Boa noite a todos!
Sim, sabemos que não postamos nada ou damos sinal de vida há tempos. Por isso, essa mensagem contém trechos de um conto a ser postado em breve, no qual há uma tentativa de alargar o universo dos licantropos, seu relacionamento com os humanos e seus deveres, por meio do relato de um evento do passado de nosso amigo Lúcio. Obrigado pela paciência e por acessar o blog e saudações etílicas a todos.
Junho de 1986, zona norte de São Paulo
A noite era fria, fria como eram as noites de junho em São Paulo, há não tantos anos. Nuvens brancas e densas corriam pelo céu, mostrando durante um instante as estrelas, poucas mas bem nítidas. Apesar da temperatura, o ar era agradável de se respirar, límpido e revigorante. Havia pouco movimento nas ruas, uma ou outra pessoa bem agasalhada que corria para casa e para a TV; era um bairro de gente simples e de gente simplória. Num sobrado de esquina, havia alguém sentado sobre uma mureta meio torta, um rapaz, magro, mas alto e bem proporcionado para sua idade, que não fazia nada de especial, ele apenas olhava o mundo: a brancura das nuvens galopando pelo céu parecia feita por um pintor divino, o piscar das estrelas era mágica pregada no céu, as luzes dos poucos prédios que então havia na região eram cada uma um segredo que ele um dia desvendaria.
A última pessoa que passou pela rua estreita e tortuosa, antes de ele se recolher, foi a mais importante, mas ele nunca soube. Um homem de altura média, cabelo escuro e cheios de caracóis, rosto marcado e vivo, vestindo roupas típicas da década anterior, que lhe davam um ar de cafajeste rico, de playboy da década de 70, veio da direita, caminhando sem pressa alguma; ele não interrompeu por um único instante seu passo lento e regular e dirigiu o menor ou mais breve olhar para o garoto, pois sabia quem ele era e o que deveria fazer desde o momento em que Gaia o chamara, há poucos minutos, mandando-o sair da centenária e meio abandonada chácara que resistia ali perto, a uns duzentos metros de distância, onde ele e mais dois lobisomens, convocados pela Mãe-Terra, faziam uma espécie de ritual para concentrar e depois espalhar sua energia vital entre seus filhos ingratos e cegos.
Julho de 2008, Praça da República, centro novo de São Paulo
Era fim de uma tarde sexta-feira. As ruas do Centro apinhadas dos escriturários, gerentes, chefes, contínuos, secretárias, técnicos e bancários que se apressavam para correr para casa ou buscavam uma mesa de bar para relaxarem, após uma semana, um mês, um ano, uma vida inteira matando a si mesmos em um cubículo horroroso enfiado em um ambiente horrendo em um prédio qualquer de formas geométricas e mortas do Centro da cidade.
Ninguém se destacava em meio à massa. Todos eram cinzentos, cansados e fartos, e muitos já pareciam meio mortos, sem vitalidade ou essência, a vida sugada e substituída por rotina, por obrigações e por desejos e ambições que na maioria das vezes não eram seus, mas instrumentos de interesses alheios.


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