo, de seres que andam entre os homens como lobos entre vira-latas, predadores de outros tempos e lugares, de cores, sabores e cheiros abomináveis que consumiram os últimos vestígios da mente racional do mendigo, daquilo que o mantinha – mesmo que porcamente – acima dos animais...instantes de contato com o mais puro horror reduziram o já desgastado mendigo a uma figura estática, os olhos ainda mais estrábicos e perdidos para sempre, um fio de baba escorrendo pelo queixo e pingando no chão.

 

Olhando fixamente para o mendigo, um sorriso maligno nos lábios, disse o padre, na língua que não deve ser usada, embora cravada nos recantos mais escuros da alma humana pelos deuses esquecidos de outrora:

 

  • Agora, meu bom homem, por que você não pula desse viaduto e torna o mundo um lugar melhor?

 

E foi exatamente o que o corpo sem mente do mendigo fez, enquanto o padre dos deuses antigos se afastava, já pensando novamente naquela caneca de chocolate quente, batizada com umas gotinhas de rum, as memórias daquela noite ainda deliciando sua alma podre.

 

 

Post Scriptum – o título do conto, O Padre dos Deuses Antigos.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h26
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15/09/2011


Preview do novo conto, e nossas sinceras desculpas

Saudações noturnas a todos,

Como dizem nos filmes de zumbis, quem é morto-vivo sempre aparece!!

Como sempre, começamos nos desculpando/explicando um longo período sem postagens no blog...sabem como é, os escribas responsáveis pelo Carpe Noctem procuram mante-lo o mais abastecido possível de textos, contos e comentários, mas nem sempre conseguimos postar tão rápido quanto possível.

Espero que a espera tenha valido a pena para aqueles que ainda nos acompanham, dentro dos próximos dias estaremos postando um novo conto, escrito por mim e com a sempre atenta revisão do Caio. Enquanto damos os últimos retoques nele, fiquem com um ligeiro preview...

Ab, A.

"...Ao chegar perto do Viaduto Jaceguai, o padre logo percebeu, mais pelo cheiro de mijo velho que empesteava o ambiente do que por qualquer outra coisa, o habitual grupo de mendigos que costuma dormir num terreno ao lado de um supermercado. Sabendo que esses tipos sempre são atraídos pela batina, acelerou ainda mais um pouco o passo, afinal não estava disposto a ouvir choramingo de mendigo àquela hora da noite.


Mas seu esforço foi em vão: antes que conseguisse alcançar o viaduto, o padre foi interpelado por um dos mendigos,..."

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 16h58
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09/07/2011


Aquilo a que até os monstros obedecem - Parte I - por Caio Bezarias, com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

Uma madrugada de novembro de 2015, num bar da Martins Fontes

– E então, você quer saber a treta que rolou e fechou o Atlantic pra sempre? Ou vai me dizer que acreditou no papo das autoridades – polícia, prefeitura, toda essa cambada –  de que depois do massacre, a porra do lugar foi desapropriada e seria demolida, como parte da reforma da Roosevelt? Cê não acredita nisso, né? Porra, o imóvel em que era o Atlantic fica no lado da Nestor Pestana oposto à praça!  Por que iriam desapropriar algo ali? Não mexeram num tijolo daquele lado, mas pá! Fecha, desapropria, que a prefeitura precisa do terreno para a reforma. Isso já faz anos e tá fechado até hoje!  E essa porra dessa reforma, que transformou a praça em mais um local limpo e bonitinho de “qualidade de vida” para todos esses burguesinhos escrotos que dominaram a região – cara, reparou como o pedaço foi tomado por prédios mauricinhos, uns lugares horrendos, certinhos, limpinhos, luzinhas e decoração, cheios de uns filhos-da-puta que pagaram 300 paus por uma merda de uma quitinete melhorada de 40 m2 e ainda se acham o máximo? E pensar que expulsaram os puteiros, as putas e os malucos da região para essa gente metida ficar de boa, acharem que são o máximo e vivem no máximo!

Jorge bebeu praticamente todo o copo de um só gole e encarou o sujeito. Sempre se irritara com gente sem uma fala linear, organizada, que pula de um assunto para o outro, que adora desfilar suas opiniões e sabedoria sobre tudo e todos para o primeiro besta que lhes dá um minuto de atenção, uma praga que infestava bares, pontos de ônibus, lanchonetes, onde quer que desconhecidos se juntassem por qualquer razão em São Paulo lá estava um exemplar dessa gente desesperada e entediante. Já ia se despachar, falar qualquer coisa e sumir, quando o tipo, um quarentão meio desgrenhado – bafo de cachaça, nariz e orelhas vermelhos, magro de braços e pernas mas com barriga saliente, cabelo bem grisalho crescido e disforme precisando de um corte, roupas ainda limpas mas gastas, entremeadas de fios soltos  aqui e ali – em suma, um cara a poucos passos de cair numa vida errante ou até mesmo na mendicância, disparou:

– Aconteceu uma treta lá dentro daquele pulgueiro, que não passava de um antigo bordel transformado em balada de rock, metal e gótico para uma garotada se acabar de bebida, sexo casual e todas essas merdas, uma encrenca sobrenatural na dark room, que ficava no alto, no fim de uma escadaria –  caraca, meu, os caras tiveram uma sacada e tanto, hein? A sala reservada para os casaizinhos de uma noite se atracarem, o ponto alto da noite para eles, ficar no ponto mais alto do lugar, pegou?            

