Por Caio Bezarias, a partir de uma idéia de Vinícius, revisão e concepção do desfecho do texto por André L. Pavesi
O segundo cigarro de cada um se esvaia no ar, por mais devagar que fumassem. Não havia jeito, o intervalo estava acabando e Marquinhos e Valmir teriam de voltar para o estágio de técnicos de radiologia no Hospital da Vila Nova Cachoeirinha e seu séquito intolerável: médicos arrogantes, enfermeiras neuróticas e vadias, o desfile de horror dos pacientes e o pior de tudo, o fim de tudo... os parentes histéricos dos pacientes meio-mortos, acidentados, quebrados e retalhados, a culpar governo, mundo e acima de tudo hospital e todos seus funcionários por seus entes queridos estarem totalmente fudidos, por serem uns imbecis que não sabiam sequer manter seus rabos limpos, quanto mais manter-se inteiros e longe de problemas.
Valmir dirigiu uma última olhada desanimada para o toco, que já fazia a pele de seus dedos arder, antes de descartá-lo, e disse:
– Cara, a vida humana é como esses cigarros que nós fumamos nessa saleta fedorenta: uma coisa que não dura nada, dentro de algo sujo que é o mundo, uma coisa que tentamos esticar ao máximo, e para quê? Uma hora vai acabar mesmo, na sarjeta. Agora... nós somos os cigarros, o vício, de quem, ou do quê?
Marquinhos deu uma última e funda tragada no seu toco, jogou-o pelo janelinha imunda com total desprezo e comentou, já passando pela porta:
– Esse trampo tá te deixando pensador, meio sensível. Prefiro você quando tocamos na nossa banda de metal, bem from hell, com cara de mau. Vamos, tá na hora.
Pouco mais de uma hora tirando filmes radiográficos coisas banais como articulações tortas nos dedos de peladeiros de final de semana, ombros e tornozelos deslocados de crianças arteiras e estavam ainda mais entediados, desesperados por mais um cigarro e pelo fim daquele turno, daquela noite e pelo fim do estágio obrigatório de radiologia...Então, pressentiram que viria coisa pesada, alguém realmente arrebentado, para eles se deleitarem com as imagens dos ossos macerados, membros esmagados ou apreciarem o espetáculo da correria e desespero de médicos, enfermeiros, mães, filhos: algo tão sutil que parecia um prenúncio sobrenatural veio com a brisa noturna: rumores indistintos no ar, uma vibração, alguma agitação indefinível nos médicos e figurões do hospital, que também pressentiam a coisa chegando.
O que entrou no prédio cujo branco já se tornara amarelado e manchado em vários pontos, levado por três policiais de olhar sombrio, estava cercado de uma atmosfera de dor tão palpável e emitia gemidos tão desesperados, ainda que abafados, que todos na entrada do hospital se afastaram instintivamente.
O sujeito fora um homem baixo e parrudo, de pele bastante morena, daquele tom de pele dos trabalhadores braçais que sempre trabalharam de sol a sol e bem pouco desfrutaram da luz do dia para relaxar; fora um homem porque o estado dos membros – partidos, todos, em pelos menos três pontos diferentes, em ângulos que causavam medonha agonia em quem contemplava –, o rosto esmigalhado – uma massa de carne ensangüentada e inchada, um dos olhos indistinguível – e a flacidez do corpo indicavam que se sobrevivesse nunca mais seria um homem completo, capaz de fazer qualquer coisa sozinho.
.Marquinhos e Valmir correram para a quarta sala do corredor e avisaram seus colegas a darem início aos procedimentos para os exames de contraste. Finalmente algo da pesada! Que traria assunto e lembranças estarrecedoras por dias e dias. Só faltava descobrir o que o meliante tinha aprontado e quem fizera aquilo com ele.
– Achamos o cara escondido, ou melhor, jogado numa valeta ao lado de um campinho e um córrego. Os moradores colocaram ele lá, pra nós não acharmos. Iam esperar nós vazarmos para acabar com o filha da puta. Mas por sorte ou azar dele, ficamos desconfiados e olhamos cada canto da quebrada. – Relatou o mais velho dos policiais, um sargento chamado Gomes.
– O que ele fez? – Quis saber Valmir, ansioso como uma criança aguardando o presente de natal.
– Estuprou e espancou uma menina de 12 anos, quase vizinha dele. Quando tiramos ele do buraco, as últimas palavras que disse, antes de entrar nesse tipo de delírio de dor em que está, foram “são todas umas putinha aqui na área, já nascem dando, só fiz o que outro maluco faria cum ela, logo, logo! No fundo, elas gostam. Por que, por que fizeram isso comigo?”
Marquinhos e Valmir se encararam, sem disfarçar o que sentiam ou pretendiam, seguros de que se os meganhas percebessem, aprovariam com calorosas palavras de incentivo...
Mais de uma hora depois, Romualdo, o sempre calmo e inflexível técnico dos exames de tomografia e contraste saiu da sala e com o tom aparentemente frio de voz, mas no qual alguém mais íntimo e experiente encontraria diversas modulações, anunciou:
– Ele é de vocês.
Antes que os dois rapazes entrassem, outro policial, um simples soldado, pôs-se entre eles e Romualdo e perguntou:
– Por favor, qual o estado dele? O que acha que vai ser desse cachorro? Precisamos da informação, para repassar ao DP.




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