CARPE NOCTEM - O mundo da meia-noite de São Paulo


19/06/2014


IMPORTANTE - MUDANÇA DE ENDEREÇO

Após quase sete anos hospedado no zipnet, Carpe Noctem migrou para o wordpress, novo provedor, novos autores ( todos os contos aqui postados lá estão, bem como o primeiro conto do novo endereço,  da nossa querida amiga e nova autora, Elis Verri, já disponível).

Adicione o endereço aos seus favoritos (http://carpenoctemsp.wordpress.com), acesse, leia, diga o que achou do novo blog, comente, critique, elogie, glorifique, xingue, mas não deixe de enviar sua mensagem.

Saudações Noturnas e Etílicas, sempre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h57
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17/05/2014


Sodomia - parte I - por Vinicius Zahorcsak, edição e revisão de Elis Verri e Caio Bezarias

Em meus olhos você não vê o brilho

Em meus olhos você não vê a luz

Em meus olhos você vê suas lágrimas

Em meus olhos você vê meus medos

Em meus olhos você não vê paixão

Em meus olhos você vê meu ódio

Em meus olhos você vê meu destino.

 

All alone - The sins of Thy beloved

 

Parte 1

 

Claire andava inquieta ultimamente, mais do que o normal. As horas custavam a passar, e ela queria que chegasse logo a noite.

Sim, a noite, sua companheira.

Sua diversão no momento era frequentar um círculo de jovens que não apenas acreditavam, mas agiam e trocavam sangue como se fossem vampiros.

"Não, Claire! Somos humanos e sabemos disso. Apenas apreciamos o modo negro de se viver, a excitação da troca de sangue. Você nos entende?"

Claire não entendia. E nem estava aí para entender ou não. Queria estar ali, com eles, trocando sangue e experiências sexuais. Eram orgias fenomenais, regadas a muito vinho (como Bacantes), e sangue. Existia toda uma preparação para determinadas noites, quando todas as garotas estavam menstruadas. Era o ápice, era bom demais.

"Nenhum homem, ninguém nunca despertou toda minha sexualidade como esse grupo conseguiu."

Claire era branca, não muito alta, cabelos pretos, e grandes olhos castanhos. Eram muito bonitos, mas inexpressivos. Ela nunca conseguia dizer nada com apenas um olhar. Sua palidez contrastava com o sobretudo negro surrado que gostava de vestir. Um justo vestido, preto também, fazia o resto do figurino. Calçava botas, o que a deixava com um ar de prostituta fracassada.

Ela costumava se maquiar, para logo depois dar uma leve borrada. Sempre parecia estar acordando naquele exato momento. Menos pela boca, carnuda. Possuía lábios muito grossos e enlouquecedores. Sempre caprichava no batom. Lábios vermelhos fatais. Assim como as unhas, cuidadas com esmero. Se tinha algo que Claire fazia com muito carinho, eram as unhas. Longas e escarlates.

Morava sozinha, desde que se mudara para o centro de SP. Fazia apenas seis meses que ela chegara na cidade. Ainda estava descobrindo a noite, mas já tinha seus amigos. Com seu jeito de ser, sempre recebeu propostas para ser prostituta. Sabia que podia ser uma, e das boas. Mas não queria. Não agora. Ao contrário, tinha um emprego safado de garçonete. Era bem tratada, até por que o patrão sabia que Claire atraía muita freguesia. E ela sabia disso. Pedia um salário aceitável, e recebia em dia.

Quando chegava em casa, tarde da noite e sozinha, era a atração da vizinhança. Todos pensavam que ela se prostituía. Profissão mais do que normal para as garotas dali. Imagine então para uma forasteira? Mas Claire não se importava com os comentários.

Olhou para fora. A tarde caía no centro. Avermelhada, como se colocassem uma lente vermelha frente ao Sol, que nunca parecia brilhar o suficiente naquela cidade. Esperava ansiosa para tirar aquele avental ridículo de garçonete.

Faltava pouco agora. Em algumas horas estaria em casa, se prepararia e iria ao encontro do grupo. Esteve muito excitada durante o dia todo. Chegou ao extremo de ter que se masturbar no horário de almoço. Sabia exatamente o porquê de sua libido estar tão alta. Sempre ficava mais propensa ao sexo durante o período menstrual. Era inevitável. Antes, reprimia esse sentimento. Nenhum de seus antigos homens transava com ela durante esses dias. Mas ultimamente tudo mudou. A garçonete enfim descobriu ser um vulcão nesse período, e achou os parceiros certos para desfrutar.

 

Parte 2

 

Faltavam dois minutos para a meia-noite quando Claire entrou no local. Ficava mais familiar cada vez que ela voltava, mas nunca se acostumaria de verdade. A "Caverna" - como era chamado - tinha uma curiosa decoração pós-apocalíptica. Diversas correntes caíam do teto, gaiolas vazias davam apenas uma certa ideia do que poderia ter ocorrido por ali, em outras noites.

A parte que mais chamava a atenção de Claire era a sala principal, onde a seita costumava beber sangue. Tinha sempre algum detalhe a mais, de acordo com a época do ano, ou alguns feriados pertinentes. Mas basicamente era o mesmo casal. Uma boneca inflável e seu eterno parceiro, um "crash-test dummie", os bonecos que as montadoras de veículos criam para testar a segurança em seus carros.

Estavam sempre na mesma posição. A bonequinha de quatro, o rosto coberto por uma máscara de gás, sendo duramente currada pelo boneco, que usava um cinto equipado com um enorme pênis de borracha.

Claire foi recebida por um dos "sócios", e olhando para o casal boneco, sorriu:

-Por que vocês não tiram a máscara da pobrezinha? Ela quer gritar, dizer que está adorando, essas coisas...

-Você já viu coisa mais feia do que a boca de uma boneca inflável? - respondeu o homem.

Os dois entraram na sala rindo muito, quando Claire viu que tinha alguém novo no lugar. Sem saber explicar direito, aquilo a excitou mais.

-Ah, Claire, aquele ali é o Sammael, o dono do clube Devil´s Whorehouse, acredita? E veio nos visitar. Uma pessoa comentou que gostamos de trocar sangue entre nós, e ele se interessou. Não é demais?

Claire não estava ouvindo. Estava olhando para a figura sentada dentro de um círculo de pessoas na sua frente. Era um homem muito forte, que se diferenciava por isso. Todos os outros do salão eram magros, esguios. Assim como Claire, ele não era muito alto. Longos cabelos, muito bem cuidados, lhe davam uma aparência exótica. De longe Claire olhava os detalhes do homem, a pouca pele que aparecia por baixo da roupa pesada que usava era estranha, com muitas cicatrizes. Algumas tatuagens de praxe, porém em nada parecidas com qualquer coisa que ela já tivesse visto antes. Pareciam estranhamente antigas.

Foi nesse momento de estudo, que ele voltou-se para ela. Não foi um olhar comum.

Claire já tinha sido alvo de olhares desejosos, cantadas sofisticadas e outras nem tanto. Mas aquele olhar... Como explicar? Sentiu-se mais que desejada, sentiu-se despida, pequena, ingênua, indefesa, tudo ao mesmo tempo.

Sentiu-se explorada.

Desviou os olhos, confusa. Nunca tinha negado um olhar, nem baixado a cabeça antes. Mas, naquele momento, preferiu ceder. Sentiu, mesmo sem ver, o sorriso de Sammael.

-Bem, Claire, você que chegou agora, quer assistir o ritual da leitura das treze regras para nosso mais novo membro?

Ela não era a única mulher do lugar. Suas outras duas amigas estavam ali também. Sentou-se ao lado delas, e respondeu:

-Claro. Vocês já vão começar?

-Sim. Silêncio. Agora vamos aceitar Sammael como nosso novo membro. Uma honra, pela figura importante da noite de São Paulo que ele é. Sei que não poderá estar todas as noites conosco, mas eu espero que esteja sempre que puder.

Sammael concordou com a cabeça. Claire ainda não tinha ouvido a voz dele. E percebeu que queria muito ouvi-la.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h05
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Sodomia - parte II

O membro fundador da seita começou a ler o código que eles adotaram como "regras de conduta".

-Regra número um. DISCRIÇÃO: Este estilo de vida é particular e sagrado. Respeite isto, não faça dele um assunto secundário. Aparecer na televisão contando ao mundo que você bebe sangue é atrair atenção desnecessária. Nosso lugar é nas sombras.

-Nunca esconda sua natureza, mas nunca mostre a quem não entende. - disse Cassandra, uma das amigas de Claire, ao seu lado.

Sammael olhou para todos, e acenou que havia entendido.

"Por que o maldito não fala algo?" - pensou Claire. A maneira como Sammael lhe olhou em seguida quase a fez acreditar que ele lia pensamentos.

-Regra número dois. DIVERSIDADE: Nossos caminhos são muitos, ainda que a viagem em que todos nós estamos seja essencialmente a mesma. Respeite todas as visões e práticas pessoais.

-Nossa diversidade é nossa força. Deixe que nossas diferenças de ponto de vista apenas nos enriqueçam, mas nunca nos dividam. - entoou Cassandra.

Sammael acenou novamente.

-Regra número três. SEGURANÇA: Alimente-se em lugares particulares e tenha certeza que seus doadores serão discretos. Doadores que criam rumores e fofocas sobre nós não são bem-vindos. Se você se empenha em beber sangue, coloque a segurança e o cuidado acima de tudo. Doenças sanguíneas são uma realidade, e não podemos arriscar pôr em perigo nós mesmos ou outros de nós por sua irresponsabilidade.

-Observe cuidadosamente seus doadores, certificando-se de que eles são de boa saúde, tanto física como mental. A segurança da comunidade inteira descansa sob os cuidados de cada membro. - continuou Cassandra.

Claire esperou novamente pela voz de Sammael, que não veio.

-Regra número quatro. CONTROLE: Não podemos e nem devemos negar nossa escuridão interior. Nem devemos permitir que ela nos controle. Nunca permita a violência. Nunca machuque quem te sustenta. Nunca alimente-se unicamente pelo fato de se alimentar, e nunca entregue-se à sede de sangue descuidada.

-Não somos monstros: nós somos capazes de pensar racionalmente e temos autocontrole. Celebre a escuridão e deixe que isso lhe dê poderes, mas nunca deixe que ela escravize sua vontade. - disse Cassandra.

Sammael deu um sorriso irônico, que todos acreditaram ser apenas uma piadinha. Estavam errados, todos eles, mas não sabiam.

-Regra número cinco. ESTILO DE VIDA: Explore e use sua natureza vampírica, mas coloque isso na balança com as necessidades materiais. Lembre-se: nós podemos ser vampiros, mas ainda fazemos parte deste mundo. Devemos levar nossas vidas normalmente, com nossos trabalhos, nossas casas, e progredindo com nossos vizinhos.

-Ser o que somos não é uma desculpa para não participarmos desta realidade. Melhor, isto é uma obrigação para fazermos dela um lugar melhor para vivermos.

Enfim Sammael falou:

-Podem ter certeza disso. É exatamente assim que penso.

Claire a princípio não notou nada de especial na voz dele. Era normal. Sentiu-se um pouco decepcionada.

