CARPE NOCTEM - O mundo da meia-noite de São Paulo


23/12/2011


As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte I

 

Por Caio Bezarias, a partir de uma idéia de Vinícius, revisão e concepção do desfecho do texto por André L. Pavesi

 

O segundo cigarro de cada um se esvaia no ar, por mais devagar que fumassem. Não havia jeito, o intervalo estava acabando e Marquinhos e Valmir teriam de voltar para o estágio de técnicos de radiologia no Hospital da Vila Nova Cachoeirinha e seu séquito intolerável: médicos arrogantes, enfermeiras neuróticas e vadias, o desfile de horror dos pacientes e o pior de tudo, o fim de tudo... os  parentes histéricos dos pacientes meio-mortos, acidentados, quebrados e retalhados, a culpar  governo,  mundo e acima de tudo  hospital e todos seus funcionários por seus entes queridos estarem totalmente fudidos, por serem uns imbecis que não sabiam sequer manter seus rabos limpos, quanto mais manter-se inteiros e longe de problemas.

Valmir dirigiu uma última olhada desanimada para o toco, que já fazia a pele de seus dedos arder, antes de descartá-lo, e disse:

– Cara, a vida humana é como esses cigarros que nós fumamos nessa saleta fedorenta: uma coisa que não dura nada,  dentro de algo sujo que é o mundo, uma coisa que tentamos esticar ao máximo, e para quê? Uma hora vai acabar mesmo, na sarjeta. Agora... nós somos os cigarros, o vício, de quem, ou do quê?

Marquinhos deu uma última e funda tragada no seu toco, jogou-o pelo janelinha imunda com total desprezo e comentou, já passando pela porta:

– Esse trampo tá te deixando pensador, meio sensível. Prefiro você quando tocamos na nossa banda de metal, bem from hell, com cara de mau. Vamos, tá na hora.

Pouco mais de uma hora tirando filmes radiográficos coisas banais como articulações tortas nos dedos de peladeiros de final de semana, ombros e tornozelos deslocados de crianças arteiras e estavam ainda mais entediados, desesperados por mais um cigarro e pelo fim daquele turno, daquela noite e pelo fim do estágio obrigatório de radiologia...Então, pressentiram que viria coisa pesada, alguém realmente arrebentado, para eles se deleitarem com as imagens dos ossos macerados, membros esmagados ou apreciarem o espetáculo da correria e desespero de médicos, enfermeiros, mães, filhos: algo tão sutil que parecia um prenúncio sobrenatural veio com a brisa noturna: rumores indistintos no ar, uma vibração, alguma agitação indefinível nos médicos e figurões do hospital, que também pressentiam a coisa chegando.

O que entrou no prédio cujo branco já se tornara amarelado e manchado em vários pontos, levado por três policiais de olhar sombrio, estava cercado de uma atmosfera de dor tão palpável e emitia gemidos tão desesperados, ainda que abafados, que todos na entrada do hospital se afastaram instintivamente.

O sujeito fora um homem baixo e parrudo, de pele bastante morena, daquele tom de pele dos trabalhadores braçais que sempre trabalharam de sol a sol e bem pouco desfrutaram da luz do dia para relaxar; fora um homem porque o estado dos membros – partidos, todos, em pelos menos três pontos diferentes, em ângulos que causavam medonha agonia em quem contemplava –, o rosto esmigalhado –  uma massa de carne ensangüentada e inchada, um dos olhos indistinguível – e a flacidez do corpo indicavam  que se sobrevivesse nunca mais seria um homem completo, capaz de fazer qualquer coisa sozinho.

.Marquinhos e Valmir correram para a quarta sala do corredor e avisaram seus colegas a darem início aos procedimentos para os exames de contraste. Finalmente algo da pesada! Que traria assunto e lembranças estarrecedoras por dias e dias. Só faltava descobrir o que o meliante tinha aprontado e quem fizera aquilo com ele.

– Achamos o cara escondido, ou melhor, jogado numa valeta ao lado de um campinho e um córrego. Os moradores colocaram ele lá, pra nós não acharmos. Iam esperar nós vazarmos para acabar com o filha da puta. Mas por sorte ou azar dele, ficamos desconfiados e olhamos cada canto da quebrada. – Relatou o mais velho dos policiais, um sargento chamado Gomes.

– O que ele fez? – Quis saber Valmir, ansioso como uma criança aguardando o presente de natal.

– Estuprou e espancou uma menina de 12 anos, quase vizinha dele. Quando tiramos ele do buraco, as últimas palavras que disse, antes de entrar nesse tipo de delírio de dor em que está, foram “são todas umas putinha aqui na área, já nascem dando, só fiz o que outro maluco faria cum ela, logo, logo! No fundo, elas gostam. Por que, por que fizeram isso comigo?”

Marquinhos e Valmir se encararam, sem disfarçar o que sentiam ou pretendiam, seguros de que se os meganhas percebessem, aprovariam com calorosas palavras de incentivo...

Mais de uma hora depois, Romualdo, o sempre calmo e inflexível técnico dos exames de tomografia e contraste saiu da sala e com o tom aparentemente frio de voz, mas no qual alguém mais íntimo e experiente encontraria diversas modulações, anunciou:

– Ele é de vocês.

Antes que os dois rapazes entrassem,  outro policial, um simples soldado, pôs-se entre eles e Romualdo e perguntou:

– Por favor, qual o estado dele? O que acha que vai ser desse cachorro? Precisamos da informação, para repassar ao DP.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte II

– Hmmm. Veja, nós somos técnicos, quem dá o diagnóstico é o médico, mas baseado na minha vivência, bem, se ele quiser usar os braços terá de virar um ciborgue, quer dizer, ganhar um monte de pinos e ainda assim com muitas limitações,  vários órgãos têm lesões e hemorragias, o olho esquerdo já era e pelo que deu para perceber, considerando que não era exame radiográfico, eu apostaria que ele nunca mais vai andar. Isso tudo se passar dessa noite, a situação dele é muito grave.

– Então, sargento, se nos dá licença, temos de fazer nosso serviço, antes que o cara embarque. – Anunciou Marquinhos, arremetendo pela porta com Valmir, sequiosos pelo banquete.  Apanharam a maca e a empurraram, com calculadas pressa e desleixo (a peça esbarrou em tudo que havia pela frente) para a terceira, última e mais afastada das salas de radiografia.  

Durante duas horas, os dois amigos reforçaram os laços de amizade que os uniam, ao submeterem o sujeito vindo de um bairro pobre e violento da zona norte a todos os exames de raio-x possíveis e necessários.

O primeiro filme foi algo simples, o sujeito apenas soltou sons entrecortados enquanto realizavam o exame de crânio axial hirtz submento vértice, que consiste em deitar o paciente de barriga para cima, o feixe central do raio x incidindo no bregma – o topo do crânio –  para verificar uma possível  fratura.

Os dois estagiários se entreolharam, decepcionados e enraivecidos por nenhum sofrimento adicional terem causado ao estuprador. Após alguns instantes, em que ambos especulavam em silêncio qual o próximo passo, Valmir anunciou:

– Filme de seios da face método waters! – e sem esperar aprovação ou resposta, começou a pôr o sujeito na posição adequada para verificar lesões nos ossos da face, de barriga para baixo, no que foi auxiliado de imediato pelo outro. O entusiasmo deles foi tamanho que o sujeito saiu do torpor e emitiu urros tão desesperados que uma loira falsa peituda e quarentona, corpulenta e de olhar frio, entrou na sala sem aviso ou cerimônia, pouco depois: Valéria, uma das enfermeiras mais antigas do hospital, uma espécie de chefona informal do pedaço, quis saber o que se passava, pois as pessoas que aguardavam sua vez lá fora saltaram dos assentos, disparando gritos de susto e medo. Ao saber de tudo, ela dirigiu um olhar de ódio para a coisa na maca a sua frente, babando, chorando e tremendo, e prometeu que não seriam mais importunados em sua missão.

Os filmes dos ossos do antebraço e do braço foram uma apoteose de agonia e êxtase: em perfeita sincronia, cada um empregou toda sua força para esticar ao máximo os membros superiores do molestador de menina pré-adolescente e prendê-los sem o mínimo traço de gentileza à maca, apertando as tiras ao máximo – ora, onde já se viu macho ser gentil com macho?

– AhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhAAAAAh! – gritou Jonilton de Jesus Assis muitas e muitas vezes nas horas seguintes, uma dor tão profunda, que não só o corpo sofreu danos perenes: sua mente, que desde sua infância fora uma coisa rala, fácil de ser moldada e distorcida, mergulhou em uma insanidade pastosa e pueril, para tentar se esconder da dor, e lá, aparentemente, ficaria.

