Prelúdio - há algum tempo atrás...
Ninguém seu deu conta quando a coisa rebentou naquele espaço vazio, uma confluência de fundos de prédios apertados e mal colocados, no centro da cidade. Raízes entranharam-se na terra, folhas e flores cresceram e abriram-se, galhos e trepadeiras entrelaçaram-se e uma mata fechada surgiu, no coração da Bela Vista. Os animais se instalaram em seguida, ratos, insetos, aranhas e alguns escorpiões, lagartos de muro, aves - durante o dia, do previsível pardal ao misterioso siriri, um grupo variado enchia a pequena e densa selva de sons, enquanto durante a noite corujas e curiangos davam, com seus pios, o devido ar de mistério à fechada mata urbana.
A coisa cresceu com uma rapidez anormal, mesmo para a terra em que se plantando tudo dá, mesmo contando com um inesgotável suprimento subterrâneo de água e com a total indiferença dos homens que viviam e labutavam ao seu redor, como se algo partisse do verde entremeado de escuridão e impedisse que os humanos destruíssem a coisa, que surgira graças a seu descuido e indiferença.
Já se disse que os mitos expressam a si mesmos, conversam entre si, por meio das ações, eventos e rituais da humanidade que, pretensiosamente, julga utilizá-los para se expressar. O que o autor desse pensamento e seus seguidores diriam diante de Gaia, a fonte de tudo, incluindo os mitos, expressando a si mesma, sem a menor restrição ou oposição, a poucos metros da avenida que os habitantes da cidade elegeram, com desmedido orgulho, como símbolo maior de seu poder e domínio sobre o mundo e os outros homens?
A exuberância da escuridão verde
Semanas atrás...
Era uma abafada, quente e vazia noite de quarta-feira, uma das infindáveis noites em que a maioria dos ocupantes de São Paulo, derrotados, descansa o suficiente para apenas encarar mais uma noite e dia vazios, e outro, e outro e outro.
Pouco passava da meia-noite, alguns carros circulavam para lá e cá. Um homem loiro, magro e esbelto, estava sentado em um ponto de ônibus da Nove de julho, esperando alguém, curvado num ângulo que desfazia a pouca classe que ele tinha. Ele parecia calmo, seus olhos claros e infantis olhavam para frente e não para a direção da qual um suposto ônibus viria para apanhá-lo.
Um Golf negro e reluzente aproximou-se, vagaroso, vindo da Zona Sul, seu condutor o estacionou tranquilamente em frente ao homem, como se a via existisse somente para seu bel-prazer de exibir seu carro e sua arrogância. O vidro enegrecido por película da porta do passageiro desceu e uma voz nervosa ordenou:
- Sobe logo!
Mark levantou-se com estudada calma, deu dois tapas nos fundilhos da calça e entrou pela porta traseira. O carro pôs-se em movimento a não mais de 20 por hora, como se os ocupantes não soubessem para onde ir, como se tateassem pela cidade, esperando que ela lhes desse algo.
Miranda guiava o carro e Natasha estava a seu lado, as coxas de ambas se roçando. Estavam mais belas, cheirosas e deslumbrantes do que ele poderia se lembrar. A chance de ter as duas na cama, e bem numa noite Sagrada[1], era uma dádiva de Gaia para um licantropo tão mal-visto por seus pares e por quase todos os seres místicos da cidade.
-Tudo certo? Podemos deixar o lixo[2] lá?
- Sim, e a parte de vocês, está combinada?
- Claro que está - respondeu Natasha, passando os dedos pelo cabelo. Embora eu ainda prefira algum outro tipo de pagamento. Trepar não é muito fácil ou agradável para nós.
- Deixa disso, gata, já falamos disso antes, está combinado. Acha que vou dispensar a chance de ter duas gostosas como vocês, de uma vez?
- Isso é engraçado, pois você fugiu como um cabaço assustado de mim, no passado. E se livrou de Natasha de um modo muito torpe.
- Eu era um idiota total, hoje reconheço. E quero as duas! Isso ou nada feito.
- Certo, então vamos logo com isso.
- Antes, é melhor nos livrarmos do presunto. Onde está?
- No porta-malas. E não está morto. Ainda. Está fraco e inconsciente mas ainda tem um pouco de sangue. Queremos terminar de sugar o cara lá, na mata. Sabe, esse carro era dele. Bonito, não? Pena ter que largar em uma esquina, mais tarde, pra não termos problemas.
- Bem, entre à esquerda e siga até aquele hospital grande e luxuoso. Lá, vire à esquerda de novo.
Pouco depois, o carro estava estacionado num trecho escuro da rua Itapeva. Mark saiu devagar, inspecionou os arredores, afinando a sensibilidade do olfato e audição ao caminhar. Ótimo: não havia ninguém que pudesse ver ou atrapalhar. Somente alguns vigias entediados ou adormecidos e um mendigo prostrado na esquina. Voltou-se para Miranda e disse à meia-voz:
- Abra o porta-malas.
E num movimento, um pulo que nenhum olho humano perceberia, que até as duas vampiras quase não distinguiram, alcançou a traseira do Golf e retirou a carga de lá, desaparecendo nas sombras em seguida.
[1] Jargão dos lobisomens, outrora usado por Licãos e mais idosos e que foi tomado pelos mais jovens e desregrados, para se referir à Lua Cheia, assim chamada por motivos óbvios.
[2] Jargão dos vampiros mais jovens., usado para se referir ao cadáver de uma vítima recém " bebida". Enquanto os vampiros mais antigos, principalmente os Anciãos Lendários, praticavam um respeito solene e meio emocionado por suas vítimas, que por vezes se assemelhava aos rituais que povos caçadores realizavam em agradecimento ao espírito dos animais que matavam para sobreviver, os vampiros mais jovens tratavam suas vítimas com consumado desprezo, como se fossem um gado bípede, na melhor das hipóteses.


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