-Regra número seis. FAMÍLIA: Somos, todos nós, uma família, e como toda família, nem todos os membros progridem. Entretanto, respeite a comunidade durante suas disputas.

-Como toda família normal, devemos sempre fazer um esforço para apresentar uma aparência estável e unificada ao resto do mundo, até mesmo quando as coisas não estão perfeitas entre nós.

-Regra número sete. ABRIGOS: Nossos abrigos são locais seguros onde todos na comunidade podem comparecer. Há também outros lugares públicos, onde costumamos ir para encontrar pessoas que não sejam do nosso meio. Devemos sempre respeitar estes lugares e sermos discretos em nosso comportamento.

-O abrigo é o centro da comunidade inteira, e nós devemos respeitá-lo como tal, trabalhando para melhorar seu nome na comunidade, de modo que nós todos possamos sempre chamá-la de lar.

Sammael ouviu a última frase de Cassandra, e deu um risinho:

-É esse o espírito de meu Devil´s Whorehouse também. - concluiu.

-Regra número oito. TERRITÓRIO: Toda cidade tem suas maneiras diferentes de se fazer as coisas, e regras diferentes de hierarquia. Quando entrar em uma nova cidade, você deverá familiarizar-se com a comunidade local.

Antes que Cassandra acompanhasse o líder, Claire sorriu, pedindo:

-Essa regra eu conheço bem. Posso recitar o resto?

-Claro. - disse Cassandra, meio contrariada.

-Sempre siga seu melhor comportamento quando chegar em uma nova cidade, seja para visitar ou ficar. Somos todos territoriais e prudentes por natureza, e somente causando a melhor das impressões será possível ser aceito e respeitado em uma nova comunidade.

-Você é nova na cidade, criança? - perguntou Sammael, curioso.

-Sim, aqui no centro há só seis meses.

-Hum, que interessante...

Claire ficou durante as próximas regras tentando entender o que ele quis dizer com aquilo.

-Regra número nove. RESPONSABILIDADE: Este estilo de vida não é para qualquer um. Escolha com cuidado suas crias.

-Você será responsável pelas ações de seus escolhidos, e o comportamento deles na comunidade será refletido em você. - continuou Cassandra.

-Muito prudente. - limitou-se a dizer Sammael.

-Regra número dez. ANCIÕES: Existem membros que estabeleceram-se como líderes por sua responsabilidade. Eles são as pessoas que ajudam a estabelecer as comunidades locais, que organizam os abrigos, e que trabalham e coordenam a rede de nossa cultura. Eles têm mais experiência que muitos outros, e geralmente mais sabedoria também.

-Aprecie os anciões por tudo que eles têm dado a você: se não fosse pela dedicação deles, a comunidade não existiria organizada como é hoje.

-Devo acatar as ordens de alguém, é isso? - questionou Sammael.

-Exatamente. Mas como estamos entre amigos, essa regra é mais decorativa que prática. Apenas seja responsável, e tudo se encaixa. - respondeu o líder da seita.

O convidado sorriu, e acenou para continuar.

-Regra número onze. DOADORES: Sem aqueles que nos oferecem seus corpos e almas, não seríamos nada. São os doadores que sustentam nossa natureza. Por isso, eles devem ser respeitados.

-Aprecie a camaradagem e aceitação que eles oferecem a nós, que tantos outros poderiam recusar.

-Certo. Vou me lembrar disso. -  aquela ladainha toda decorada parecia estar cansando Sammael.

-Regra número doze. LIDERANÇA: Quando você escolhe tomar uma posição de autoridade na comunidade, lembre-se de que você não fez nada sozinho. Liderança é uma responsabilidade, não um privilégio. Um bom líder deve dar o exemplo para todos através de suas ações. Seus motivos devem ser puros, e ele deve colocar os interesses da comunidade inteira acima de tudo.

-Os melhores líderes são os que servem melhor à comunidade e cuja pessoa e comportamento não dão a ninguém - até mesmo aqueles de fora da comunidade - razões para criticá-los. Eles devem lutar para estar acima de qualquer censura.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h01
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Sodomia - parte III

-Acho que não aspiro a liderança dessa seita, irmãos. Podem passar para a última regra.

-Regra número treze. IDEAIS: Ser um vampiro não é somente se alimentar da vida. Isso é o que fazemos, mas não necessariamente o que somos. É nossa maneira de representar a escuridão em um mundo cegado pela luz. É ser diferente, e aceitar essa diferença como a coisa que nos torna únicos. É aceitar a escuridão que carregamos e abraçá-la para termos uma existência plena. É celebrar corpo e espírito, prazer e dor, morte e vida.

-Nossas vidas devem ser vividas como uma mensagem ao mundo sobre a beleza de se aceitar a pessoa inteira, de viver sem culpa e sem vergonha, celebrando a essência individual e bela de cada alma única. - encerrou cerimoniosamente Cassandra fazendo um gesto erguendo os dedos indicador, médio e mínimo da mão esquerda semelhante a um tridente.

Sammael pareceu ter refletido apenas sobre a última regra. Ficou pensando por uns instantes e depois balançou a cabeça, como se estivesse negando alguma ideia que tenha surgido em sua mente.

-Você entendeu e aceitou todas as regras? Quer fazer parte de nossa comunidade? - perguntou enfim Cassandra.

-Antes que responda, quero deixar claro que usamos o termo "vampiros" apenas no sentido figurado. Somos pessoas normais, que trabalhamos, temos família, amigos etc. Apenas usamos essa alcunha para compartilharmos entre nós o fetiche do sangue. Vampiros não existem, é claro.

-É claro. - Sammael repetiu sorrindo. Usou um tom de voz esquisito.

-Temos gente de todo tipo em nossa seita. Ou comunidade, como preferir. De banqueiros prósperos, até garçonetes. Sabe que temos em nossas fileiras até mesmo um ex-torturador, capaz de te dar o tipo de dor que você quiser? Existem pessoas que curtem dor e prazer. - disse o líder.

-E quem é ele, o torturador? - quis saber Sammael.

Cassandra levantou a mão, com um sorriso no rosto. "Sou eu."

O estranho ficou surpreso por um instante, e soltou uma gargalhada. Estendeu a mão para tocar Cassandra, e ficou subitamente sério.

-Os homens de hoje nada sabem sobre dor, comparado com os tribunais da Santa Inquisição. Lá sim você sofria, ou se entregava à dor. - disse, sombriamente, Sammael.

Ninguém entendeu o significado daquelas palavras, mas ninguém estava mesmo a fim de descobrir. A noite prosseguiu, regada a vinho. As caixas de som do lugar duelavam músicas de Ian Curtis e seu Joy Division contra o Bauhaus de Peter Murphy. Tocavam X-Mal Deutschland, Clan of Xymox, The Cure, Siouxie, Sisters of Mercy, dentre outras bandas góticas famosas, outras nem tanto. Um clima sombrio hipnótico tomou conta dos presentes.

-Sammael, por que o seu clube está fechado hoje? - perguntou Angélique, a outra amiga de Claire, curiosa.

-Bem, o Devil´s Whorehouse está passando por... reformas de cenário! - ele respondeu, sério. Depois engajou-se numa conversa sobre filosofia e religião, debatendo com outros membros sobre assuntos diversos, inclusive defendendo que a destruição da mítica Sodoma não foi motivada por sexo, como todos pensam:

-No Gênesis da bíblia é narrado que dois anjos chegaram à cidade, e que a população degenerada quis "conhecê-los". A partir daí a ira divina destruiu tanto Sodoma quanto Gomorra. Mas esse termo "conhecer" não tem nenhuma conotação sexual, a não ser em nossa tradução moderna. Tanto que na cidade havia velhos e crianças, e esses com certeza não compartilhavam do desejo carnal. Na verdade eles odiavam estrangeiros, e sempre procuravam humilhar forasteiros.

-Sodoma foi destruída simplesmente por não ser hospitaleira? - indagou Cassandra.

-Na verdade foi a soberba, a ganância, o orgulho, a ociosidade e a fartura desperdiçada. Mas não foi o desejo de sexo com anjos. Nenhuma passagem bíblica sobre Sodoma e Gomorra fala de sexo.

Claire prestava toda sua atenção no estranho. Não gostava da voz dele ainda. Mas sua excitação subia como um termômetro. Já podia imaginar como seria sua madrugada.

Na primeira oportunidade em que ela se afastou do grupo, caminhou até sentar-se ao lado da boneca inflável. Reparava com muita atenção nas nervuras do pênis vestido pelo boneco quando ouviu a voz, mas agora soando de maneira muito diferente:

-Quero falar com você. A sós.

O corpo de Claire se arrepiou inteiro, e ela sentiu algo molhar entre as pernas. Aquilo não podia estar acontecendo. "Quer falar sobre Sodoma ou Gomorra?"

-Sobre sodomitas...

-Onde está Claire? - perguntou o líder da seita, alguns minutos depois.

-Ela está bem... muito bem! - limitou-se a dizer Cassandra, sorrindo. Apontou maliciosamente para a única suíte do lugar.

Nesse momento Claire estava experimentando todos os músculos do estranho Sammael. Ele era viril, tinha uma agressividade que ela nunca tinha sentido antes, e só agora sabia que era exatamente o que sempre procurou por toda sua curta vida.

-Eu farejo putinhas de longe, sabia? E quando te vi pela primeira vez, você literalmente suava luxúria. - disse Sammael.

Claire estava ajoelhada. Parou momentaneamente de trabalhar com a boca para conseguir falar. No estado em que o estranho estava, ela sabia que dependendo da resposta, ele se acabaria de prazer e encheria sua boca.

-Você despertou minha libido. Quando te vi, não só transpirei. Molhei até a calcinha.

Sammael fez uma cara animalesca e segurou os cabelos de sua putinha. Colocou seu membro todo dentro da boca dela e retesou os músculos. O que Claire engoliu sem querer tinha um gosto estranho, sem aquela textura comum de esperma. Na verdade ela não soube o que engoliu. Mas o ato ainda assim era muito excitante. Nem teve tempo de se levantar quando foi jogada ao chão, com força mas sem exagero.

-Isso... me devora! Me mostra do que é capaz! - gritou, desafiando, Sammael.

Foi virada de bruços, mas antes quase sentiu medo das feições dele. Claire gostava de usar uma coleirinha de couro preto adornando seu pescoço. Sammael deu um forte puxão na colerinha que jogou sua cabeça para trás quando ele a invadiu.

A mente de Claire se voltou até o casal de bonecos do salão, a cara de submissa da boneca inflável, impotente sem poder extravasar seu tesão. Quando Sammael a domou pela coleira, puxando com força e a penetrando com violência, ela passou a gritar como nunca.

-Mais! Com foooorçaa!!! Esperei tanto por isso! Continuaaaaaaa!!! Vai, filho da puta!!!

Lá fora, os membros da seita ouviam os gritos, incomodados. Quando Angélique teve a idéia de deixar alguém beber vinho nos seios dela, o clima enfim esquentou. A sala principal, que estava reservada a poucos membros da seita naquela noite, virou o palco de uma suruba escarlate regada a sangue e vinho. Cassandra e Angélique sumiram no meio da volúpia da maioria masculina do lugar.

Dentro da suíte, Sammael possuía Claire com toda sua força. Nunca uma putinha o tinha desafiado antes, e por isso ele fazia questão de machucar. Tinha planos para ela. Pensou também em Cassandra, a bela torturadora, que lhe seria útil no futuro.