Sem se importar com o que os gritos expressavam, com seu conteúdo, apenas saboreando sua intensidade, os amigos continuaram:  

– Bem, agora temos de fazer os exames do escafóide, os ossos do punho, o exame que...FODE!!! E dizendo isso, Marquinhos apertou, até os nós de seus próprios dedos ficarem brancos, o pulso mole e arroxeado, antes de posicioná-lo abaixo do feixe de radiação, como se para se certificar que estava muito bem fraturado antes de acionar a máquina.

Para agonia de um e êxtase de outros, boa parte dos exames teve de ser repetida: além do de escafóide, o de tórax ap (função: registrar fraturas no esterno), o das pernas e pés e o do braço direito, pois Marquinhos e Valmir foram tão requintados em sua selvageria  que o cara fez o impossível: remexer-se muito, mesmo aleijado e amarrado. O prazer que sentiram foi tanto que não se importaram com as mais que certas carcadas vindouras, por gastarem tantos filmes, uma quantidade imensa, mesmo com algo tão fodido e desprezível como aquela coisa.

A sala de raios-x estava, ao cabo de tudo aquilo, pesada e acre. Tanta dor, deleite para com a dor e respiração tensa abarrotaram o ar de miasma e gases nocivos, no entanto os dois rapazes se sentiam muito bem, tão intoxicados com o bem estar de causar sofrimento que, claro, as duas horas lhes pareceram não mais de vinte minutos. Mas por fim chegou o fim: um dos médicos de plantão surgiu, dando ordens:

– Muito bem, a diversão acabou. Não podem ficar com o figura aqui para sempre: sei que demora muito para radiografar por completo uma pessoa nessas condições, mas se nos demorarmos mais para cuidar dele, o cara morre aqui mesmo e se isso acontece antes de passar pelos primeiros socorros sabem a encrenca para nosso setor. Levem ele para o centro cirúrgico.

Uma vez a sós com o pervertido, o médico olhou os filmes, espantou-se com o estrago que os populares do Jardim Filha de não-sei-o-quê fizeram no sujeito e meditou: não importava classe social, educação ou falta desta, local de origem, cultura, se era inexperiente ou vivido, o ser humano sabia ferir seu semelhante com toda a precisão, sem necessidade de conhecimento prévio a respeito. Estava prestes a chamar a enfermeira para executar os primeiros procedimentos, quando deu-se conta de que não estava só na sala. Virou-se num átimo e diante de Rogério havia uma mulher magnífica, perfeita, postada ao lado da maca: pele alvíssima, de um tom estranho, não a palidez da falta de vigor e saúde, mas algo diferente; muito alta, corpo cheio de curvas – quadris generosos, seios opulentos e firmes, braços longos e esguios, elegantes; cabeleira negra  enorme, deslizando pelas costas e que resplandecia de reflexos azuis nos infinitos cachos; rosto perfeito, todo traços suaves sem uma única assimetria ou parte destoante – boca vermelha e brilhante, olhos de íris negras, profundos e perscrutadores, cílios longos e alinhados, nariz fino e discreto;  vestia calça e blusa de couro negro brilhante e calçava botas também negras  de cano e salto enormes.

Ele estremeceu por inteiro diante da visão e guinchou:

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h12
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV: Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha - parte III

– Você??!! O que quer aqui?

A mulher esticou a mão e, usando somente suas longas unhas pintadas de vermelho sangue, ergueu o rosto do sujeito, que gemeu alto, antes de responder:

– Olá, meu velho amigo.

– Não sou seu amigo – retrucou o médico.

– Não? Nós devemos favores um ao outro, por um certo tempo, e trocamos confidências, além da empatia mútua.

– Não me lembre que eu, um médico, ajudei você, uma vampira de milhares de anos a conseguir vítimas para seu séquito de monstrinhos.

– Ora, não disse nada sobre isso. Estou aqui por outra razão, por essa coisa abjeta, esse monte de protoplasma doentio e morrente. A sua ciência médica nada poderá fazer por ele, que deixará de existir ainda esta noite se entregue apenas a seus cuidados, mas com minha intervenção a existência e o sofrimento dele poderão ser prolongados, por muitas e muitas noites.

Ele encarou-a com severidade e sem medo:

– E por que eu, um médico, cuja função no mundo é aliviar e combater o sofrimento, deveria te ajudar ou permitir isso?

Ingrid chegou tão perto de Rogério, num movimento que ele não percebeu, que seu hálito gelado e sem vida dela golpeava as bochechas dele, enquanto respondia:

– Porque, meu caro doutor, você, como os dois rapazotes que torturaram essa coisa por horas, quer impingir o máximo de dor possível a essa excrescência, deseja isso, sabe que ele merece isso, pois machucou, talvez para sempre, uma menina que ainda não é mulher, que a violentou simplesmente por ela ser do sexo feminino, como se isso a tornasse impura e inferior. Ele merece uma eternidade de dor, seguida de outra e mais outra. E você, humano, homem que finge não possuir a besta dentro de si, que se julga amigo e amoroso para com seu próximo, você fará isso, quer isso. – cada sílaba que partia da boca doce e avermelhada de Ingrid estava envolta numa névoa gelada e atingia a consciência dele como um uma pequena e dolorosa agulha de gelo -  Será muito simples e não exigirá mais do que as prerrogativas de sua função de médico e os privilégios e poderes que advêm dela. Observe. –  ergueu o dedo indicador da mão esquerda diante dos olhos arregalados do médico, fez um minúsculo corte com a ponta da unha do mesmo dedo da mão direita, abriu a boca do monte de protoplasma nojento e deixou que apenas três gotas de seu sangue mergulhassem na garganta, para em seguida fechar completamente o corte, com uma simples carícia de sua língua umedecida de saliva.

O sujeito tremeu e gemeu, sua respiração tornou-se regular e em seguida ele fechou os olhos, adormecendo.

– A intervalos regulares, uma mocinha de pouco mais de vinte anos, vestida de negro, cabelos curtos, virá a este hospital. Ela entregará a você, em um minúsculo vaso, três gotas de minha linfa. Usando de sua posição e autoridade, verterá o filtro miraculoso[1] nesta garganta abjeta. Três gotas, uma porção suficiente e discreta, o suficiente para a consumação de um prodígio, impossível para sua preciosa ciência médica:  mantê-lo vivo e sentir uma das sensações fundamentais da vida, a dor, mas não o bastante para restabelecer-se e curar-se, pois ele jamais será um ser bípede, capaz de ser mover, nutrir-se e tudo mais,  por si,  de novo.

– E isso até que ponto?

– Não se preocupe, apenas o suficiente para ele enlouquecer de desespero, para sua pobre e fraca mente descobrir que nem mesmo o reino em que se refugiou poderá escondê-lo da vingança que a condição feminina exige, apenas o bastante para eu, você e minha pupila que trará meu sangue, uma doce e perfumada criança humana, que sabe quem ele é, que o conheceu em tempos idos, nos deliciarmos com o sofrimento dele tempo bastante. Depois, tudo terminará – E dizendo isso, ela saiu pela porta, calma e majestosa.

Rogério suspirou, dirigiu um olhar de desesperança para o sujeito, caminhou a passos pesados e ombros curvados até a janela, onde contemplou o vazio por muito tempo.

Semanas e semanas se passaram . O estado do sujeito era acompanhado com atenção, pois assim que estivesse em condições, seria transferido, à espera do processo e julgamento, por polícia e justiça. E aqueles dos quais partiam essa atenção, ficaram intrigados: o sujeito sobrevivera, contrariando todas as previsões, mas não exibia melhoras; sua carne continua avariada, arroxeada, era apenas  invólucro e sustento para nervos transmitirem dores eternas, que brotavam de lacerações, esmagamentos, fraturas, cortes e contusões que cobriam todos os ossos e vísceras daquele corpo maldito, destroçado, porém sempre vivo. Marquinhos e Valmir espionavam, intrigados e perturbados, mas também deleitados ao descobrir que o sujeito continuava vivo e sofria.

E ninguém relacionou o fenômeno com as visitas regulares, sempre no começo da noite, que  doutor Rogério recebia de uma garota baixinha, vestida de negro  pontuado por adereços de metal, uma mocinha de não mais de vinte ou vinte um anos, que lhe entregava, em silêncio e chispando olhar de satisfação, um minúsculo frasco de vidro em cujo interior  parecia volutear um líquido espesso e escuro, quase negro

Esse líquido ensinou a Jonilton, um homem de mais de quarenta anos que acreditava bastar desejar algo para ter  posse sobre aquilo e o direito de fazer o que bem quisesse com seu objeto de desejo, que a fuga e o vazio são  efêmeros; o  torpor e a tênue e doce fuga para as lembranças da infância idealizada e vazia eram destroçados por imensos tentáculos vermelhos, incandescentes e horrivelmente dolorosos, que vinham de cima, dos lados, de todos os lugares, do nada, inundando o mundo simples em que sua mente e seu corpo se escondiam, assim que sua garganta recebia a maldição, levando-o de volta à dor, ao tormento e aos gritos, lembrando-o, noite após noite, hora após hora, dor sobre dor, que tudo tinha um porquê, e que o alívio do vazio final ainda lhe seria negado, por mais tempo que sua frágil mente pudesse suportar.



