Natasha caminhava apressada pelas ruas do Bixiga nos arredores do Darkness, olhando para os lados, para trás, até para os telhados das casas centenárias construídas pelos primeiros imigrantes italianos que tiveram algum sucesso na nova terra, casarões cujas janelas fechadas pareciam olhos a lhe espreitar e seguir; seu olhar era de temor, como se temesse os nordestinos e peões bêbados e os adolescentes idiotas posando de manos que vagavam pelas ruas tortuosas do bairro; ela sentia-se amedrontada, vampira que conhecia cada ser das trevas que vagava por São Paulo e que devia respostas e obediência somente à arquilendária Anciã que vivia na cidade. A garota baixa, carnuda, de seios e nádegas fartos, deliciosa e provocante, os cabelos curtos expondo um lindo pescoço alvo enfeitado por uma tatuagem em forma de perfil de morcego, que para sempre aparentaria dezenove anos e sempre pronta para o sexo, bebedeiras, noitadas e todas aventuras perigosas que movem a juventude limpou a boca com as costas das mãos duas, três, quatro vezes com força, até o lábio arder, enquanto aguçava seus sentidos de vampira ao máximo. A sensação de estar sendo seguida e observada continuava e a fonte daquilo era indefinível, estranho. Não era o chamado de Miranda, amiga, amante, com quem experimentava seguidas e incansáveis noites o deleite de sugar o sangue dos mortais e senti-lo fluir de uma para a outra, a essência vital dos humanos, simples alimento que impregnado do ardor e paixão de uma pela outra circulando por seus corpos, fortalecia, extasiava... gerando uma sensação de prazer e união entre elas, vampiras-amantes, tão intensa e deliciosa que as práticas lésbicas de Natasha do tempo de mortal, como sugar o néctar que escorria do sexo das meninas roqueiras e góticas que seduzia e iniciava, outrora o ápice do prazer perverso, hoje eram uma brincadeira infantil e sem profundidade ou intensidade algumas. Miranda sempre fora ciumenta e meio despirocada, violenta, mas também sempre amorosa e preocupada com sua linda ninfeta-amante por toda eternidade e nada disso estava presente na coisa que rescendia ao redor dela. Não, a névoa tênue e sufocante que a espreitava era vazia de qualquer ternura ou outro sentimento doce, era na verdade uma volúpia selvagem. E havia algo mais muito estranho, um odor doce percorrendo o miasma místico, erupções que emergiam aqui e ali, raios de desejo, de puro cio animal, buscando seu corpo de fêmea, mas dos quais não conseguia identificar fonte, seu emissor, seu “dono”; eram emanações puramente animais, pois não consistiam em desejo por uma certa mulher, queria todas as mulheres e encontrara Natasha, logo a queria. Era puro, intenso e violento, desejava as mulheres pelo cheiro do seu cio, queria colhê-las como flores selvagens da cidade; ela sentiu que havia o brilho da lua no olhar daquele ser, a certeza da paixão em seu toque. E que um alimentaria o espírito do outro ao se tocarem e se sentirem, com suas essências, seus eflúvios, com seu desejo carnal, sensual e primitivo despertado pela natureza animal. Uma erupção de tesão, que aflorou imensa e avassaladora, pelo descuido de se deixar entregar àquelas sensações por um único instante, preencheu Natasha. A vampira lésbica sentiu-se tão enojada de si mesma que apertou o passo rumo ao Darkness, para lá encontrar sua amada e mergulhar na segurança de sua companhia, da caçada noturna de sempre e esquecer que se deixara fascinar pela desprezível essência masculina. Daquela essência queria apenas o sangue, que, com a sua amada, sugaria do corpo de um qualquer daquela raça desprezível. Sim, para o Darkness, o campo de caça em que reinavam absolutas e incógnitas, oh combinação perfeita, noite após noite...




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