Claire era penetrada e sua mente viajava em sensações contraditórias. Prazer, dor, poder, humilhação. Não sabia o que estava curtindo mais. Sabia que todos lá fora estavam ouvindo, e com isso compartilhando do prazer dela. Sentiu-se poderosa, a rainha da noite. Mas quando Sammael puxava a coleira de couro, ela virava uma cadelinha sendo domada por um dono sádico. Então aguentava as estocadas violentas machucando suas carnes molhadas, e sentia-se uma mulher realizada.

Sammael estava concentrado em sua vítima. Quando sentiu Claire molhar-se toda, misturando seu ciclo menstrual com a excitação, ele a encostou na parede. Ergueu a mulher com a maior facilidade, e ela teve a penetração mais profunda de sua vida. Nunca sentira nada igual. Estava em êxtase.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h57
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Sodomia - parte IV

Quando Claire chegou a mais um orgasmo, contorceu-se toda nos braços dele, que a deixou caída no chão e montou por cima. Penetrou de novo, e até com mais vigor que antes. Claire olhava ainda com olhar desafiador, pensando em até quando aguentaria aquele ritmo. Já estava dolorida, mas não queria que aquilo acabasse. Não ainda.

Quando ele colocou a mão fechando sua boca, ela ficou com medo. Dedos poderosos. O rosto como uma máscara de ódio. Pela primeira vez temeu morrer. Isso a assustou e a excitou ao mesmo tempo. Vendo a empolgação da parceira, Sammael a penetrou atrás, uma coisa que ela raramente permitia. Impotente, segurou a dor de uma penetração seca, sem preparação e tensa. Quando enfim conseguiu suportar, ele começou a entrar mais forte. A dor voltou, tamanha que ela quase desmaiava, mas era essa a sensação única que perseguia.

Olhava para ele, que estava por cima, olho no olho, tão próximos, ela com a boca coberta pela mão forte, ele se metendo vigorosamente entre suas coxas. Claire destilava todo seu ódio e prazer num único olhar, e tentava enxergar o que Sammael sentia. Para ele o sexo parecia apenas um exercício de dominação. Tinha os olhos estranhos, sombrios, sem vida. Avermelhados. Mas odiavam. Era quase palpável. Ele a machucava e sentia prazer nisso.

Foi quando teve uma espécie de visão daquele macho viril deflorando virgens, tanto vaginais e anais, através dos tempos. Um delírio próximo ao gozo? Ele não parecia ser velho, mas algo nele era tão... antigo? Em sua mente Claire também imaginou que ele também arrebentava pregas masculinas, como um mentor grego ou romano transmitindo sua virilidade para efebos através do sexo anal.

A brusca mudança de posição que Sammael forçou interrompeu os delírios de Claire. Colocada de quatro como uma égua de exposição, ela sentiu seus joelhos doloridos contra o chão duro. Tão duro quanto o membro pelo qual esperava ser invadida. Mas a mão forte de Sammael novamente a levaria a uma região podre do prazer, aquela tênue linha entre a satisfação e a sensação de estar nadando na lama da depravação. Segurando o pulso de Claire, ele dirigiu a mão dela até entre as nádegas e pediu impaciente que ela enfiasse o dedo indicador no rabo. Ela soltou um gritinho de prazer quando enfiou. Primeiro um, depois ele pediu dois, até que a fez enfiar três dedos. Ela já gostava da sensação quando encaixou o quarto, e então Sammael aproximou-se, e ela sentiu o nervos do pau dele roçando os nós de seus dedos, tudo dentro dela. Ele enfiou tão fundo quanto pôde, ela viu estrelas e praticamente mijou nas próprias pernas com tanto gozo. Ele fez um som parecido com sorriso, praticamente a imobilizando naquela posição e então a penetrou. Seu membro entrava meio que por cima, ou excessivamente de lado, forçando ainda mais a musculatura interna. Apesar do prazer aquilo doía muito e o ritmo da investida dele foi aumentando gradualmente, até as lágrimas de Claire se misturarem com a saliva num grito descontrolado. Havia perdido a batalha... Ela nunca mais desafiaria Sammael!

Ele agora se jogava contra as nádegas dela, com tanta força que Claire se dobrou, encostando o rosto no chão. Não aguentando mais o braço esticado para trás, ela escorregou os dedos para fora do rabo, deixando tudo aberto para seu novo mestre. As pernas poderosas dele pareciam envolvê-la, até que ela sentiu o pé direito de Sammael pisando desdenhosamente em sua cabeça enquanto a enrabava. Ela tinha sido vencida enfim, mas sem poder se render. O estranho homem que não respirava não deixava. Qualquer outro naquela situação estaria ofegante, mas não ele. Claire quis pensar nesse detalhe, mas sua mente não funcionava. Não para isso. Ela só sentia a incômoda invasão que a machucava seguidamente. Finalmente Sammael retesou os músculos, seu membro pareceu aumentar de diâmetro e ele gozou. Novamente algo estranho, parecia até frio, uma coisa esquisita que a mente dela começou a não aceitar direito. O prazer tinha terminado.

Sobrou a dor. Sammael caiu de lado. Não respirava mesmo. E era o primeiro homem que trepava com ela e não suava. Nem uma única gota! Ao contrário de Claire, que sentia um gosto horrível nos lábios, tinha todo seu corpo dolorido, molhado de suor, de sangue, e secreções. E ela sabia que seu rabo agora estava aberto de maneira obscena, a musculatura tentando voltar ao lugar natural.

Juntou toda sua força de vontade, sentia-se pequena e indefesa. Levantou-se, sentindo em seu pescoço dolorido as marcas da coleirinha de couro. Olhou novamente para ele, e enfim perguntou:

-Quem é você?

-Sou seu sonho. Ou seu pesadelo. Depende do que sentiu nos últimos minutos.

Claire hesitou. A palavra nojo veio em sua mente. Ela não disse, mas ele leu em seus olhos, antes inexpressivos, mas que agora pareciam livros abertos.

-Você no íntimo gostou. Apenas não entendeu o que sou. Isso a deixou confusa.

A mulher baixou a cabeça, recusando-se a olhar para ele.

-Quanto ao que sou...

Claire esperou ele terminar a frase, mas isso não aconteceu. Um rosto horrível a encarou de perto, com dois olhos injetados, vermelhos. Peludo? Por um instante, a mulher não sabia se estava olhando para Sammael ou para um lobo. Apenas soube que já estava morta.

-Será minha eterna escrava. Terá dor e prazer por todas as noites da eternidade. Arrancada da luz do Sol, terá que procurar outras formas de acalmar suas perdas.

Ele abriu a boca, e seus dentes quase arrancaram a cabeça dela do pescoço. Foi quase um bálsamo perto de toda a dor que ela sentiu naquela noite. Quando a secou de todo o sangue, Claire deu um sorriso irônico, e tombou morta. Mas não por muito tempo.

Quando Sammael deixou a suíte, com sua nova escrava ao seu lado, observou uma cena grotesca. A seita dos humanos bebedores de sangue, toda ela dormindo. Cassandra e Angélique molhadas de vermelho. Um cheiro forte de vinho, sexo, suor e esperma abalaram as narinas do vampiro.

-Suas amigas virão comigo. - sentenciou Sammael.

 

Parte 3

Os policiais encontraram no dia seguinte o lugar coberto de sangue. Denunciados por um vizinho que disse ter ouvido toda a orgia da noite anterior, a seita inteira foi encontrada morta.

Os cadáveres estavam totalmente secos, sem sangue algum. Marcas de mordidas múltiplas nos pescoços das vítimas davam ideia de uma chacina em massa, provocada pelo líder que, aparentemente, depois se suicidou.

-Eles não se diziam vampiros bebedores de sangue humano? - perguntou o repórter, na cena do crime.

-Sim. Eles costumavam beber sangue em orgias entre eles. O líder enlouqueceu, bebeu todos, e se matou. Só uma autópsia pode dizer o quanto de sangue ele ingeriu.

-Eles eram vampiros, então? - insistiu o repórter.

-Só na mente doentia deles. Eram humanos, como eu e você. Apenas fantasiavam. E, todos nós sabemos, vampiros não existem!

-Pelo jeito eles não sabiam disso, oficial?

O policial sorriu, e concluiu:

-Sim. O caso está encerrado. Agora abra espaço para o meu pessoal trabalhar, ok?

Naquela semana, o Devil´s Whorehouse abriu suas portas novamente. E com três novas empregadas...

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h53
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07/05/2014


Grande e importante notícia

Boa noite a todos

Esta postagem não é ladainha barata, não apenas repete que Carpe Noctem não acabou, mais uma vez, pois traz grande novidade, que transforma essa quase promessa furada em fato: Elis Verri e Vinicius Zahorcsak, amigos de longa data e colaboradores eventuais do blog, passaram a autores fixos! Após um rito de iniciação realizado nos confins sombrios da noite paulistana, em que os segredos de nosso midnite world lhes foram transmitidos, abrilhantarão este compêndio de crônicas distorcidas da noite paulistana com suas narrativas, o que é muito bem-vindo, pois André Pavesi, fundador do blog com este que vos escreve, solicitou e foi, com pesar, atendido em receber um, digamos, período sabático não-remunerado (bem, tudo em Carpe Noctem é não-remunerado...). 

Assim, mais uma vez solicitamos: não abandonem o blog, várias e novas histórias, de enregelar a medula dos ossos, estão em elaboração e algumas mais já em edição, para dar continuidade a nossa São Paulo macabra, perversa e ficcional.

Saudações Noturnas e Etílicas

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h42
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16/03/2014


Trechos do próximo conto

Saudações das profundezas de São Paulo a todos

A fala é antiga, repisada, mas verdadeira: Carpe Noctem não acabou. Enfrentamos mais algumas turbulências, mas o blog voltará à ativa muito em breve, com dois colaboradores antigos elevados a autores! Um deles já publicou um conto nos primórdios do blog, nosso amigos Vinícius, que retorna com uma narrativa vampírica brillhante, o conto mais pesado, violento e escatológico já publicado por estas plagas virtuais, nosso próximo conto, do qual publicamos alguns trechos a seguir.

Leitores de compleição moral frágil, que se impressionam facilmente, cuidado!

Saudações noturnas e etílicas.

 

 

Claire andava inquieta ultimamente, mais do que o normal. As horas custavam a passar, e ela queria que chegasse logo a noite.

Sim, a noite, sua companheira.

Sua diversão no momento era freqüentar um círculo de jovens que não apenas acreditavam, mas agiam e trocavam sangue como se fossem vampiros.

"Não, Claire! Somos humanos e sabemos disso. Apenas apreciamos o modo negro de se viver, a excitação da troca de sangue. Você nos entende?"

Claire não entendia. E nem estava aí para entender ou não. Queria estar ali, com eles, trocando sangue e experiências sexuais. Eram orgias fenomenais, regadas a muito vinho (como Bacantes), e sangue. Existia toda uma preparação para determinadas noites, quando todas as garotas estavam menstruadas. Era o ápice, era bom demais.

"Nenhum homem, ninguém nunca despertou toda minha sexualidade como esse grupo conseguiu."