[1] Comentário dos escribas que apenas registraram essa narrativa: nossa querida Ingrid esmerou-se um tanto no requinte de linguagem desse trecho, que pode ter seu não tão obscuro significado decifrado consultando-se um bom dicionário ( físico, de papel, de preferência!)

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

19/12/2011


Lançamento do livro "Maretenebrae - A Queda de Sieghard"

Saudações noturnas,

Segue o release do livro "Maretenebrae - A Queda de Sieghard", dos autores L.P. Faustini e R.M. Pavani, um benvindo lançamento de literatura fantástica nacional.

Ainda não tive o prazer de ler o livro todo, mas o material que vi até agora me parece bem promissor, num edição bem cuidada, e principalmente com uma história que lida com conceitos bem interessantes, e que segundo os próprios autores remetem à tradição de Michael Moorcock e Elric, sua obra-prima.

Após o release seguem os contatos dos autores, blog do livro, twitter, facebook.

Ab, A.

 

Um épico digno

 

Pegue uma aventura ambientada no período medieval em uma terra de fantasia chamada Sieghard, misture guerras e ação desenfreada, adicione elementos de filosofia, religião, política e investigação, e você terá um dos mais novos épicos brasileiros. Lançado no dia 02 de dezembro de 2011 pela Editora Biblioteca24horas, "Maretenebrae - A Queda de Sieghard" é um projeto ambicioso de dois novos autores, L.P.Faustini e R.M.Pavani, com o intuito de entreter e iniciar os leitores na filosofia e nos questionamentos que sempre intrigaram o gênio humano, como por exemplo, somos donos de nosso próprio destino?

"Para salvar o mundo é preciso, primeiro, salvar a si mesmo" (Victor Didacus, capítulo XXXIV)

Para que o objetivo dos autores seja realizado, Maretenebrae apresenta sete protagonistas que "personificam" (como os próprios autores dizem), cada qual, um dos sete pecados capitais. "Uma baboseira cristã", poderiam dizer os não-religiosos. Porém engana-se quem acha que lerá discursos bíblicos na trama. "Na verdade, a personalidade e o comportamento dos personagens principais são pautados por esses pecados", explica L.P.Faustini, "A união, por força, entre homens tão distintos na luta pela sobrevivência resulta em situações constrangedoras, revoltantes e às vezes, divertidas". R.M.Pavani pontua: "A questão de  vícios e virtudes é muito mais antiga que o cristianismo. É uma dualidade: o bem e o mal, o caos e a ordem".

Com 540 páginas, Maretenebrae apresenta 5 ilustrações de miolo, incluindo um mapa (que podem ser baixadas no blog oficial), mas o diferencial fica por conta das 4 partituras musicais inseridas no final do livro para quem quer saber como tocar as canções entoadas durante a trama. No canal youtube de Maretenebrae, os autores apresentam também a música orquestrada Peregrinatio como a música tema de sua obra.

Maretenebrae é um épico digno, criado por jovens autores ambiciosos que ainda tem muito que aprender e ensinar através de seus livros. Por que não acompanhar de perto o destino deles nesta aventura pelas terras de Sieghard?

 

L.P.Faustini & R.M.Pavani

http://maretenebrae.blogspot.com/

http://www.twitter.com/maretenebrae

http://www.facebook.com/Maretenebrae 

 

Gostei muito das ilustrações oficiais do livro (segue o link abaixo); elas cumprem muito bem o papel de inspirar, de motivar a leitura!

http://maretenebrae.blogspot.com/2011/11/ilustracoes-oficiais.html

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 09h08
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

30/11/2011


Sinais de vida

Boa noite a todos!!

Sim, Carpe Noctem ainda existe e seus autores continuam trabalhando, em silêncio e nas sombras.

Mais uma vez, pedimos desculpas aos bravos e fiéis leitores pela ausência de notícias ou novos textos e anunciamos que o próximo conto está em finalização, nada menos que a próxima aventura e Laura e Ingrid, uma narrativa que NÃO SE PASSA NO CENTRO DE SÃO PAULO e baseada em um triste e revoltante fato, uma demonstração, de que o ser humano não precisa invocar poderes das trevas para causar dor, medo e sofrimento...

Também temos novidades sobre a coletânea de H.P. Lovecraft: um trecho do livro já está disponível para download e as instruções para pagamento e reserva de um exemplar também foram publicadas no SiteLovecraft. Logo abaixo postamos um pequeno trecho do conto e o endereço eletrônico do site.

Saudações noturnas e etílicas

 

As fabulosas aventuras de Laura e Ingrid, as justiceiras noturnas de São Paulo – episódio IV:

 

Apenas outra noite no Hospital Geral da Cachoeirinha

 

O segundo cigarro de cada um se esvaia no ar, por mais devagar que fumassem. Não tinha jeito, o intervalo estava acabando e Marquinhos e Valmir teriam de voltar para o estágio de técnicos de radiologia no Hospital da Vila Nova Cachoeirinha e seu séquito intolerável: médicos arrogantes, enfermeiras neuróticas e vadias, o desfile de pacientes e o pior de tudo, o fim de tudo... os  parentes histéricos dos pacientes meio-mortos, acidentados, quebrados e retalhados, a culpar o hospital, o governo, o mundo e principalmente o hospital e todos seus funcionários por seus entes queridos estarem totalmente fudidos, por serem uns imbecis que não sabiam sequer manter seus rabos limpos, quanto mais manter-se inteiros e longe de problemas.

Valmir dirigiu uma última olhada desanimada para o toco, que já fazia a pele de seus dedos arder, antes de descartá-lo, e disse:

– Cara, a vida humana é como esses cigarros que nós fumamos nessa saleta fedorenta: uma coisa que não dura nada, mas que tentamos esticar ao máximo, e para quê? Uma hora vai acabar mesmo, na sarjeta. Agora... nós somos os cigarros, o vício, de quem?

Marquinhos deu uma última e funda tragada no seu toco, jogou-o pelo janelinha imunda com total desprezo e comentou, já passando pela porta:

– Esse trampo tá te deixando muito pensador, meio sensível. Prefiro você na banda de metal, bem from hell, com cara de mau. Vamos, tá na hora.(...)

 

O que entrou no hospital, preso a uma maca por todas as correias, estava cercado de uma atmosfera de dor tão palpável e emitia gemidos tão desesperados, ainda que abafados, que todos na entrada do hospital se afastaram instintivamente.

O sujeito fora um homem baixo e parrudo, de pele bastante morena, daquele tom de pele dos trabalhadores braçais que sempre trabalharam de sol a sol e bem pouco desfrutaram da luz do dia para relaxar; fora um homem porque o estado dos membros – partidos, todos, em pelos menos três pontos diferentes –, o rosto esmigalhado –  uma massa de carne ensangüentada e inchada,um dos olhos indistinguível – e a posição em que o corpo estava indicavam que se sobrevivesse nunca mais seria considerado um homem completo, capaz de fazer qualquer coisa sozinho.

 

Endereço do SiteLovecraft:http://www.sitelovecraft.com/

Endereço para baixar trechos do livro: http://www.sitelovecraft.com/partelivro.doc

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 16h16
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

15/10/2011


Novo livro de H. P. Lovecraft em português

Boa noite a todos!

Como muitos dos leitores sabem, além de um medíocre autor de literatura fantástica, também sou pesquisador acadêmico do gênero e minha dissertação de mestrado foi publicada sob o título A Totalidade pelo Horror  - o mito na obra de H.P. Lovecraft(editora Annablume, veja os links à direita), aliás primeiro estudo sobre o mestre do terror escrito e publicado em língua portuguesa. Bem, meus lances e coisas com Lovecraft não pararam nisso: fiz uma modesta contribuição na produção daquele que certamente será a melhor edição da obra do mestre em português: o criador e mantenedor do melhor site sobre Lovecraft em língua portuguesa, o SiteLovecraft (www.sitelovecraft.com), Denilson Ricci, está comandando a produção de O Mundo Fantástico de H. P. Lovecraft,uma edição independente, mas com alto padrão gráfico, de tradução, revisão, enfim, um livro de alto nível editorial, contendo inclusive textos inéditos em língua portuguesa, como vários poemas, biografia ilustrada, notas explicativas, na qual participei como revisor dos  textos de orelha e contra-capa e  revisor da tradução de "A Cidade sem Nome".