Jorge encheu apenas seu copo e bebeu tudo de um só gole mais uma vez. O cara não se importou: pegou a garrafa das mãos do outro e encheu seu copo com a maior calma.

– E o que a treta tem a ver com o fechamento do lugar?

– Foi coisa feia, terrível, pesada demais para uma casa noturna acostumada a mulheres bêbadas trocando tapas, caras brigando por mulher, essas coisas banais, o que rolou foi muito, mas muito mais pesado, tão pesado que a atmosfera, o clima do lugar ficou impossível. Você quer mesmo saber? É algo, tipo, impossível, cê com certeza vai me achar louco ou cascateiro.

– Tenho certeza que você é um pouco de cada, meu amigo, então, manda ver. Pra que eu teria aturado sua ladainha até agora?

O cara não moveu um músculo; os sentidos sobrenaturais de Jorge não acusaram uma única reação à provocação, o que o intrigou um pouco.

– Vamos, desembucha cara!

O quarentão soltou um sorrisinho sacana e começou:

– Você talvez não acredite em nada disso, mas essa cidade é uma fervilhação de coisas esquisitas, sobrenaturais mesmo, desde sempre, desde antes, antes de qualquer coisa que se pense. Antes mesmo dos portugueses chegarem já era uma coisa terrível: no Vale do Anhangabaú tinha tantos espíritos e monstros que os índios davam uma puta volta para contorná-lo, os morros da Cantareira e umas quebradas em volta do pico do Jaraguá ocultavam umas coisas que nem eles sabiam direito o que era, até hoje ninguém sabe. Bom, o que eu vou te dizer é o seguinte – aproximou o rosto de Jorge, diminuiu o volume da voz e o encarou, olhos vidrados  – Tem vampiros e lobisomens andando por essa cidade, matando, pervertendo as pessoas e guerreando entre si.   Mas  o que ocorreu lá não teve a ver com eles, foi uma coisa que apavorou até esses seres das trevas.

Jorge arqueou as sobrancelhas e deixou escapar dos olhos um infinitesimal lampejo de luz amarela, o brilho característico nos olhos de um licantropo.

– A pegação dentro do lugar era frenética: beijava-se uma e imediatamente após você estava beijando a amiga dela, que estava ao lado, a seguir estava beijando as duas ao mesmo tempo, depois elas te largavam e iam paparicar, com beijos e boquetes, o vocalista rockstarzinho de uma das péssimas bandas que tocavam lá, que ficou putinho e enciumado ao ver suas frangas com outro, meninas se atracavam com meninas para provocar os caras, uma doideira. – O tom de voz com que descrevia o Atlantic (nada de novo ou espantoso para um roqueiro rodado como Jorge) era o típico de sujeitos velhuscos que invejavam toda aquela putaria e se remoíam ou por nunca terem desfrutado dela ou por seu tempo de juventude e aventuras ter passado.

– E daí?

– A quantidade de intrigas, briguinhas e troca-troca de casais que rolaram lá, durante os anos, foi infinito, gente aos montes em busca de emoção, de algo para agitar suas vidinhas vazias ou tristes, um chamariz e tanto para os seres das trevas, principalmente os sanguessugas.

Os pêlos das orelhas de Jorge se eriçaram – um sinal lupino que somente outros licantropos perceberiam com facilidade, mesmo num ambiente repleto de fumaça e barulho – Esse termo era corrente, para se referir aos vampiros, somente entre os licantropos, era pejorativo, e... desconhecido dos humanos. Afinal, quem era esse cara?

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h15
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Aquilo a que até os monstros obedecem - Parte II - por Caio Bezarias, com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

 – Mas o lugar era quase ignorado por esses seres, muito raro um vampiro ser visto lá, caçando ou apenas se divertindo, pois a cidade é tão grande e caótica, tantos prédios, becos e cantos para dar cabo de um humano e se livrar do corpo, que o  Atlantic, em que as pessoas eram tão pegajosas, se insinuavam, se trombavam ou arrumavam encrenca por muito pouco era um retrocesso, um fim da linha total, principalmente se comparado ao lendário Darkness, onde os seres das trevas circularam sem problemas anos a fio.

– Cara, você é uma enciclopédia ambulante da vida  noturna da cidade.