Claire era branca, não muito alta, cabelos pretos, e grandes olhos castanhos. Eram muito bonitos, mas inexpressivos. Ela nunca conseguia dizer nada com apenas um olhar. Sua palidez contrastava com o sobretudo negro surrado que gostava de vestir. Um justo vestido, preto também, fazia o resto do figurino. Calçava botas, o que a deixava com um ar de prostituta fracassada.

Ela costumava se maquiar, para logo depois dar uma leve borrada. Sempre parecia estar acordando naquele exato momento. Menos pela boca, carnuda. Possuía lábios muito grossos e enlouquecedores. Sempre caprichava no batom. Lábios vermelhos fatais. Assim como as unhas, cuidadas com esmero. Se tinha algo que Claire fazia com muito carinho, eram as unhas. Longas e escarlates.

 

 

 

-Bem, Claire, você que chegou agora, quer assistir o ritual da leitura das treze regras para nosso mais novo membro?

Ela não era a única mulher do lugar. Suas outras duas amigas estavam ali também. Sentou-se ao lado delas, e respondeu:

-Claro. Vocês já vão começar?

-Sim. Silêncio. Agora vamos aceitar Sammael como nosso novo membro. Uma honra, pela figura importante da noite de São Paulo que ele é. Sei que não poderá estar todas as noites conosco, mas eu espero que esteja sempre que puder.

Sammael concordou com a cabeça. Claire ainda não tinha ouvido a voz dele. E percebeu que queria muito ouvi-la.

O membro fundador da seita começou a ler o código que eles adotaram como "regras de conduta".

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 22h40
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19/10/2013


Luz branca para noites negras - parte I - Por Caio Bezarias, revisado e editado por André L. Pavesi e Elis Verri

“And late at night the last open cafe in a dark street
Down some stairs
She's gone into a distant light”

Kirlian Camera, Heldenplatz

Tokyo Road, uma das casas noturnas de rock no início da rua 13 de maio, início de uma madrugada de sábado

O sujeito era alto, forte, rosto brilhante e liso, tão jovial que lhe dava ar de criança crescida, cabelos curtos muito bem cortados, alinhados à perfeição por gel, metido numa camisa justa aberta na medida exata para revelar o peito musculoso e os braços moldados em academia, um grande macho  que tratou de revelar sua condição de tudo pode e tudo faz: ergueu-se da banqueta já rijo e ereto, pousou as mãos com estrondo no balcão de madeira envernizada e manchada pela coroa de umidade de inúmeros copos de bebida e disparou as palavras em alto volume, animado pelo poder que o álcool lhe deu:

– Porra, mina, qual é a tua? Fica dando trela, segurando minha mão, apertando os coxão em mim e aí quando chego junto dá uma de santinha, de virgem? – gotículas de saliva varavam o ar, com as palavras.

A mulher para a qual dirigia sua fúria aparentava entre 25 e 28 anos, corpo de 1,65 metro  de altura, com curvas exatas, nem provocantes, nem apagadas, envolvido por um vestido preto curto e justo - seios médios mas muito empinados e firmes, traseiro não muito avantajado porém delineado e evidente, a pele muito bronzeada e os cabelos alisados e marcados por faixas brilhantes, mais claras que o moreno natural. A sandália de couro negro lhe conferia pelos menos mais dez centímetros de altura. O rosto bonito, oval e harmônico, com queixo pontudo, olhos escuros cintilantes, boca de lábios finos e avermelhados, nariz  um tanto longo e curvado para baixo, único elemento que destoava da beleza nesse momento petrificada numa máscara de espanto e medo, um olhar de garotinha desamparada implorando por proteção, acompanhado de um arfar rouco.

O sujeito gritara numa voz tamanha que se sobrepôs, para os mais próximos, ao som estridente e desafinado do grupo no palco, que destroçava clássico após clássico do rock setentista, o que fez todos ao redor cercarem os dois em um átimo; alguns homens e mulheres já trataram de proteger a pobre garota do brutamontes, pondo braços entre eles e tentando empurrá-lo para longe. 

– Não tenho obrigação de ficar com você! Com ninguém! Só...só  estávamos conversando,mais nada... eu ... – a voz da garota era mais aguda e frágil a cada palavra, ela parecia não saber de fato o que se passava ou como se desvencilhar do cara.

Mais pessoas olhavam curiosas e frases curtas “ deixa ela”, “sai fora, meu!” vinham de trás da aglomeração. 

Outros espiavam a cena, sem algo dizer ou agir. Dentre eles, um sujeito bastante alto, forte, vestido como um rocker clássico: botas negras de cano alto e solado pesado, calça jeans desbotada colada às pernas musculosas, camiseta branca ostentando o logotipo de alguma banda clássica dos anos 70, cinto cuja fivela era uma caveira alada cromada, os longos cabelos escuros mais lisos que cacheados espalhados pelas costas, um rosto atento e duro, riscado abaixo do olho esquerdo e no queixo por algumas poucas e curtas cicatrizes, com várias linhas de expressão abaixo dos olhos apertados, estreitos, que observavam a cena com ostensivo interesse, a registrar cada detalhe dos protagonistas do pequeno conflito tão comum na noite.

O grandalhão calado estava há pouco mais de um metro da cena, sentado numa banqueta encostada ao balcão. Parecia apenas mais um curioso pelo desfecho, mas seus sentidos capturavam todas as reações corporais da vítima com uma clareza e precisão inumanas: tom de voz, tensão dos músculos, movimento dos olhos, abertura da pupila, posição em que o corpo permanecia, em que ponto do corpo os pêlos se eriçavam, ritmo da respiração, tudo da pequena indefesa ele registrou, mediu e avaliou, seu corpo e mente lendo, interpretando e relacionando cada reação corporal. Ele era Jorge, o mais recente habitante da cidade que  recebera o chamado de Gaia e se tornara membro do Povo, um licantropo. E sua parte  licantropa identificou algo estranho na massa de emanações corporais da garota, um único elemento se destacou, que lhe deu a certeza de que era a mesma de uma noite de poucas semanas antes.

Ela não tentou se afastar do estúpido, como qualquer mulher faria diante de um provável agressor, permaneceu na mesma posição, desde o momento em que ele se ergueu da mesa, numa posição como que adequada para receber o máximo da respiração e as gotículas de salivas contra seus tórax e abdome que a barreira de braços e cabeças permitiria, pois estava estática bem à frente dele, paralisada, olhar parado. E o sujeito era pelo menos dez centímetros maior que ela. Um humano explicaria essa estranheza como algo que dominaria qualquer mulher pequena e frágil numa situação como aquela, a típica paralisia que acomete os humanos engolidos pelo medo. Mas Jorge não era de todo humano e seus sentidos mais que humanos o convenceram: algo estranho  ocorria. E tinha de descobrir, nessa noite, porque  ela não se afastava de imediato de homens que assediavam com violência, pois o lobo dentro dele alertou que algo contra os desígnios de Gaia ocorria com ou por causa da garota e ele, como instrumento da mãe de todos, tinha de, pelo menos, descobrir o que se passava. E claro, sua porção humana, seu corpo de homem, tinha outros planos para a bela fêmea, planos que não haveriam  de conflitar com a missão.

Ele já tinha formulado sua fala, a linha de ataque, quando um sujeito bem semelhante a ele em estilo, apenas um tanto barrigudo, meio grisalho e ostentando um cavanhaque loiro muito bem cuidado sentou-se ao lado dela e perguntou:

– Agora está tudo bem, Anna. Precisa de algo? Quer uma bebida? Ninguém vai te agredir mais, não se preocupe – e olhou de esguelha, sorrindo, para o garotão, que arreganhou os dentes e afastou-se grunhindo sobre os folgados e as putas que ferram com a vida dos outros.

A garota desviou o olhar do coroa ao girar a cabeça para a esquerda e disparou um suspiro demorado, o rosto retesado de puro fastio. O jato de ar foi intenso o bastante para uma pequena porção atingir, a mais de metro de distância, os pêlos hipersensíveis do braço direito de Jorge, que se arrepiaram não por ser a respiração de uma bela mulher tocando seu corpo, mas por conter um rubor estranho, não parecia carnal, não parecia...normal, um sinal muito sutil de algo sintético, que não parecia orgânico, tênue demais para ele definir o que seria,  e isso o  assustou. O que era essa garota? Ela era humana, ou apenas aparentava ou fingia ser? Mais uma espécie de criatura sobrenatural descobrira as vantagens e delícias de habitar e se alimentar em uma cidade tão caótica e enorme? Mais problemas para os seres das trevas que enxameavam durante as noites paulistanas? 

– O que você quer?

– Sou apenas um cara educado que não admite uma mulher ser agredida por um macaco marombado na sua frente. E você é amiga dos meus amigos, entramos todos juntos aqui, lembra?

– E claro, salvando ela desse macaco conquista a simpatia dela e algo mais.

– Um homem pode ser gentil com uma mulher sem ter segundas e sexuais intenções, moça.

– Você é igual a todos os outros, começa com uma conversa linda e depois seu comportamento fica horrível. Chega! - E a garota paralisada de medo dissolveu-se na fumaça e vapores que empesteavam o clássico bar da 13 de maio para dar lugar a uma mulher decidida, que ergueu-se de um pulo, bolsinha branca de couro bem presa às mãos, reta, firme. Como se fosse uma cavalona de 1,80 m vivida caminhou em passos decididos até a um casal bem-vestido sem traços especiais, as primeiras pessoas que buscaram afastá-la do garotão de cabelo alinhado, minutos antes, típicos freqüentadores dos bares de rock arrumadinhos do Bexiga, que assistia a tudo na outra ponta do balcão e anunciou para eles:

– Não deviam ter me trazido nesse lugar. Tô indo, vou tomar uma cerveja lá fora e depois pego um táxi. Depois ligo. Beijo.

Nada disseram, apenas a garota fez um curto aceno de concordância, como se já  a conhecesse muito bem. 

A espera de pouco mais de um minuto para pagar a conta e poder sumir na noite foi sofrida. Mordiscou uma unha, olhou para os lados várias vezes, lábios entreabertos, olhos arregalados, como se um bando de seviciadores fosse pular sobre ela; ao cruzar o olhar com o de Jorge murmurou algo e o corpo ficou ainda mais rijo.

Ele não praguejou por ser obrigado a mudar a ação. Continuou sentado, engoliu o resto do uísque e menos de um minuto depois pagou a conta e ganhou a rua de uma noite de final de semana típica dos primeiros metros da 13 de maio: no momento em que se mergulhava nela, não parecia existir ali um limite entre a rua, as calçadas, as luzes noturnas e as pessoas, tudo era uma mistura confusa e atraente de  luzes – luminosos nas fachadas de casas noturnas, placas de botecos, faróis de carros e motos empacados na lentidão; pessoas– mocinhas com corpo e rosto em flor, envergando roupas justas e curtas, salto alto, em busca de bebida , diversão e companhia, rapazes em camisas de gola, ansiosos por ser os escolhidos das garotas, quarentões em jaquetas de couro, cabelo comprido já grisalho, dispostos a tomar as meninas sem dar chance aos rapazes e a usar ao máximo os anos que lhes restavam de uma juventude terminal, trintonas e um pouco mais que isso em pequenos grupos que disparavam olhares sedentos a todos os homens; ruídos – conversas, risadas, gritos, buzinas. Nessa profusão de sinais a emanação da garota estava oculta, indistinguível. Jorge refinou ao máximo que podia seus sentidos lupinos ainda um tanto imaturos e pouco sutis na percepção para encontrar a direção que deveria seguir.    