Certo, certo, muito legal e bonito, mas qual o motivo exato dessa mensagem? Apenas divulgar que o livro está em fase final de produção, que estamos em busca de mais leitores que assinem a lista de compra, o que além de tornar o livro mais conhecido, claro, barateará o preço final e indicando a vocês fiéis leitores de Carpe Noctem essa obra, que, esperamos e trabalhamos para tal, será um marco da literatura fantástica editada no Brasil. Se você possui mínimo interesse em H.P. Lovecraft, não perca, e se conhece algum aficcionado pelos horrores e delírios lovecraftianos, por favor indique o livro - cuja versão beta da capa está abaixo - e o site, cujo link está ao lado.


P.S.: e se ainda não leram, espantem-se com nossa mais recente narrativa de horror urbano, logo abaixo.


Saudações noturnas e etílicas.


Caio Alexandre Bezarias

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h21
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

27/09/2011


Novo conto (título no Post Scriptum), por André Luis Pavesi, com revisão apurada de Caio Bezarias

 

Numa noite de sexta-feira que ficaria registrada na história como a mais fria noite paulistana em duas décadas, o padre consultava seu relógio - quase meia-noite - enquanto descia a Avenida Liberdade com o ar gelado lhe rasgando as vias aéreas. O pensamento de uma boa caneca de chocolate quente, talvez com algumas gotas de rum para aquecer, o fazia acelerar o passo mais um pouco.

 

Ao chegar perto do Viaduto Jaceguai, o padre logo percebeu, mais pelo cheiro de mijo velho que empesteava o ambiente do que por qualquer outra coisa, o habitual grupo de mendigos que costuma dormir num terreno ao lado de um supermercado. Sabendo que esses tipos sempre são atraídos pela batina, acelerou ainda mais um pouco o passo, afinal não estava disposto a ouvir choramingo de mendigo àquela hora da noite.

 

Mas seu esforço foi em vão: antes que conseguisse alcançar o viaduto, o padre foi interpelado por um dos mendigos, uma figura maltrapilha – impossível dizer se homem ou mulher – terrivelmente suja e coberta por trapos imundos e peças descasadas de roupas da cabeça aos pés, com pedaços de saco de lixo enrolados nos pés e pernas. Por baixo de um gorro ensebado, seus olhos brilhavam com uma avidez surpreendente no rosto inchado de bebida, parecendo antever as delícias alcoólicas que iria consumir com a grana que pretendia extorquir do padre. Afinal de contas, onde já se viu um padre negar uma esmola, certo?

 

Parando de forma súbita na frente do sacerdote – como diabos esses mendigos conseguem sempre andar tão rápido quando querem? – se perguntou o padre – o mendigo começou a sua ladainha de sempre, com uma voz enrolada, embolada, quase sem mexer a boca, os olhos correndo rapidamente pela figura do padre, como se avaliando o tamanho da esmola que iria arrancar.

 

Com uma quase finta, o padre se desviou para o lado, beirando a sarjeta, tentando fugir do mau cheiro que exalava do mendigo. Definitivamente, aquela não era uma noite pra se fazer caridade. Mas o mendigo não iria desistir tão facilmente e começou a resmungar ainda mais alto, seguindo o padre que tentava se desvencilhar dele, até que num movimento mais brusco segurou-o pelo braço.

 

Foi seu pior erro. Agarrar o braço do padre foi como segurar um fio desencapado de alta-tensão de memórias...enquanto o padre parecia se deliciar com as podres lembranças captadas diretamente na mente entorpecida do mendigo, toda uma vida de erros, começando no abandono da escola, os primeiros goles de cachaça ainda antes dos sete anos, uma mal-sucedida carreira como faz-tudo em obras e reparos em geral, tantos e tantos empregos perdidos por conta das bebedeiras cada vez mais freqüentes, as primeiras pedras de crack explodindo o pouco que restava do cérebro de Josivaldo Washington – Porca miséria, que porra de nome é esse?!?, pensou o padre – as inúmeras vezes em que o mendigo se prestou aos mais sujos papéis para conseguir sua cachaça e sua pedra, como da vez que aliciou dois garotos a entrarem no carro de um figurão para aparecerem na quebrada mortos e sem uma gota de sangue na manhã seguinte, ou das vezes que chupou seu traficante em troca de duas pedrinhas – mais duas pedrinhas, sempre mais duas pedrinhas, só mais duas, por favoooorrrrr

 

Mas o mendigo também mergulhou nas memórias do padre...lembranças tão imundas e torpes que fizeram a vida dele parecer um passeio no parque...lembranças de sangue e enxofre, de atos tão vis e perniciosos banhados em latim e hóstias profanas de uma igreja dedicada aos antigos inomináveis, de corpos humanos tratados, jogados e cortados como objetos, de almas amaldiçoadas a arder num ciclo sem fim de dor e punição...testemunhando na alma do sacerdote maldito um mal tão antigo quanto o tempo, de seres que andam entre os homens como lobos entre vira-latas, predadores de outros tempos e lugares, de cores, sabores e cheiros abomináveis que consumiram os últimos vestígios da mente racional do mendigo, daquilo que o mantinha – mesmo que porcamente – acima dos animais...instantes de contato com o mais puro horror reduziram o já desgastado mendigo a uma figura estática, os olhos ainda mais estrábicos e perdidos para sempre, um fio de baba escorrendo pelo queixo e pingando no chão.

 

Olhando fixamente para o mendigo, um sorriso maligno nos lábios, disse o padre, na língua que não deve ser usada, embora cravada nos recantos mais escuros da alma humana pelos deuses esquecidos de outrora:

 

  • Agora, meu bom homem, por que você não pula desse viaduto e torna o mundo um lugar melhor?

 

E foi exatamente o que o corpo sem mente do mendigo fez, enquanto o padre dos deuses antigos se afastava, já pensando novamente naquela caneca de chocolate quente, batizada com umas gotinhas de rum, as memórias daquela noite ainda deliciando sua alma podre.

 

 

Post Scriptum – o título do conto, O Padre dos Deuses Antigos.

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 00h26
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

15/09/2011


Preview do novo conto, e nossas sinceras desculpas

Saudações noturnas a todos,

Como dizem nos filmes de zumbis, quem é morto-vivo sempre aparece!!

Como sempre, começamos nos desculpando/explicando um longo período sem postagens no blog...sabem como é, os escribas responsáveis pelo Carpe Noctem procuram mante-lo o mais abastecido possível de textos, contos e comentários, mas nem sempre conseguimos postar tão rápido quanto possível.

Espero que a espera tenha valido a pena para aqueles que ainda nos acompanham, dentro dos próximos dias estaremos postando um novo conto, escrito por mim e com a sempre atenta revisão do Caio. Enquanto damos os últimos retoques nele, fiquem com um ligeiro preview...

Ab, A.

"...Ao chegar perto do Viaduto Jaceguai, o padre logo percebeu, mais pelo cheiro de mijo velho que empesteava o ambiente do que por qualquer outra coisa, o habitual grupo de mendigos que costuma dormir num terreno ao lado de um supermercado. Sabendo que esses tipos sempre são atraídos pela batina, acelerou ainda mais um pouco o passo, afinal não estava disposto a ouvir choramingo de mendigo àquela hora da noite.


Mas seu esforço foi em vão: antes que conseguisse alcançar o viaduto, o padre foi interpelado por um dos mendigos,..."

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 16h58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

09/07/2011


Aquilo a que até os monstros obedecem - Parte I - por Caio Bezarias, com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

Uma madrugada de novembro de 2015, num bar da Martins Fontes

– E então, você quer saber a treta que rolou e fechou o Atlantic pra sempre? Ou vai me dizer que acreditou no papo das autoridades – polícia, prefeitura, toda essa cambada –  de que depois do massacre, a porra do lugar foi desapropriada e seria demolida, como parte da reforma da Roosevelt? Cê não acredita nisso, né? Porra, o imóvel em que era o Atlantic fica no lado da Nestor Pestana oposto à praça!  Por que iriam desapropriar algo ali? Não mexeram num tijolo daquele lado, mas pá! Fecha, desapropria, que a prefeitura precisa do terreno para a reforma. Isso já faz anos e tá fechado até hoje!  E essa porra dessa reforma, que transformou a praça em mais um local limpo e bonitinho de “qualidade de vida” para todos esses burguesinhos escrotos que dominaram a região – cara, reparou como o pedaço foi tomado por prédios mauricinhos, uns lugares horrendos, certinhos, limpinhos, luzinhas e decoração, cheios de uns filhos-da-puta que pagaram 300 paus por uma merda de uma quitinete melhorada de 40 m2 e ainda se acham o máximo? E pensar que expulsaram os puteiros, as putas e os malucos da região para essa gente metida ficar de boa, acharem que são o máximo e vivem no máximo!