O riso do sujeito foi interrompido por um acesso de tosse, que terminou numa portentosa escarrada na calçada, disparada sem pudores. Depois esvaziou mais um copo, a garrafa, fez sinal pedindo outra e continuou:

– Cê já ouviu falar de possessão licantrópica? Pessoas que  acham que são lobisomens e saem mordendo, rasgando, mutilando, ma-tan-do? – Seus olhos faiscavam, a boca aberta, os dentes amarelados saltados, baba acumulada nos cantos do lábio inferior. Claro que nada suficiente para assustar Jorge, apenas sentir um pouco mais de tédio e asco para com a espécie humana.

– Sei, gente tão maluca, tão doente, que para justificar sua maldade passa a uivar para a lua, mijar em postes e árvores e matar criançinhas, imaginando que é um lobo feroz e sanguinário. Vai me dizer que tem gente assim andando por aí, aqui em São Paulo?   

– Não é isso; não é imaginar que é bicho, é virar um! Ser possuído pela memória animal, devido a um trauma ou tensão que destruiria uma pessoa comum, pode acontecer: um indivíduo quer tanto fugir de sua condição, está tão farto de SER humano que mergulha na mãe de todos, na fonte dos seres e das coisas e contata e se funde com o espírito ancestral de um de nossos irmãos animais. E de um momento para outro um homem ou mulher cria músculos, pêlos enormes e grossos, a boca vira uma bocarra cheia de presas e temos um lobisomem, um homem que regrediu ao puro animal.

– E foi isso que aconteceu no Atlantic?

– Puxa, como você liga bem as coisas! Um sujeito comum, um dia, ou melhor, uma noite, não explodiu, mas se tornou o que sempre foi latente nele; um cara comum, um tipo que ia ao Atlantic semana após semana, atrás de tudo aquilo que qualquer garoto da idade dele queria: balançar a cabeça ao som de heavy metal, meninas, álcool, diversão. Era só mais um garoto, buscando o que muitos outros buscavam. Ele quase sempre conseguia o que queria, mas você saber como os homens são idiotas na adolescência – somos por toda a vida, mas quando a cabeça de baixo manda mais que a de cima, aí ferrou-se – confundem tesão, paixão carnal com amor sincero e puro que é uma beleza! E lá vai o meninão que acha que encontrou sua musa eterna se desesperar ao descobrir que ela não passa de mais uma biscate como tantas outras.     

Parou, tomou mais um gole e olhou fixamente para as luzes dos prédios próximos, como se esperasse que algo lhe sussurrasse nos ouvidos a próxima parte da história que narrava. Qual espécie de musa se dignificaria a soprar nos ouvidos desse sujeito?

– Ele tava vidrado numa mina fazia tempo, uma daquelas góticas que desfilavam no pulgueiro apertadas dentro de espartilho de laçinhos e cinta-liga vermelha. Além de linda e gostosa, a conversa papo-cabeça rasa dela fascinou aquele rapaz da periferia que mal sabia pronunciar o nome das bandas de metal que curtia. Só que, claro, ele era nada ou pouco mais para ela: apenas mais um dos caras que ela usava, noite após noite, para se divertir e para provocar o cara de que ela realmente era a fim. O pobre coitado do garoto não percebeu que ele era somente mais um inseto, entre milhares que rodopiavam ao redor da beleza e sedução dela e que seria queimado por essa luz em breve. 

– Foram meses nessa: ele atrás dela, uma ficada aqui, outra ali, depois ela nunca estava disponível, ou então  dizia que ia ao banheiro, não voltava e ele a pegava no colo de outro, ela deu os números e endereços  de toda essa porcariada eletrônica em que as pessoas se viciaram, endereço de MSN o escambau, telefone disso, face não-sei-o-quê, e sempre fugindo do moleque, louco para tê-la e sempre sendo frustrado. E bem, as crianças e jovens deste milênio, dizem os mais velhos e “sabidos”, não aceitam frustração.

– Historinha longa.

– Calma, já estou chegando na melhor parte. Pô, a cerveja acabou de novo! Mais uma!

Dois generosos goles e continuou: 

–Até que numa noite a vagaba foi longe demais: estava aos beijos com nosso herói quando viu seu muso aparecer com outra putinha, sua rival, pendurada no saco dele. Ela simplesmente o largou, apanhou o muso – após um belo e desmoralizante safanão na rival, claro! – e o arrastou para a dark room. Nosso amiguinho ficou um tempo desolado, encostado no balcão, o peso do mundo em seus ombros magrelos, mas súbito algo se agitou dentro dele, sentiu como que uma coisa mordendo sua coluna e ordenando que fosse homem, que tomasse o que era dele, que agisse como animal, se necessário. Infelizmente para ele, os infelizes que acasalavam na sala escura e para a história do lendário Atlantic, ele tomou essa última ordem muito ao pé da letra...     

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h13
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