Um rumor muito leve na brisa noturna indicou que deveria subir a rua, seguir na direção das cantinas. E novamente, a emanação causou um estranho arrepio em sua pele. O lobisomem tinha detectado outro ser ao menos em parte  não-humano, não restava dúvida.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h50
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Luz branca para noites negras - parte II - Por Caio Bezarias, revisado e editado por André L. Pavesi e Elis Verri

Caminhou pela calçada em passos muito lentos, para não deixar qualquer nova pista escapar. Bastaram pouco mais de trinta metros: lá estava ela sentada num banco do bar do Eloy, um simpático e divertido boteco cujas paredes eram um caos de fotos de deuses mortos do rock e badulaques coloridos que pareciam ter sido surrupiados de uma casa de praia vazia, rádio para sempre sintonizado na mesma emissora de “classic rock”, o dono atrás do balcão, uma figura lendária da cena roqueira do Bixiga da década de 80, convertido, agora na meia-idade, em vendedor de bebidas e contador de histórias para os mais jovens.

A garota bebia cerveja de uma lata em grandes goles e a cada meio minuto olhava para os fundos, na direção dos banheiros, parecia ainda mais ansiosa que há pouco antes. Intrigante.

Jorge fez uma manobra simples para evitar que ela o visse ali, na rua, tão próximo: entrou no boteco mais abaixo, do mesmo lado da rua, pegou uma cerveja em lata com o balconista e ficou de esguelha, no limite entre a calçada e a entrada do bar, recuado e olhando para a direção contrária, girando a cabeça de quando em quando, como se apenas para acompanhar o fluxo da noite e não observar algo ou alguém em especial.

Para alívio da garota, a espera foi breve: um sujeito de altura mediana, pele acobreada, magrelo, roupas folgadas, tênis encardido, barba de vários dias a crescer sem cuidados na cara, o cabelo uma massa de tranças de estilo afro embaraçadas, olhar meio feroz, meio chapado, surgiu do interior do bar e sentou-se ao lado dela. A tentativa da garota de disfarçar, fingir que não o conhecia foi tão mal-feita que indicou o oposto: espiou pelos cantos dos olhos fixamente, seus pés delicados foram possuídos por um frenético sobe e desce da base do banco,  fingia estudar as unhas para não pregar o olhar nele, até que divertindo-se com a cena, ele sussurrou algo para ela, que apenas sorriu, pulou da banqueta e disparou para os fundos.

Jorge vivia há anos no coração do Bixiga, nas proximidades do burburinho da 13 e sabia quem era esse sujeito e o que fazia enquanto perambulava pelos bares e era abordado por parte da garotada arrumada e sorridente que bandolava pelas casas de rock da região. Sabia por que eles o procuravam com tanta ansiedade, algumas vezes com olhar faminto, exalando desejo por algo, outras cheios de medo e por que ele por vezes desaparecia por semanas e semanas.

E quando a garota retornou, em menos de três minutos, ainda mais agitada, mas em um ritmo diferente, não tensa ou ansiosa mas cheia de alegria, os olhos mais abertos,  Jorge teve seu palpite confirmado e saiu  firme e decidido do esconderijo improvisado, se postou na calçada, olhar direto para o boteco roqueiro do Eloy, para se mostrar e agir.

Antes que o lobisomem completasse seu movimento, ela parou ao lado do sujeito, que estava numa posição ainda mais largada, parecendo um cadáver sentado, o olhar arrogante ainda brilhando, e disse numa altura bastante para Jorge ouvir:

– Tá no lugar de sempre, valeu. – E pôs-se a saltitar pela calçada, subindo, subindo, olhando para a rua, a sua esquerda, uma vez ou outra, procurando algo, mas sem pressa por encontrar.

Pôs-se a segui-la sem se preocupar em esconder-se e após poucos metros algo ainda mais estranho desprendeu-se dela e atingiu os pêlos de seu braço: a irradiação sobrenatural sumira,  engolfada por um vagalhão de pura euforia. A nova onda de emanações intrigou mais Jorge e aumentou sua decisão de intervir, pois era óbvio que ela tentava aplacar o desejo sexual não-satisfeito por meio de mais e mais droga e que isso estava a deformando.  

Acelerou o passo, para alcançá-la, as palavras para formar uma abordagem em aparência casual passando pela consciência. Estava ofegante e ansioso, pois sentia uma imposição de não deixar que escapasse, que entrasse em um táxi.

E Gaia ou outro de seus servos interviu a seu favor, assim imaginou: a garota interrompeu a busca com o olhar por um carro branco, e sem razão aparente, como se movida por uma força superior e invisível, virou-se para a calçada, esqueceu a rua e estacou, ao ver-se bem diante de outro bar: um boteco de teto baixo, mais arrumado e limpo que os seus vizinhos mal-cuidados, seu interior ocupado por mesas e balcão pintados em cores vivas, paredes repletas de máscaras e cartazes de peças de teatro, um pequeno bar devotado à arte da representação, freqüentado por atores de pequenas companhias da região, aspirantes a artistas e fauna que girava em torno deles. Ela estudou o lugar por não mais que segundo, acenou e sorriu para alguém no interior e entrou.

Jorge parou por um instante, contrariado, suas mãos se crisparam num movimento involuntário. Aquele bar era notório na região por ser freqüentado por gente metida, nada sociável com estranhos às tribos que lá posavam de bôemios para seus pares. E ele não tinha apreço algum por aqueles artistas frustrados e esnobes, bichas e sapatas azedas e arrogantes, pseudo-cabeças em geral. Por duas vezes entrara lá por puro acaso, para tomar uma cerveja de fim de noite, e recebeu um tratamento que o divertiu, de tão patético na tentativa de fazê-lo se sentir inferior a eles e ainda mais, provocar-lhe medo!

Bem, então era uma das putinhas aspirantes a atriz ou amiguinha de bichas intelectualóides. Seria necessário um pouco mais que lábia de conquistador para desvendar o mistério: teria de ser paciente. Isso o contrariou mais.

Ergueu a fronte e entrou como um bárbaro prestes a devastar uma civilização decadente e afetada.   

 

Ela papeava animada com o balconista, uma bichinha mal saída da adolescência, quando ele passou pela porta de vidro e atraiu os olhares dos seis bebedores.  O mais demorado foi o dela, que o reconheceu e torceu um tanto a boca, ao lembrar especialmente onde o tinha visto. Mas o esgar logo sumiu, expulso por um lampejo, curto mas intenso, que brilhou nos seus olhos castanhos, dando-lhes uma beleza que deixou Jorge mais lânguido e sem que percebesse,  o fez baixar a guarda. Para o inferno dos sanguessugas com sutilezas e planos, a tomaria e descobriria seu segredo da maneira carnal.

Ele chegou-se a eles, pediu uma cerveja ao garotinho afeminado, já exibindo o pagamento, dirigiu a ela um sorriso cafajeste, e após receber a garrafa e o troco, acompanhados de um gemido baixo, sentou-se na mesa mais afastada.

A dama da noite trocou mais algumas palavras com o amiguinho e saltou do balcão, em direção a Jorge, uma lata de cerveja nas mãos, espalhando seu perfume exagerado e irresistível ao redor dele,  enquanto puxava a cadeira e ficava de frente. O trio na mesa mais próxima olhou, espantado com a ousadia dela.

– Você me viu no Tokyo e veio atrás de mim, certo? Já te aviso: conheço todos aqui. Este é meu lugar na 13. Se tiver as mesmas intenções e o mesmo proceder daqueles boyzinhos, vai se dar bem pior que aquele tipo.

Jorge bebeu a cerveja rala com vagar, olhos presos nos olhos dela, sua mão inclinava o copo com uma calma que a irritou. Após pousar o copo encarou-a por mais tempo que seria razoável, sorrindo, até que disparou, a mesma expressão no rosto e olhos antes e durante:

  Este é seu território, então gosta de teatro, se não for atriz é no mínimo aspirante.  Já atuou alguma vez? Ainda atua?

Algo da garota do Tokyo retornou, dando-lhe jeito de menina doce. Os olhos brilharam mais uma vez, um sorriso franco surgiu nos cantos dos lábios, reclinou-se na cadeira feia e dura num movimento gracioso e fluido. E a voz se alterava nas sílabas mais altas, vibravam de entusiasmo.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h50
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Luz branca para noites negras - parte III - Por Caio Bezarias, revisado e editado por André L. Pavesi e Elis Verri

– É a arte mais mágica de todas, recria o mundo como nenhuma outra, é simulação da vida que se torna vida. 

– Os atores sempre dizem que sua arte é maravilhosa, o pessoal do teatro exalta tanto a arte a si mesmos, mas eu acho que deve ser um peso enorme, desgraçado mesmo, fingir e fingir tanto. Acho que eles queriam mesmo é fugir disso e ter uma vidinha normal, mas não conseguem, como se estivessem viciados nisso, será que talvez escolheram a representação para não saber na verdade quem são?

Ela bebeu um gole e o olhou, estudando:

– Você é ator para saber tanto assim?

– Não, sou apenas um cara que anda com todo o tipo de gente, observador e sensível.

– Você, sensível? Acho que tem grande sensibilidade apenas para as funções orgânicas, sexuais, das mulheres.

– Para certas situações é toda sensibilidade necessária. – estreitou os olhos.

– Como agora, não? – Recuou um tanto  e ficou em posição de espera.

– Não sejamos apressados, vamos conversar mais um pouco. – E tomou um longo gole, fingindo despreocupação, os olhos passeando pelas referências à representação. Súbito, algo veio a sua consciência, uma revelação que teve o impacto de um choque elétrico percorrendo o corpo. Seria isso? Então, mais tato e calma seriam exigidos. Maldição! Malditos servos da sombra, da Wyrm. Por que não dar um basta naquela conversa mole, agarrá-la com força para captar toda sua emanação assustadora passando dela para ele e  sentir e ver o que ela é e rosnar: ‘ O que é você? O busca entre os humanos’?

Acalmou-se, agradeceu por Gaia de novo ajudar e após um suspiro que dissipou sua tensão, continuou:      

– Não deve ser nada fácil para encarnar uma personagem e não se deixar dominar por ela. O quanto da representação é a personalidade de verdade do artista? Como ele controla isso? Será que ele não deveria deixar sua personalidade aflorar, exatamente para isso, não se deixar dominar pela persona, a máscara? 

– Por que deveria? E se a vida dele é, na verdade, tão desesperadora ou vazia que só no palco representando, ele se sente real? Encarnando outros que não ele?  Mas outros que vivem os mesmos dramas. O ator incorpora toda a humanidade! –  as últimas palavras surgiram num crescendo, até a última soar tão entusiasmada e sincera que soou como a voz de uma criança.