Jorge bebeu praticamente todo o copo de um só gole e encarou o sujeito. Sempre se irritara com gente sem uma fala linear, organizada, que pula de um assunto para o outro, que adora desfilar suas opiniões e sabedoria sobre tudo e todos para o primeiro besta que lhes dá um minuto de atenção, uma praga que infestava bares, pontos de ônibus, lanchonetes, onde quer que desconhecidos se juntassem por qualquer razão em São Paulo lá estava um exemplar dessa gente desesperada e entediante. Já ia se despachar, falar qualquer coisa e sumir, quando o tipo, um quarentão meio desgrenhado – bafo de cachaça, nariz e orelhas vermelhos, magro de braços e pernas mas com barriga saliente, cabelo bem grisalho crescido e disforme precisando de um corte, roupas ainda limpas mas gastas, entremeadas de fios soltos  aqui e ali – em suma, um cara a poucos passos de cair numa vida errante ou até mesmo na mendicância, disparou:

– Aconteceu uma treta lá dentro daquele pulgueiro, que não passava de um antigo bordel transformado em balada de rock, metal e gótico para uma garotada se acabar de bebida, sexo casual e todas essas merdas, uma encrenca sobrenatural na dark room, que ficava no alto, no fim de uma escadaria –  caraca, meu, os caras tiveram uma sacada e tanto, hein? A sala reservada para os casaizinhos de uma noite se atracarem, o ponto alto da noite para eles, ficar no ponto mais alto do lugar, pegou?            

Jorge encheu apenas seu copo e bebeu tudo de um só gole mais uma vez. O cara não se importou: pegou a garrafa das mãos do outro e encheu seu copo com a maior calma.

– E o que a treta tem a ver com o fechamento do lugar?

– Foi coisa feia, terrível, pesada demais para uma casa noturna acostumada a mulheres bêbadas trocando tapas, caras brigando por mulher, essas coisas banais, o que rolou foi muito, mas muito mais pesado, tão pesado que a atmosfera, o clima do lugar ficou impossível. Você quer mesmo saber? É algo, tipo, impossível, cê com certeza vai me achar louco ou cascateiro.

– Tenho certeza que você é um pouco de cada, meu amigo, então, manda ver. Pra que eu teria aturado sua ladainha até agora?

O cara não moveu um músculo; os sentidos sobrenaturais de Jorge não acusaram uma única reação à provocação, o que o intrigou um pouco.

– Vamos, desembucha cara!

O quarentão soltou um sorrisinho sacana e começou:

– Você talvez não acredite em nada disso, mas essa cidade é uma fervilhação de coisas esquisitas, sobrenaturais mesmo, desde sempre, desde antes, antes de qualquer coisa que se pense. Antes mesmo dos portugueses chegarem já era uma coisa terrível: no Vale do Anhangabaú tinha tantos espíritos e monstros que os índios davam uma puta volta para contorná-lo, os morros da Cantareira e umas quebradas em volta do pico do Jaraguá ocultavam umas coisas que nem eles sabiam direito o que era, até hoje ninguém sabe. Bom, o que eu vou te dizer é o seguinte – aproximou o rosto de Jorge, diminuiu o volume da voz e o encarou, olhos vidrados  – Tem vampiros e lobisomens andando por essa cidade, matando, pervertendo as pessoas e guerreando entre si.   Mas  o que ocorreu lá não teve a ver com eles, foi uma coisa que apavorou até esses seres das trevas.

Jorge arqueou as sobrancelhas e deixou escapar dos olhos um infinitesimal lampejo de luz amarela, o brilho característico nos olhos de um licantropo.

– A pegação dentro do lugar era frenética: beijava-se uma e imediatamente após você estava beijando a amiga dela, que estava ao lado, a seguir estava beijando as duas ao mesmo tempo, depois elas te largavam e iam paparicar, com beijos e boquetes, o vocalista rockstarzinho de uma das péssimas bandas que tocavam lá, que ficou putinho e enciumado ao ver suas frangas com outro, meninas se atracavam com meninas para provocar os caras, uma doideira. – O tom de voz com que descrevia o Atlantic (nada de novo ou espantoso para um roqueiro rodado como Jorge) era o típico de sujeitos velhuscos que invejavam toda aquela putaria e se remoíam ou por nunca terem desfrutado dela ou por seu tempo de juventude e aventuras ter passado.

– E daí?

– A quantidade de intrigas, briguinhas e troca-troca de casais que rolaram lá, durante os anos, foi infinito, gente aos montes em busca de emoção, de algo para agitar suas vidinhas vazias ou tristes, um chamariz e tanto para os seres das trevas, principalmente os sanguessugas.

Os pêlos das orelhas de Jorge se eriçaram – um sinal lupino que somente outros licantropos perceberiam com facilidade, mesmo num ambiente repleto de fumaça e barulho – Esse termo era corrente, para se referir aos vampiros, somente entre os licantropos, era pejorativo, e... desconhecido dos humanos. Afinal, quem era esse cara?

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Aquilo a que até os monstros obedecem - Parte II - por Caio Bezarias, com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

 – Mas o lugar era quase ignorado por esses seres, muito raro um vampiro ser visto lá, caçando ou apenas se divertindo, pois a cidade é tão grande e caótica, tantos prédios, becos e cantos para dar cabo de um humano e se livrar do corpo, que o  Atlantic, em que as pessoas eram tão pegajosas, se insinuavam, se trombavam ou arrumavam encrenca por muito pouco era um retrocesso, um fim da linha total, principalmente se comparado ao lendário Darkness, onde os seres das trevas circularam sem problemas anos a fio.

– Cara, você é uma enciclopédia ambulante da vida  noturna da cidade.

O riso do sujeito foi interrompido por um acesso de tosse, que terminou numa portentosa escarrada na calçada, disparada sem pudores. Depois esvaziou mais um copo, a garrafa, fez sinal pedindo outra e continuou:

– Cê já ouviu falar de possessão licantrópica? Pessoas que  acham que são lobisomens e saem mordendo, rasgando, mutilando, ma-tan-do? – Seus olhos faiscavam, a boca aberta, os dentes amarelados saltados, baba acumulada nos cantos do lábio inferior. Claro que nada suficiente para assustar Jorge, apenas sentir um pouco mais de tédio e asco para com a espécie humana.

– Sei, gente tão maluca, tão doente, que para justificar sua maldade passa a uivar para a lua, mijar em postes e árvores e matar criançinhas, imaginando que é um lobo feroz e sanguinário. Vai me dizer que tem gente assim andando por aí, aqui em São Paulo?   

– Não é isso; não é imaginar que é bicho, é virar um! Ser possuído pela memória animal, devido a um trauma ou tensão que destruiria uma pessoa comum, pode acontecer: um indivíduo quer tanto fugir de sua condição, está tão farto de SER humano que mergulha na mãe de todos, na fonte dos seres e das coisas e contata e se funde com o espírito ancestral de um de nossos irmãos animais. E de um momento para outro um homem ou mulher cria músculos, pêlos enormes e grossos, a boca vira uma bocarra cheia de presas e temos um lobisomem, um homem que regrediu ao puro animal.

– E foi isso que aconteceu no Atlantic?

– Puxa, como você liga bem as coisas! Um sujeito comum, um dia, ou melhor, uma noite, não explodiu, mas se tornou o que sempre foi latente nele; um cara comum, um tipo que ia ao Atlantic semana após semana, atrás de tudo aquilo que qualquer garoto da idade dele queria: balançar a cabeça ao som de heavy metal, meninas, álcool, diversão. Era só mais um garoto, buscando o que muitos outros buscavam. Ele quase sempre conseguia o que queria, mas você saber como os homens são idiotas na adolescência – somos por toda a vida, mas quando a cabeça de baixo manda mais que a de cima, aí ferrou-se – confundem tesão, paixão carnal com amor sincero e puro que é uma beleza! E lá vai o meninão que acha que encontrou sua musa eterna se desesperar ao descobrir que ela não passa de mais uma biscate como tantas outras.     

Parou, tomou mais um gole e olhou fixamente para as luzes dos prédios próximos, como se esperasse que algo lhe sussurrasse nos ouvidos a próxima parte da história que narrava. Qual espécie de musa se dignificaria a soprar nos ouvidos desse sujeito?

– Ele tava vidrado numa mina fazia tempo, uma daquelas góticas que desfilavam no pulgueiro apertadas dentro de espartilho de laçinhos e cinta-liga vermelha. Além de linda e gostosa, a conversa papo-cabeça rasa dela fascinou aquele rapaz da periferia que mal sabia pronunciar o nome das bandas de metal que curtia. Só que, claro, ele era nada ou pouco mais para ela: apenas mais um dos caras que ela usava, noite após noite, para se divertir e para provocar o cara de que ela realmente era a fim. O pobre coitado do garoto não percebeu que ele era somente mais um inseto, entre milhares que rodopiavam ao redor da beleza e sedução dela e que seria queimado por essa luz em breve. 

– Foram meses nessa: ele atrás dela, uma ficada aqui, outra ali, depois ela nunca estava disponível, ou então  dizia que ia ao banheiro, não voltava e ele a pegava no colo de outro, ela deu os números e endereços  de toda essa porcariada eletrônica em que as pessoas se viciaram, endereço de MSN o escambau, telefone disso, face não-sei-o-quê, e sempre fugindo do moleque, louco para tê-la e sempre sendo frustrado. E bem, as crianças e jovens deste milênio, dizem os mais velhos e “sabidos”, não aceitam frustração.

– Historinha longa.

– Calma, já estou chegando na melhor parte. Pô, a cerveja acabou de novo! Mais uma!

Dois generosos goles e continuou: 

–Até que numa noite a vagaba foi longe demais: estava aos beijos com nosso herói quando viu seu muso aparecer com outra putinha, sua rival, pendurada no saco dele. Ela simplesmente o largou, apanhou o muso – após um belo e desmoralizante safanão na rival, claro! – e o arrastou para a dark room. Nosso amiguinho ficou um tempo desolado, encostado no balcão, o peso do mundo em seus ombros magrelos, mas súbito algo se agitou dentro dele, sentiu como que uma coisa mordendo sua coluna e ordenando que fosse homem, que tomasse o que era dele, que agisse como animal, se necessário. Infelizmente para ele, os infelizes que acasalavam na sala escura e para a história do lendário Atlantic, ele tomou essa última ordem muito ao pé da letra...     

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h13
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Aquilo a que até os monstros obedecem - Parte III - por Caio Bezarias, com a sempre paciente e cuidadosa revisão de André L. Pavesi

      

– Ele foi atrás deles, entrou na dark room e, posso imaginar a cena, ao se  ver numa escuridão daquelas, cercado de gemidos e sussurros, sabendo que um desses gemidos era ela sendo comida pelo cara, ele simplesmente explodiu de raiva e seu espírito, sua essência, se deixou tomar pela fúria animal e a essência de lobo encarnou nele e o transformou em um lobisomem alucinado?

– Bingo!! Muito bem, garotão.

– Quer que eu acredite nisso? – E Jorge lembrou-se, com riqueza tremenda de detalhes, do furor que o “massacre na casa noturna gótica” causou, afinal era parte do passado recente e ainda muito falado, discutido e distorcido cidade afora. Lembrou-se das campanhas histéricas dos demagogos de sempre da imprensa, pedindo o fechamento de todos os estabelecimentos do gênero na cidade, da gritaria de parentes e amigos das vítimas a exigir uma explicação que nunca veio, do previsível e imediato fim do Atlantic, com graves conseqüências para alguns e principalmente da tensão que causou entre os seres das trevas, que, após breves e violentas acusações mútuas perceberam que o massacre fora causado por algo que desconheciam, um outro tipo de criatura sobrenatural que vagava pela noite, que poderia trazer uma atenção indesejada aos demais seres das trevas, o que os licantropos e vampiros evitaram com muita dificuldade. 

– E o licantropo dilacerou todos que seus sentidos hipersensíveis encontraram lá dentro. Foi uma coisa tão rápida que os casais nunca souberam o que os matou, alguns tiveram o corpo rasgado durante a penetração, morte boa, hein? Morrer enquanto goza. O segurança que ficava de tocaia por ali também teve o mesmo fim. Ninguém nos pisos inferiores ouviu coisa alguma: a porra da dark room, como eu disse, ficava bem lá no alto e a desafinação estridente dos grupinhos cover de merda completou o serviço.

– O monstrinho sumiu de vista, coisa fácil, considerando que o teto daquilo lá tinha uma porção de ajustes e gambiarras bem fuleiros. Logo depois, encolhido num canto escuro qualquer, retornou à forma humana e saiu cambaleando pelas ruas do Centro, seu corpo dolorido e cheio de hematomas, sua cabeça zunindo, sem entender bulhufas do que se passava, tão zureta que praticamente se jogou em cima de um carrão que passava pela Augusta e foi moído na hora. Ninguém ligou sua morte estúpida ao massacre, ninguém desconfiou que o sangue que o cobria não era dele e o principal, no meio da histeria e caos que se instalou no Atlantic, às quatro da manhã, quando finalmente descobriram o que ocorrera lá no alto, quem iria reparar que um tipo qualquer, sem graça e pouco conhecido, tinha saído do pulgueiro sem passar pela porta?

– Então foi isso que ocorreu lá? E como você sabe tanto dessa história?

O sujeito mais uma vez ignorou a pergunta que julgou não precisar de resposta, inclinou-se para a frente, para observar o pouco do céu que era visível  do balcão  e assim ficou por algum tempo, até que o dono e balconista do bar chegou até eles e disse:

– Aê, amigos, estamos fechando.

O sujeito pagou as cervejas, apontou para um bar aberto no fim da rua à frente dele, quieta e sem movimento, que avançava para o interior do Bixiga e propôs:

– A saideira, beleza?

Enquanto caminhavam mais continuou seu relato que respondeu a última pergunta de Jorge:

– Os antigos nórdicos, os vikings, tinham uma porção de deuses, e tinham muitas histórias sobre eles, histórias que na maioria se perderam ou foram distorcidas; tem uma bem estranha e pouco conhecida, em que Loki, o deus arteiro, do caos, eterno criador de problemas para os outros deuses, apronta uma bem grave e toma a dura mais violenta que Odin, o chefão, o deus supremo dos guerreiros chifrudos podia lhe dar. Contam, e isso seria um segredo sombrio e secreto que poucos vikings sabiam e evitavam ao máximo mencionar, que havia outras entidades muito, mas muito mais poderosas e antigas que os próprios deuses nórdicos, uns seres imensos e misteriosos que viviam sentados em montanhas acima de Asgard, seres que eram para os deuses o que eles eram para os humanos. Odin, diante da maldade e falta de princípios de Lokin alertou:

“ – Deus da trapaça, você quer causar a ira dos que estão acima de nós, Aqueles que Vivem Acima e nas Sombras?”

– Loki encolheu-se, baixou a cabeça e voltou para suas traquinagens habituais.

O olhar de Jorge misturava impaciência, irritação, por não ter compreendido um evento e pior, sentir-se idiota por ter participado desse evento.

– Em São Paulo também existe algo que vive nas sombras, nas sombras formadas pelas esquinas, prédios, histórias e lendas desta cidade, algo mais poderoso e assustador que todos os seres sobrenaturais que andam por ela. Mas não está acima, está aqui, com nós e entre nós, e é o próprio espírito da cidade, sua essência, que já se tornou uma força que age de maneira independente dos humanos mas não necessariamente e sempre contra eles. O espírito da cidade sentiu que os homens precisam do mistério, do mito e da lenda mais do que nunca, pois suas vidas são cada vez mais chatas, mecânicas e programadas e enlouqueceram por conta disso. Uma cidade em que mesmo o mais rodado policial de ronda noturna, o mais experiente jornalista de caderno policial, o mais sábio e observador dos boêmios ou o mais entendido pesquisador de sua história sente-se sempre como um iniciante diante de sua imensidão, desnorteado: é isso que as pessoas dessa cidade pedem a ela, é isso que ela dá. Enquanto cresce sem controle e torna-se cada vez maior e mais complicada, São Paulo cria ou mantém dentro de si lugares obscuros, assustadores e lendários, alimenta as lendas associadas a esses lugares, pois repito, seus habitantes, nos sonhos, nos delírios e no inconsciente, pedem a ela exatamente isso. E é exatamente por isso que o imóvel em que era o Atlantic está fechado até hoje, podre, lacrado, mas exibindo o neon rachado e desligado. A cidade mexeu seus pauzinhos sobrenaturais para que fique assim por muito, muito tempo, até tornar-se uma lenda tão entremeada no tecido da história do Centro que se confundirá com ele.  Olhe ao redor, cara, e sinta isso, você também pode.

Jorge fez o que o cara disse movido não por obediência, mas por maravilhamento com a revelação estranha e fascinante que recebera. De costas para ele, olhou por algum tempo para os perfis dos prédios do Bixiga, recortados contra o céu escuro e nublado. Ao voltar-se para fazer a óbvia pergunta que o fustigava  (“quem é você?”), viu-se sozinho.

Não havia ninguém ou nada a seu lado.     

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 03h11
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

07/07/2011


Trechos do próximo conto

Boa noite a todos!

Sim, caros leitores, mais uma vez nos ausentamos de Carpe Noctem por um longo período, mas como nas demais ocasiões em que nada postamos por extenso período, por motivos importantes: nossas peregrinações, observações e mergulhos em São Paulo,  fonte de inspiração maior para nossos textos, foram tão intensas, tantos eventos e acontecimentos que nossa visão delirante e distorcida captou que por longo tempo mergulhamos, após (e por vezes durante) nossa pesquisa de campo, na rascunhagem e troca de idéias para forjar os contos que estão prestes a vir à luz (às luzes que pontuam a noite, aliás!).