– Respondeu convicta. Jorge respondeu com um sorriso cínico que se desfez em seguida: 

– Se assim é, ele deveria perceber que há algo muito errado com ele. Fingir sempre? Já ouvi falar de atores que se deixaram dominar pela personagem e se perderam, destruíram sua vida pessoal, ficaram ainda mais vazios, sua vida perdeu todo o calor. – Seus olhos se abriram, a boca pronunciou  - porque ele perderam o controle sobre a vida representada nos palcos.

–Que importa, no fundo? Se todos nós representamos, nesse mundo de merda, todos nós temos de ser um pouco atores? Alguns tanto que esquecem quem são. Outros, ao perceberem essa loucura, não agüentam e piram: vão viver na rua, se viciam. Então, fingir assim não é mais saudável?

– Artistas são, portanto, heróis que ao se exporem e se arriscarem mostram o que é esse mundo de merda como você chama? Mostram a verdade sobre nossas vidas, são superiores a nós?

– Eles brincam com nossas motivações, desejos e manias, mostram como são ridículas.

– E brincar com as pessoas é bom?

– Claro que é. Não concorda? – o brilho voltou aos olhos dela.

– Acho que certas pessoas brincam tanto que esquecem como é a coisa de verdade. – E pousou os cotovelos na mesa, encarando-a. 

– E não é assim, cara? Se sabe algo sobre teatro grego, a arte no mundo clássico, vai lembrar que esse espírito já existia desde esse tempo.

– Naquele tempo já existiam fugas para se evitar a vida real?

– Você fala como se fosse algo ruim.

– Princesa, não existe paz ao se evitar a vida, como disse uma escritora.[1],     

– As coisas perdem a graça quando acontecem. Fazer não é o melhor, e sim ahhhh. – suspirou e depois inspirou profundamente. Sua mão pousou na dele com leveza, movida por uma força despreocupada, causando um choque no lobo. Uma sensação de prazer, um estremecimento delicioso que o abalou por inteiro percorreu Jorge por todo o corpo ao toque suave e profundo. Seus pêlos se arrepiaram, um calor interno fez o desejo de uivar para a lua e o universo, anunciando estar muito vivo.

– Sustentar um limiar eterno, que nunca se consuma, sempre tenso, apenas brincar, roçar de leve, um teatro na vida, o teatro da vida. Isso é prazer de verdade.

A voz dela tornava-se um sussurro a cada sílaba, as palavras carregadas de significado e profundidade, pareciam não nomes de idéias e coisas, mas as próprias, vivas e materiais, dançando à volta dele, tudo o mais ao redor  indefinido, nebuloso; apenas a garota e o prazer que vinha do mínimo contato físico eram nítidos. O impulso rijo e ardente de tomá-la nos braços, primeiro tocar rosto e cabelos e depois cobri-la de muitos beijos vorazes para que ela também desejasse o prazer maior dissolveu-se em tépida e frouxa satisfação em sentir o desejo fluindo de um para o outro, sem que fosse satisfeito, em apenas sentir a vida se manifestar no fluxo de energia sexual que corria entre eles, fluxo que tornara tudo e era melhor que o próprio ato que prenunciaria sem jamais ocorrer. 

Ele não percebeu por quanto tempo estiveram enredados nesse fluxo até que outro impulso o varreu, enviado por Gaia (supôs mais uma vez) e o fez inclinar-se para a frente e buscar a boca pequenina e brilhante, que fugiu  e fugiu em meio a sorrisos e mordidas leves nos lábios, o que o enlouquecia mais de desejo e era mais delicioso, pois prometia um prazer supremo.  E foi esse lapso de tempo que alarmou Jorge, pois ela resistia mais e mais, a mão delicada e frágil agora rejeitava contato da mão grande e máscula por mais de um segundo, os lábios ainda não haviam se encontrado. Por fim, ele agarrou os braços dela, ignorou seu guincho de medo e surpresa, o olhar de pânico e fechou os olhos por um instante, para mobilizar sua percepção lupina ao máximo e atingir o sentir-ver-perceber total, descobrir o que ela realmente era, queria e fazia.

Ele estava no limite de seu controle: mal conseguia conter o impulso enorme, vindo de sua essência homem-lobo, que ordenava que uivasse disparando jatos de saliva, libertasse as garras que ferviam dentro dos dedos humanos e as cravasse na mesinha de plástico sujo, para em seguida atirar o objeto longe, derrubar todos os quadros e máscaras da parede, derrubar a porra do boteco todo e finalmente agarrá-la, trazê-la até seu corpo, e possuí-la, mutado em uma forma meio homem, meio lobo ali mesmo! E era exatamente a graça de fugir dele mas estar ali estar presente, em meios a sorrisos, pura graça feminina, que o detinha, até que Gaia (assim ele sempre julgava) o tirou da ilusão. Diante dele brilhava uma criatura de aspecto feminino, humana sim, mas anormal, distante da criatura indefesa e perdida que vagava pela noite. O impulso sexual era forte e evidente, brilhava e corria por ela na forma de um emaranhado de cintilações vermelhas e pulsantes, pura energia da vida que buscava se manifestar e se multiplicar pelo mundo físico mas fora barrado em seu propósito pela mente infantil e assustada de uma menina que não queria ser mulher. Como a energia sexual não poderia ser extinta, fora desviada na forma de simulações, brincadeiras e provocações com o ser para o qual sua natureza lhe dirigia, até se tornar uma forma de prazer...vampiresca. Anna acalmava seus desejos sexuais alimentando-os com as emanações e imagens do desejo por ela que os homens que a encontravam sentiam. Os provocava da maneira mais sutil, fazia-se de virginal sequiosa por perder a inocência, e mantinha esses jogos inebriantes com mínimo contato físico até o momento em que aqueles seres brutais estivessem no limiar de perder o controle e atacá-la, quando era possuída pela  virgem atacada por um animal insensível, desesperava-se e desaparecia em meio a gemidos de pavor e caretas de medo. E sempre, sempre, em todas as ocasiões, a noite terminava da mesma maneira: um mergulho numa trilha branca de um pó mágico que dava outro prazer, fugaz e perigoso, uma fuga, mas bastante para ela continuar sufocando as forças biológicas  mais antigas e fortes que sua personalidade fraca e orgulhosa mal conseguia deter.

Ela era uma vampira de impulsos e energia sexuais, se deleitava com os desejos dos homens, mas nunca os satisfazia e nunca satisfazia a si mesma. E o mais assustador: ela não sabia.

Tudo isso foi revelado a Jorge durante um átimo de tempo. Ele soltou a garota, fuzilou os olhos escuros e agora sem brilho, perdidos atrás dos cílios perfeitos com seus olhos lupinos, impedindo a luz lupina amarela de vazar deles com grande disciplina e atacou:

– Diga-me, minha linda dama da noite que espalha seu viciante e pesado perfume na homarada, até quando vai negar seus desejos, negar a si mesma e abusar das carreiras de pó para segurar essa onda cada vez maior? Acha que vai suportar só flertar, flertar e depois fugir para sempre?  Não vê o que é?  Você...

O tapa no rosto não doeu muito, mas o som de estralo foi imenso, reflexo do movimento violento mas preciso:  ela era uma criatura tão teatral e doentia que até mesmo essa reação tinha de ser dramática.

Todo o bar parou em seguida, o ar parecia imóvel, até que ela soltou um som agudo e indefinido – parte grito, parte maldição, parte desespero de ter seu vazio desnudado, levantou-se e disparou porta afora.

Calmo e majestoso, ignorando as perguntas, impropérios e gritinhos histéricos dos presentes, ele levantou-se, caminhou contrariado para a porta e observou a noite da 13 de Maio, sem a mínima intenção de encontrar a figura dela na massa humana, certo de que ela estava numa busca desabalada,em outro bar, talvez em alguma saleta ao fim de uma escadaria, por mais uma porção de luz branca para iluminar um tanto suas noites negras.

Antes de sair caminhando, em busca de uma bebida mais forte, veio-lhe uma observação engraçada: pois não é que conseguiu fazer com que ela o tocasse por vontade própria, como planejara no início da “missão”?



[1] Para os curiosos: frase atribuída a Virgínia Woolf. 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h48
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17/08/2013


Trechos do próximo conto

numa noite de final de semana típica dos primeiros metros da 13 de maio: no momento em que se mergulhava nela, não parecia existir ali um limite entre a rua, as calçadas, as luzes noturnas e as pessoas, tudo era uma mistura confusa e atraente de  luzes – luminosos nas fachadas de casas noturnas, placas de botecos, faróis de carros e motos empacados na lentidão; pessoas– mocinhas com corpo e rosto em flor, envergando roupas justas e curtas, salto alto,em busca de bebida , diversão e companhia,  rapazes em camisas de gola, ansiosos por tomarem as mocinhas, quarentões em jaquetas de couro, cabelo comprido já grisalho, dispostos a tomar as meninas sem dar chance aos rapazes e usar ao máximo os anos que lhes restavam de uma juventude terminal, trintonas e um pouco mais que isso em pequenos grupos que disparavam olhares sedentos a todos os homens; ruídos – conversas, risadas, gritos, buzinas.

(...)

Jorge parou por um instante, contrariado, suas mãos se crisparam num movimento involuntário. Aquele bar era notório na região por ser freqüentado por gente afetada, nada sociável com estranhos às tribos que lá faziam parte de suas rondas e aventuras noturnas. E ele não tinha apreço algum por artistas frustrados e esnobes, bichas e sapatas azedas e arrogantes, pseudo-cabeças em geral. Por duas vezes entrara lá por puro acaso, para tomar uma cerveja de fim de noite e recebeu um tratamento que o divertiu, de tão exagerado na tentativa de fazê-lo se sentir inferior a eles.

Bem, então, ela era putinha aspirante a atriz ou típica amiguinha de bichas intelectualóides. Seria necessário um pouco mais que lábia de conquistador para desvendar o mistério: teria de ser paciente. Isso o contrariou mais.

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h14
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08/08/2013


Caros leitores: não abandonem o blog!

Carpe Noctem não migrou para o escuro tártaro eletrônico dos blogs abandonados por seus relapsos donos!

Dois contos estão na fase final de escritura, em breve estarão on-line, apenas aguardem mais um pouco.

Saudações noturnas e etílicas.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h04
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10/05/2013


As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo - episódio VI - a vingança de Laura - parte I - por Caio Alexandre Bezarias

Por absoluta falta de espaço no campo do título, registro aqui a edição e revisão sempre muito bem feitas de André L.Pavesi, mais uma vez completadas pela participação especial  de nossa amiga Elis Verri. Boa leitura, saudações etílicas e noturnas.

“In the night

Come to me

You know I want your Touch of Evil

In the night

Please set me free

I can´t resist a Touch of Evil”

 A touch of evil – Judas  Priest

 

O ar era parado e quente, a rua exalava o calor de tranqüilidade modorrenta, vazia, tão típica das tardes quentes na periferia de São Paulo, nos bairros apinhados de sobradinhos de gente remediada e classes baixas, em que as ruas, nessas tardes são o reino das crianças felizes e dos adultos derrotados, em que desfrutar da alienação feliz que esse calor trazia era tudo que poderia se esperar da vida. Todas essas sensações eram nítidas e torturantes para a garota que se apressava pela rua, como se as lembranças da brevíssima felicidade que experimentou na infância a perseguissem, apenas para lembrar como foram fugazes e tênues.