Assim, degustem os trechos abaixo, do próximo conto a ser publicado, em breve ( já está em fase de edição e revisão),um conto que, apesar de se situar no futuro próximo, é na verdade uma espécie de crônica raivosa das alucinadas transformações geográficas e humanas pelas quais parte da cidade está passando, inclusive no momento em que você lê esta introdução.

Saudações noturnas e etílicas.

 

Uma madrugada de novembro de 2015, num bar da Martins Fontes

– E então, você quer saber a treta que rolou e fechou o Atlantic pra sempre? Ou vai me dizer que acreditou no papo das autoridades – polícia, prefeitura, toda essa cambada –  de que depois do massacre, a porra do lugar foi desapropriada e seria demolida, como parte da reforma da Roosevelt? Cê não acredita nisso, né? Porra, o imóvel em que era o Atlantic fica no lado da Nestor Pestana oposto à praça!  Por que iriam desapropriar algo ali? Não mexeram num tijolo daquele lado, mas pá! Fecha, desapropria, que a prefeitura precisa do terreno para a reforma. Isso já faz anos e tá fechado até hoje!  E essa porra dessa reforma, que transformou a praça em mais um local limpo e bonitinho de “qualidade de vida” para todos esses burguesinhos escrotos que dominaram a região – cara, reparou como o pedaço foi tomado por prédios mauricinhos, uns lugares horrendos, certinhos, limpinhos, luzinhas e decoração, cheios de uns filhos-da-puta que pagaram 300 paus por uma merda de uma quitinete melhorada de 40 m2 e ainda se acham o máximo? E pensar que expulsaram os puteiros, as putas e os malucos da região para essa gente metida ficar de boa, acharem que são o máximo e vivem no máximo!

– Cê já ouviu falar de possessão licantrópica? Pessoas que  acham que são lobisomens e saem mordendo, rasgando, mutilando, ma-tan-do? – Seus olhos faiscavam, a boca aberta, os dentes amarelados saltados, baba acumulada nos cantos do lábio inferior. Claro que nada suficiente para assustar Jorge, apenas sentir um pouco mais de tédio e asco para com a espécie humana.

– Sei, gente tão maluca, tão doente, que para justificar sua maldade passa a uivar para a lua, mijar em postes e árvores e matar criançinhas, imaginando que é um lobo feroz e sanguinário. Vai me dizer que tem gente assim andando por aí, aqui em São Paulo?   

 –Até que numa noite a vagaba foi longe demais: estava aos beijos com nosso herói quando viu seu muso aparecer com outra putinha, sua rival, pendurada no saco dele. Ela simplesmente o largou, apanhou o muso – após um belo e desmoralizante safanão na rival, claro! – e o arrastou para a dark room. Nosso amiguinho ficou um tempo desolado, encostado no balcão, o peso do mundo em seus ombros magrelos, mas súbito algo se agitou dentro dele, sentiu como que uma coisa mordendo sua coluna e ordenando que fosse homem, que tomasse o que era dele, que agisse como animal, se necessário.

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 01h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

09/05/2011


Novo conto

Boa noite a todos!

Como orgulho desmemido, nós autores do Carpe Noctem publicamos o primeiro conto escrito por leitores do blog que tornaram-se colaboradores. Isso mesmo, fiéis acompanhantes de nossa São Paulo noturna e distorcida: um conto escrito por terceiro e quarto autores, e que conto! Um texto pesado, em mais de um sentido, agressivo e acima de tudo, muito contemporâneo, crítico e, por que não? muito verossímil (leiam e entenderão), um retrato/reflexão sobre como a internet influencia e distorce o mundo real. Mas cuidado: a linguagem é a adequada para o tema e a abordagem: crua e explícita.

E quem são essas duas revelações da narrativa fantástica e urbana?

Vinícius é  na verdade um ex-aluno que tornou-se amigo, de longa data. Músico e ( descobrimos há pouco) autor de talento; Diana, com quem escreveu o conto, também é uma grande musicista e... tia de Vinícius!!! Aos interessados sobre o trabalho musical de ambos, em breve colocaremos links para saberem mais, na seção correspondente do blog.

Bem, as apresentações e avisos foram dados: prepare sua imaginação e nervos para descobrir o lado sombrio do divertido mundo das redes sociais de encontros sexuais.

Saudações noturnas e etílicas

Caio Bezarias

 

 

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 23h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Demônios Virtuais - parte I - Por Vinícius e Diana, revisão de Caio Bezarias e André L. Pavesi


Bastava você olhar os quadrinhos ao lado do perfil (que eram as tais comunidades),  ou seja, as afinidades dela com outros orkutianos. Alguns denotavam uma quase depressão que era um tal de odeio isso, odeio aquilo que chegava irritar! Intercaladas com isso estavam pitadas de cultura pop, passando por ícones mortos da música e auto-afirmações do quanto ela podia ser cult em comunidades dedicadas a autores desconhecidos (as quais ela nunca postara nada, por absoluta falta de assunto e interesse genuíno naquilo), até descambar de vez no grande mote da internet: promiscuidade, sexualidade, gratuidade. Era ali que enfim a pegaria! Não dizem que a natureza da fêmea é provocar o macho, e a do macho é perseguir a fêmea que o provoca? Então...
Olhando de relance podia construir uma imagem de liberalismo sexual, participações em comunidades de sexo casual (ah, as comunidades de sexo do Orkut, que grande piada...), coisas mais específicas como encontros regionais e pinceladas narcisistas; ela era uma das "ruivas que gostam de sexo", e outros daqueles quadradinhos laterais afirmavam com orgulho "tenho pernas longas", "eu sou peituda" e coisas do tipo, além de esquisitices como "amantes de bonecas infláveis japonesas" e comunidades sobre remédios anti-depressivos, que ele preferiu ignorar por completo.
Bi-curious
Bel trazia consigo uma enorme quantidade de personagens bissexuais (em sua maioria mulheres também) todas tão parecidas entre si, previsíveis, e mesmo assim querendo soar diferentes. Ela própria se definia como bi, mas o era talvez por indecisão e modismo.
Não era mais uma pessoa, era um quadradinho, uma mera foto num painel azul-claro. As mensagens que recebia dos tais amigos orkutianos eram todas carregadas com aquele tom falso de proximidade, que na verdade não existe. A indiferença em relação a tudo que transparecia nela era outro sintoma da quase depressão. O mosaico conhecido como Bel era embaralhado e mesmo assim mostrava uma imagem clara: sexo - cultura inútil - narcisismo - distanciamento (tantos "amigos", mas nenhum com quem se envolvesse verdadeiramente) - fantasias. Nada de concreto. Apenas horas e horas conectadas à internet, o grande ópio moderno.
Aquela busca desenfreada por uma notoriedade instantânea e forçada (olhem como sou legal: depressiva, depravada e culta!) a tornou insensível aos pequenos prazeres do dia-a-dia, aquelas coisas que só percebemos o quanto valem quando as perdemos... para sempre!
O orkutiano
Ele era um cara normal. Amava sua namorada, até que a encontrou transando com uma amiga. Apesar do sentimento estranho que veio a seguir, ele invadiu o quarto e transou com as duas. Quando a beijou, sentindo o gosto do mel vaginal da amiga naqueles lábios, ficou ainda mais excitado e se entregou, mas quando a transa acabou o relacionamento estável foi junto. Seu namoro também acabou pois ele imaginou que um dia poderia sentir o gosto do pau de outro, ou esperma, nos lábios dela... Desde então odeia as tais “bi-curious” que infestam o Orkut. Exceto a Bel.
Ela, apesar de proclamar aos quatro ventos que curtia beijar as amigas, tomando a frase “homens fazem sexo e mulheres fazem amor” como uma espécie de regra de conduta, não dispensava em perder noites de sono no MSN falando com diferentes homens. Na verdade, o simples fato de não se assumir como uma lésbica completa (já que só queria “beijar as amigas”) demonstrava falta de opinião, no mínimo. Pobres meninas orkuteiras, sub-produtos da geração MTV, que nem convicção de sua opção sexual tem.
O encontro
“Dating man/women”? Sei.
Ache um ponto em comum. Qualquer um. Pode ser aquele filme esquisito, tão cult que só ela e mais 73 pessoas do Orkut assistiram além de você. Então faça contato. Funciona quase sempre. Se ela for de alguma forma comprometida, e você der sorte de a pegar num dia de insatisfação, deixe um elogio, por mais despretensioso que seja. Massageia o ego, é considerado “normal”, e você certamente colherá os frutos depois! Sabe como é: quando a noite desce seu manto de escuridão sobre nós, as coisas que geralmente são erradas aos olhos do dia parecem subitamente certas, e de alguma maneira até agradáveis...
Essa foi a tática dele, e deu tão certo que encontrou Bel no espaço de poucos dias. Impressionante como as amizades (ou algo próximo disso, em bytes) se firmam em tão pouco tempo, na mesma velocidade em que acabam. Ela realmente era ruiva e peituda. Mas sabe quando a pessoa é, de certa forma... menos? Como se tivesse algo errado? Ela parece “menos” bonita que nas fotos do álbum, “menos” inteligente... “menos” interessante do que o virtual pintava! Culpa da imaginação fértil das tecladas absurdas da madrugada, onde deusas e demônios virtuais nascem e morrem. O real não era tão atraente quanto a entidade virtual que criara pra ela, mas enfim... a voz era a mesma, tanto pelo telefone quanto ao vivo!
Ah, o telefone dela estava no Orkut, para quem quisesse ligar...
O telefone
Ele nunca mais esqueceria aquele telefone. Logo na primeira vez em que ligou foi surpreendido:
-Alô, Bel?
-Me fode.
-Hã?
-Vai logo, eu sei que é você, tava esperando sua ligação! Quero te lamber e chupar.
Ele entrou na brincadeira, excitado com o inesperado: “Chupa. Quer sentir meu pau enchendo sua boca, pulsando?”
-Dai você goza. Sinto sua rola latejando, golfando e golfando jatos quentes na minha garganta!
-Não quero gozar na sua boca ainda. Me conta como tá chupando.
-Eu chupo sua cabecinha, depois enfio toda na boca, cada vez mais rápido. Ai, estou muito excitada!
-Minha cabeçona tá arroxeada de tesão, de tão excitado que estou. Te ponho de quatro e pego pelos cabelos.
-Continua meu tesudão. Não pára, quero gozar!
-Tá sentindo aquilo tudo que você chupou entrando...?
-Vai, com força! Estou peladinha aqui, apertando meus seios e me masturbando! Ai, que delícia!
Ela podia não estar pelada do outro lado da linha, mas ele realmente ficou acariciando o cacete duro ouvindo Bel gemer pedindo porra... Depois desligou, sentindo um vazio e com aquela cara de otário que chega após toda forma de sexo virtual... ou como se fosse um adolescente que acabara de se masturbar! Entraria na comunidade disso no dia seguinte. Afinal, seria legal falar desse assunto com todos os orkuteiros, não?