O amolecimento provocado pela luz do sol a fez esquecer por momentos o desconforto de vestir uma roupa “normal”, de não poder usar seu dress code de gótica vadia e poderosa, a expressão e afirmação de sua identidade  justamente no início de tão importante missão.

Pois aqui estava Laura, a gótica suprema da noite de São Paulo, a mais poderosa, que poderia conjugar os poderes de um ser das trevas para eliminar inimigos e intimidar falsas amigas invejosas, que sempre desfilava recoberta de adereços de metal e tachas cheios de brilhos e filigranas torcidas, enfeites que resplandeciam mesmo nos recônditos mais escuros dos porões da noite paulistana; o corpo liso e alvo, cheio de frescor, mal oculto por meias, ligas e corpetes provocantes que despertaram os apetites sexuais de muitos caras e de algumas garotas, o rosto de menina perversa destacado por maquilagens agressivas, olhares devassos capazes de fazer o mais rodado e temido canalha se ajoelhar a seus pés e agir como um cãozinho obediente, aqui estava a rainha da devassidão noturna de São Paulo escondida em uma calça jeans normal, pouco justa, uma blusa recatada e sem estampa, a ocultar o volume de seus seios proeminentes, tênis comuns e surrados, vestida como uma menininha normal, e não como a criatura poderosa que era na verdade, pois para iniciar sua missão sagrada mais importante de vingadora noturna, a que mais aguardou, imaginou, sonhou, saboreou antes de pôr em execução, não poderia surgir em todo seu esplendor e beleza, e sim parecer uma das rampeiras arrumadinhas que tanto a perseguiram no inferno monótono e sem fim de sua adolescência. Apresentar-se como uma garota típica do seu odiado bairro natal, a zona lost que é a periferia da zona norte de São Paulo, era um tanto exasperante. Ah, maldito Miguel!! Você iria pagar por isso também, além, claro de todo o restante, ser o responsável por ela ter sido jogada no mundo sem nada ou ninguém para lhe amparar por um tempo que pareceu longo demais.

Ela caminhava apressada e nada à vontade pela calçada esburacada e imunda que parecia ostentar os mesmos buracos nos mesmos pontos desde o tempo em que era uma menininha. Tão desagradável era pisar naquele piso que evocava tantas más lembranças que tropeçou duas vezes em poucos metros, ela, uma das poucas góticas que sabia caminhar em um salto alto da maneira correta, atrapalhada em um tênis de cano baixo. Mas não havia outro modo, se aparecesse diante sua tia Sebastiana, aquela velha moralista, recalcada, histérica, nos seus trajes habituais, a megera balofa talvez nem a permitisse entrar na sua casa pestilenta, com cheiro de mofo, velhice e morte, quanto mais responder suas estranhas e intrigantes perguntas sobre seu meio-irmão.

Mas esse preço não fora em vão: a primeira parte da sua mais importante missão sagrada de vingadora noturna das mulheres de São Paulo estava cumprida, a busca de informações que possibilitariam a desforra contra aquele miserável! O ódio fervia seu sangue e descontrolava mais seus movimentos. E neste exato momento a BMW negra surgiu diante dela, parou na calçada e a porta escancarou-se como um refúgio de escuridão em que recuperaria seus poderes de rainha da noite.

– Entrree. – disse a voz já um tanto familiar do motorista, de Anson, o “alemão”. – Ela obedeceu de imediato, mesmo contrariada por ele ignorar a recomendação de pegá-la quando já estivesse distante do seu quarteirão natal – Ele sempre surgia do nada, como um fantasma que a acompanhava e se fazia visível quando bem quisesse! . Mas aproveitou a situação para mais uma desforra com seu passado, embora minúscula: antes de entrar no carro, dirigiu um olhar arrogante para dois mulatos jovens, da idade de Laura, mas já gordos e gastos, dois escrotos que a importunaram várias vezes quando menina, largados na calçada, usando nada além de bermuda e chinelos de borracha, olhos vidrados de inveja e espanto na máquina, tão deslocada na decrépita Vila Bonança.

Após se acomodar, apanhar a vodka no frigobar e verter uma enorme dose, ela encarou o acólito de Ingrid enquanto o carro deixava a zona norte para trás e iniciou a saraivada:

– Descobri o que o filha da puta anda fazendo. Virou pastor evangélico. Primeiro foi obreiro, ajudante de um pastor, uma dessas merdas para arrancar dinheiro desses fudidos que freqüentam essas pocilgas. Ao descobrir que tinha o dom para a coisa, para convencer os trouxas a dar dinheiro para ele, fundou sua própria igreja. Inventou que o pastor ex-chefe dele foi tomado pelo demônio da cobiça, brigou em público com ele, no meio de um culto e convocou os verdadeiros servos do senhor a acompanharem ele na sua nova igreja. – Ha ha ha haahaaaaa!!!!   – a gargalhada foi uma explosão de ódio, possuía um tom metálico e estridente – dá pra acreditar? Aquele maldito que tentou me estuprar duas vezes e tomou minha parte da herança de nosso pai hoje é um “servo do senhor”? Daí ele fundou sua igrejinha, que está sempre lotada. Mas minha tia, que é fanática e tapada, insiste que ele tem uma espécie de poder divino, que sabe do que as pessoas precisam e se elas são sinceras e devotas ele, como instrumento de deus, concede a tal graça e que por isso ele é um fenômeno, a igreja cada vez mais lotada, milagres e tal acontecendo, está incomodando as outras igrejas evangélicas do pedaço. – Outra gargalhada –. O nome da igreja que ele fundou é Igreja da União Verdadeira com o Senhor e fica na Avenida Tucuruvi.Isso deve ser informação suficiente para você e a mestra, não? Ele é um tarado, um doente. Se eu aparecer diante dele fingindo perdoá-lo, vai ficar tão fora de si, crente de que finalmente vai me comer, que posso levá-lo para onde você e a mestra escolherem.

– Após uma pausa para respirar, concluiu:

– Uma vez um bandido, um explorador, sempre bandido e explorador. Antes explorava a família, agora explora os crentes burros.

O alemão virou-se por um instante para ela, sem perder o controle do carro, suas mãos como que movidas por algo mais potente que sua consciência e disse, numa voz calma e amistosa:

 - Você terrá a sua vingança, meninaaa.

E enquanto o carro descia as inclinações da zona norte e por fim, após vencê-las o planalto coberto de poluição e promessas do Centro e da região da Paulista se revelar no horizonte, Laura ansiou como poucas vezes antes pela noite e pela escuridão, que cobrissem o mundo o mais breve possível e lhe dessem o poder ao qual não resistia, o poder maligno a que ela nunca tentara ou quis resistir.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h18
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As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo - episódio VI - a vingança de Laura - parte II - por Caio Alexandre Bezarias

Dois dias mais tarde, sexta-feira, após as dez horas da noite, no último quarteirão da Avenida Tucuruvi. 

(A noite e a escuridão, para a multidão que enchia a igreja em que pastor Miguel pregava nada tinham de maligna ou temível, pois eles eram os abençoados repletos de luz, que recebiam as graças espalhadas por aquele homem santo que inclusive envergava o nome de um dos anjos mais poderosos. Eles nada tinham a temer, nenhuma força ou agente do mal poderiam lhes atacar, eles eram abençoados, os rostos de olhos fechados, muitos vertendo lágrimas, mãos retesadas para o altíssimo, corpos rijos, um imenso  êxtase coletivo.

Laura assistia a essa cena sentada e encolhida na última fileira da igreja, um nojo que vinha de suas entranhas, a ponto de sentir ânsias, de estar entre aquele bando de molambentos mal-vestidos em roupas de lojinhas de bairro, de tecidos baratos tingidos com estampas e listras espalhafatosos; de orgulhosos classe média remediados exibindo as roupas mais brilhantes e novas de que dispunham – mulheres de cabelos clareados, calças justas e salto enormes e de cores fortes, homens de olhar superior, sempre metidos em calças jeans modernas e camisas pólo justas, caminhando como se fossem os machos mais admirados de seu bairro e outros que ela não se dispôs a avaliar,todos exalando um vazio, um ar de alienação, de rebanho, produzido por seu meio irmão a comandar a massa, de lá do tal púlpito – para ela, nada mais que um palco metido a besta – lá estava ele, metido em um terno escuro bem ajustado a seu corpo meio obeso, gravata rosa claro brilhante, cabelos empastados de gel penteados para trás que ela sabia artificialmente alisados,mas que em alguns pontos, no alto exibia ondulações,  emoldurando um rosto bem barbeado, que exibia princípio de papada, os olhos castanhos fixados num olhar sério e intenso que não se desmanchava ,  treinado e estudado, de alguém que vê algo supremo e arrebatador diante de si.

A voz continuava um tanto rouca, numa mesma modulação, subindo o tom apenas quando associava as graças que os fiéis receberiam às ofertas materiais que fariam para serem merecedores.

Mas essa mistura de miséria e exaltação não foi o que mais perturbou Laura: mais terrível era a musiqueta pobre que Miguel e seus acompanhantes no palco – quatro músicos vestidos com roupas “ sociais” e três peruas altas presas em vestidos negros,  cabelo alisado e platinado – berravam, uma ladainha de ode ao deus dos cristãos, pobre em melodia e em vocabulário. E muito mais terrível, opressivo, era a sensação de que havia algo mais que simples cegueira e fanatismo naquele antigo galpão de fábrica transformado,que algo estranho,sobrenatural mas nada divino pairava ali. Ela suportou tudo isso  em nome da vingança que estava tão próxima, que se consumaria no escuro mais fundo da noite e então começou a agir conforme o plano: levantou-se do seu lugar e a intervalos regulares  parava, apoiava-se na parede branca – pois não havia lugares disponíveis na porção central e na frente, as pessoas se espremiam para admirar pastor Miguel    dirigia um olhar mais e mais intenso e demorado para o ungido do senhor e se aproximava mais, até que um sinal foi emitido: enquanto entoava a ladainha religiosesca, ele despertou do transe por um instante, abriu os olhos, que encontraram os de Laura, pregaram-se nela, que sorriu em resposta, ficou ereta e afastou um pouco os braços do corpo, enquanto empinava o busto para frente, um pouco, só um pouco...

Dali em diante, até o final do culto, ele dirigia olhares firmes e regulares para ela, que os retribuía com o charme feminino de parecer e não parecer interessada, um atributo que parecia ter perdido, há tanto não o usava, mas que retornou fresco e afiado, funcionando à perfeição.