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 23h41
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Demônios Virtuais - parte II - Por Vinícius e Diana, revisão de Caio Bezarias e André L. Pavesi

O sexo
Cara a cara com ela, ele ironizou aquela estória de “golfando, golfando”, e confessou que só não riu pois realmente tinha se excitado, e suas gargalhadas quebrariam o clima. Ela não pareceu nada envergonhada com a observação.
-Você só faz sexo virtual? - ele perguntou, enfim.
Bel deu um risinho sem graça e não respondeu. Então abriu a calça de cintura baixa, baixando também a calcinha, e mostrou uma intrigante tatuagem em forma de código de barras no lugar dos pêlos pubianos. Lembrou que ela fazia parte da comunidade “Depiladas” no Orkut, e que fazia juz. Mas sexo real, a princípio, foi “de menos” também. Bel não era tão quente quanto o virtual sugeria, nem chupava muito bem como teclava no MSN, desmistificando que as tais “bi-curious” são muito hábeis usando a boca.
Acabaram transando como uma fria obrigação entre dois desconhecidos, de maneira convencional. Não sentiu-se tentado a beliscar aqueles mamilos, apesar de ter lido um post dela falando o quanto sentia tesão dessa maneira (impressionante como as pessoas “se abriam” no meio virtual e não na realidade). Tinha vontade de cuspir nela, na língua, bem dentro da boca aberta, ou de gozar na cara apenas para ir passando o pau duro, juntando o esperma e esfregando nos lábios entreabertos; ver a expressão enojada no rosto dela (que não gostava de engolir), mas não fez nada disso.
A transa evoluiu para movimentos rápidos de bate-estaca, sem nenhuma sensualidade envolvida. Ele a fodia com força enquanto ela mordia seu queixo de maneira mecânica e gemia. Resolveram ousar um pouco, e as longas pernas que tanto a orgulhavam apareceram enfim quando se inclinou frente a ele, segurando os próprios tornozelos.
A visão daquele bumbum oferecido e empinado fez com que ele pegasse a única coisa lubrificante que tinha em mãos naquele momento: o líquido que usava para umedecer suas lentes de contato (“Você de óculos fica com cara de nerd!”). Lambuzou o buraquinho dela, excitado com a visão, e depois penetrou firmemente...
A submissão
Enquanto ele enfiava aquilo em sua bunda, Bel analisava friamente o que estava acontecendo. A camisinha melada, que só protegia o membro latejante dele, fazendo uma fricção gostosa em seu ânus  em movimentos irregulares e violentos (mais gostosa ainda quando era com violência) mas que, no fundo, só servia ao prazer dele e a expunha à troca de bactérias, já que o canais vaginal e anal são muito próximos. Ele literalmente cutucava o intestino dela, de fora pra dentro, o que era totalmente contra sua anatomia, afinal... o canal intestinal serve apenas para expulsão! Bel sabia - enquanto ele puxava seus cabelos gritando tudo o que pensava dela – que um incontável número de vasos sangüíneos estavam explodindo naquele instante dentro de seu buraquinho, deixando todo seu sistema aberto às contaminações.
Mas Bel era de outra estirpe. Não era uma garota normal, com anatomia normal. Apenas analisava para entender o prazer do homem e fazer melhor na próxima.
Ele, por sua vez, lembrou então do scrap que leu no meio de outros 2048 no profile de uma daquelas garotas super populares do Orkut, onde ela narrava que gostava de alternar penetração anal com vaginal. Seria ela depravada, desinformada ou simplesmente mentirosa? Decidiu experimentar aquilo em Bel. Deu-lhe um tapa bem sonoro e apertou com força as nádegas dela, retirando seu pau da bundinha, lentamente, deixando a camisinha lá dentro. Sem perder tempo, penetrou a vagina encharcada que se abria logo abaixo. Após uma luta suada e selvagem ele gozou, inundando sua amante ruiva com esperma.
Ela foi tomar banho, e ele quis telefonar. Nunca esqueceria aquele telefone. Então porque, agora que estava com o aparelho dela na mão, não dava linha? Que mensagem era aquela, fria e metálica que dizia em sua orelha que o número era inexistente? Por onde ela se conectava à internet afinal? Sacou o próprio celular e ligou para o aparelho que estava inerte ao seu lado. Novamente a voz metálica informou que o número discado não existia. E lá no box apertado, ela terminava de tomar seu banho...
A verdade
-Bel?
-Você já deve saber agora. - ela começou, sombria - Sim, eu me chamo Bel. Mas também sou muito confundido, tenho várias crias... Echelon, por exemplo. E eu não sou o Grande Irmão, e sim aquele que o inventou! - ela deixou cair a toalha, e sua pele pareceu confeccionada em plástico. Um estranho zumbido, vindo de lugar algum, a acompanhava.
-Quem é você?
-Veja o poder que emana de mim, mortal. Eu crio e destruo relacionamentos. Todos sentam-se em frente ao computador e me adoram, me alimentam dia e noite com suas tristezas, alegrias, fantasias, medos e traições. Veja como sou poderoso, como todos são dependentes de mim: eu sou o criador, mas também sou a tecnologia em si!
-Você não existe! Não é real! - ele gritou, enquanto o zumbido ameaçador aumentava a cada passo de “Bel” em sua direção.
-Ah, existo sim, pois VOCÊ me transforma em real e me entrega sua vida. Eu sou Belphegor, aquele capaz de contaminar até mesmo a igreja, destronando o papado moderno com escândalos de fotos de homossexualismo e pedofilia em seus computadores!
Então Bel - na verdade Belphegor - o pior dos demônios atuais, criador incansável de armas e maquinários destrutivos, que forjou o aço de Damasco, deu aos homens a pólvora e trouxe a bomba atômica, empurrou o homem até o sofá. Não dava para chamar aquele corpo feminino de robô, nem de ciborgue, mas também não era uma mulher. Era algo máquina, algo demônio! Suas unhas vermelhas - perfeitas - saltaram, e ele quis ser cravado por elas.
Sentada no peito dele, ela acariciou suavemente seu rosto com a mão direita, e enfiou o dedão na boca do homem. Ele relaxou, mas subitamente o dedo indicador de Bel perfurou seu olho esquerdo:
-De agora em diante a cor de seu cabelo será em código hexadecimal e você conseguirá assobiar em bauds. Seu grito será estática pura, e seus gemidos de dor serão como ruídos de conexão por modem!
Desde então ele deixou de ser uma pessoa, e transformou-se num quadradinho, uma mera foto num painel azul-claro, esperando pacientemente até que alguém clicasse nele...

Escrito por Caio Bezarias e André Pavesi às 23h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Histórico