Por fim a sessão de glórias ao altíssimo terminou, e os ungidos entregaram  centenas, talvez milhares de reais em espécie, cheques, débitos para receberem o toque divino. O frenesi se instalou: pessoas de mãos e rostos crispados, outras chorando de alegria, ao depositar os valores na caixa de coletas. E veio a torrente final de Miguel, tão exagerada e cafona que as palavras machucaram os ouvidos de Laura ainda mais, abençoando aquela gente e ao mesmo tempo as despachando para suas casas

Enquanto o rebanho deixava a igreja, mais pobre e mais feliz, um tipo de raça indefinida, rosto de feições estúpidas, pele acobreada, alto e mal-encarado, uniformizado nos óbvios terno e gravata, se aproximou dela, apontou para o palco e anunciou que pastor Miguel, graças ao dom que o senhor lhe concedeu, sentiu que ela “deveria ser abençoada diretamente por ele” e que ela teria essa honra, devendo acompanhá-lo, que a levaria até ele. O sujeito era tão tapado que a expressão exagerada de espanto e alegria que Laura fingiu o enganou totalmente, sentiu-se realizado em cumprir o papel de leva e traz para seu idolatrado pastor.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h17
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As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo - episódio VI - a vingança de Laura - parte III - por Caio Alexandre Bezarias

O símio a conduziu para os fundos da igreja. Após atravessarem um portão trancado a chave e cadeado, única passagem em um muro alto, deram em uma ruela quase sem iluminação, na qual três  carrões reluzentes, cheiro de cera e tecido novo, estavam estacionados. Ao lado do primeiro, um modelo francês prata, as cantoras da bandinha gospel riam alto e fofocavam algo sobre um fiel qualquer, com os músicos; encostados no segundo, um tipo de semi esportivo, dois dos obreiros que estavam no palco, que cochichavam entre si e disparavam risadinhas para as garotas. O terceiro carro era um jipão de luxo negro maior e mais potente que os outros veículos, o carro do chefão, que se enfiara entre as loiras e passou a comandar a esfregação com e entre elas. Mas assim que ouviu o barulho dos passos ressoando na calçada úmida da garoa, e a voz se elevou sobre os sons indistintos da noite, virou-se:  

– Miguel, olá, que bom te rever.

– Laura...irmãzinha. O senhor reuniu nossos caminhos para o perdão e a reconciliação. Que bom te ver! – Moveu-se dois passos adiante e abriu os braços para ela, que o abraçou com um ardor que não deixou dúvidas para os presentes do que aconteceria em breve.

Ele admirou-a por longo tempo, afagando seus cabelos e disse numa voz lânguida, o rosto próximo e afogueado demais para o reencontro com uma meio-irmã: 

– Por onde andou? E o que te trouxe ao seio da família? Eu sei, eu vejo, sou um instrumento de Deus, e ele me diz, em sua infinita onisciência, que me achaste para expurgarmos os rancores e maledicências e consumarmos – pôs muito calor e ênfase nessa palavra –a reconciliação que ele deseja.

Laura sentiu o poder da noite e julgou sentir a presença de sua mestra percorrê-la, o prazer de agir contra as regras, de ser uma gótica rebelde transgressora a dominou. Apertou seus seios contra o peito musculoso do crápula e sussurrou para ele:

– Sinto isso, também, que devemos superar as mágoas e ressentimentos do passado e nos conciliarmos.

Miguel abriu um sorriso poderoso e libidinoso para ela, fez sinal de “se mandem!” para seus ajudantes sem sequer olhar para eles  e conduziu pela mão a deliciosa meio-irmã para sua máquina, na qual a conduziria até sua fortaleza de três andares em que a abençoaria com o toque que a faria parte de seu rebanho sagrado.

O jipão atravessou a Avenida Tucuruvi como um animal furioso, rosnando, parou impaciente em um farol da Guapira, a mais amaldiçoada avenida da infância de Laura, pois a escola em que vivera os piores anos de sua vida lá ficava, sempre mais e mais suja, pichada e repelente. Miguel aguardava o sinal para avançar com olhos felinos, como se fosse um conquistador a  admirar os morros e vales das vila Gustavo, Nivi e Medeiros para escolher onde estabeleceria seu novo domínio sobre almas e bolsos.

Logo o carrão arrancou, atalhou à direita, tomou o evidente rumo para o mais maldito bairro de toda a zona norte e da existência – Vila Bonança. Laura sabia que era hora de agir de fato, deixar o escroto a seu lado fora de si de desejo e assim poder levá-lo à armadilha em que pagaria por seus crimes.   Sua mão deslizou como uma serpente que avança para a vítima em silêncio sem ser notada até atingir e apalpar o crescente volume entre as pernas da calça dele, enquanto ela discursava:

–Deus me iluminou, meu irmão, após anos de perdição e falta de luz, hoje entendo que. devemos seguir seus preceitos, que estão no livro sagrado. Nossa família foi desfeita, se separou, devido às ações do maligno. Para ela se refazer e se fortalecer nas graças do senhor, o sangue da família deve se unir a si mesmo, e não se misturar com impuros. Devemos estar juntos como fizeram os clãs abençoados por ele em momentos de grande sofrimento. Hoje entendo qual era sua intenção e aqui estou, para nós consumarmos a ela. – e pôs-se a acariciar, sobre o tecido da calça, o órgão de Miguel, que virou-se e sorriu de um modo estranho, algo muito distante da empolgação de um homem prestes a possuir uma mulher que desejou por anos estava marcado em seu rosto.

O carrão fez uma manobra seca e entrou à direita, enfiando-se em um conjunto de ruas particularmente escuras e temidas na região, lugar em que até estupros tinham sido comuns, quando Laura ainda vivia na região. E pior, a velocidade diminuiu, Miguel dirigia como se apreciasse aquele conjunto de casas sem acabamento, casebres de alvenaria, que exalavam maldade. Dois sujeitos muito intimidadores, encostados em um poste, na entrada de uma viela sem iluminação voltaram-se de imediato para a máquina; Miguel abaixou o vidro, fez um gesto e disse qualquer coisa num tom amistoso, recebeu um cumprimento caloroso com as mãos de ambos e seguiu.

A mão da garota interrompeu a carícia de imediato:

– Você tem amizade com esses caras? Miguel, esse quarteirão aqui era e sei que ainda é o pior de todo Tucuruvi. Andar por ele até durante o dia é arriscado.

– Irmã, um homem de Deus como eu deve levar a palavra, acima de tudo, aos que mais necessitam dela, aos perdidos, desgraçados e pecadores, como nosso senhor Jesus o fez. Estes homens, pouco a pouco, estão se encaminhando para a vida reta graças às minhas pregações. Além disso, ter boas relações com eles protege os fiéis e minha igreja.

O carro seguia cada vez mais devagar conforme se embrenhava, até que por fim parou, no ponto mais escuro e quieto da rua.

Ela olhou para os lados, a tensão fervilhando nos seus trejeitos e encarou o rapaz, sem esperar uma resposta:

– Bem, o que é isso? Você não mora aqui nesse lugar, estou certa. Não vamos para sua casa? Quero você, mas não no banco de um carro, mesmo um tão espaçoso e confortável.

Os olhos castanhos claros iluminaram-se e o rosto com acúmulos de gordura nos cantos adquiriu uma expressão imberbe e também maligna, de uma criança má, ao mesmo tempo em que ele sacou um canivete de mola do porta-luvas. Manipulou a lâmina até que esta refletisse alguma luz vinda de fora e demorou-se antes de responder:

– Laura, meretriz suja que me negou seu corpo, sua vingança, seu plano de me matar, lhe será negada no momento em que parecia mais próxima. Vou te abusar e te eliminar antes que sua mestra, esse ser das trevas de milhares de anos que você pajeia, possa interceder.

Um terror imenso a tomou, o plano perfeito de vingança destruído num instante, que pareceu destroçar também toda a sua vida, tudo parecia acabado ; mas nem ela, nem Miguel se aperceberam que sua mão ainda estava pousada na braguilha da calça dele, no entanto o instinto de sobrevivência, refinado após meses acompanhando um ser das trevas nos mais temidos buracos do Centro, sim: os dedos finos e ágeis apertaram e fincaram-se nos testículos de Miguel. Ele urrou, ela continuou o ataque e desferiu um soco no fígado; ele curvou-se, ao gemidos, enquanto ela abriu a porta e disparou na noite.

A corrida durou cerca de dois minutos. Estacou e viu-se diante de um dos principais pontos de traquinagens de sua infância. O sobrado construído no fim dos anos 70 na beira de um barranco desabara em parte e em parte ficou pendurado, uma parede sempre ameaçando cair, como se suspensa no ar, o barranco de argila vermelha logo abaixo dele, o sustendo de modo precário. Desde que Laura era uma garotinha estava vazio e interditado, como um monumento ao desleixo e à imprudência. Durante seus breves anos de infância feliz e despreocupada a mais cultuada e temida brincadeira que ela e seus coleguinhas perpetravam era, após superar a escangalhada cerca de tábuas que fechava o lugar, alcançar o interior quase todo destruído e exposto do edifício e a partir dele descer o barranco de argila úmida e traiçoeira até a rua abaixo, apoiando-se nos buracos e caules de plantas que brotavam de todos os lados. A glória consistia em chegar no menor tempo e o menos elameado possível à base do barranco. Mais de um dos amigos de infância dela foram mal-sucedidos e fraturaram vários ossos ao tentar a empreitada, até os pais os dissuadirem com os piores castigos. Lá estava a construção decrépita que desafiava a gravidade, a cerca de madeira reduzida a fragmentos. Ela olhou para trás, julgou ver um brilho se mover no sereno, na direção em que o jipão estava e não ponderou muito mais: atravessou o limite entre a calçada e o piso da casa semi-destruída, e logo estava na beira do precipício, como ela e a garotada do bairro chamavam. A idéia era simples e desesperada. Descendo para a rua abaixo, sairia da linha de visão de Miguel, que perderia o rastro dela, e alcançaria a baixada do bairro, onde havia muitos cantos para perder-se, esconder-se, até Ingrid aparecer e cumprir seu papel.

Os braços, as pernas, todo o corpo de Laura resgatou a elasticidade e truques da infância e ela realizou uma descida perfeita, pelo lado do barranco em que o ângulo de inclinação era menor , quase à meia-noite, como jamais fizera quando uma menina e à luz do dia. Em nenhum momento perdeu o equilíbrio ou apoiou os pés em um ponto falso, sua memória guiou o corpo e soube exatamente onde pisar, agarrar.

Logo estava, quase sem marcas de lama, na Rua do Córrego Velho, diante a escuridão do mais estranho e evocativo torrão de toda Vila Bonança, a “chácara”, como todos da região chamavam o grande terreno, único remanescente da época, nos primórdios do século XX, em que aquele pedaço da zona norte não passava de um punhado de sítios que produziam verduras e legumes vendidos nos mercados do centro da cidade, um pedaço de outras épocas coberto de mato denso e árvores altas que cercavam dois galpões escuros e um casarão sinistro, do início do século, que de tempos em tempos estava ocupado, com luzes, para depois ficar meses, talvez por um ano, vazio.

Por um único momento Laura admirou a imponência da chácara, viu algo de gótico e misterioso no lugar que tanto a assustava na infância, mas o devaneio foi despedaçado pelo som agressivo do carrão que estacou uns metros adiante e pela batida violenta de sua porta. Ela ficou paralisada e boquiaberta o suficiente para Miguel estar a dois metros dela e anunciar:

– Puta, vaca desprezível, o poder divino está em mim. Posso sentir seus desejos, medos e emanações de muito longe. Julgou que poderia se esconder de mim, descendo o barranco?Ha ha ha!

Ela encarou a face do escroto, deformada pelo riso, olhou mais uma vez para a massa de mistério, escuro e vegetação que tanto acendeu sua imaginação e medos e mergulhou nesta, afastando a cerca de arame farpado meio quebrada como pôde enquanto passava, sentindo uma ponta de metal rasgar seu braço e o sangue quente escorrer na pele.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h14
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