Vinte anos depois, ainda querendo um pouco de diversão noturna
Mesmo nessa pocilga que alguns chamam de pista de dança, lotada e nublada por gelo seco e cigarros, eu não a perco de vista. Ela não sabe quem eu realmente sou, envolvida numa teia de mentiras tão frágil quanto qualquer farsa. Quando caminha até mim, com sua atitude blasé e suas cigarrilhas alemãs, minha presa não faz idéia do ardor que corre em meu sangue. Sigo seu jogo, baby, mas as regras são minhas.
Com um movimento estudado de corpo, a bela Ivana, também conhecida como Lady Vamp por seus amiguinhos góticos, joga seus longos cabelos bicolores sobre um dos ombros, revelando pescoço, nuca e um perfume infernalmente doce. Antes que eu mesmo perceba o que estou fazendo, envolvo seu corpo com meus braços, e começamos a dançar. Dominamos a pista, enlaçados e perdidos para o mundo. Ela me provoca ao máximo, nesse nauseante joguinho de sedução, num instante dizendo “Venha!”, no seguinte me afastando. Toco sua pele macia como a asa de uma pixie1 e branca como uma morte na neve, enquanto as outras pessoas na pista abrem uma roda ao nosso redor.
Ah, que vontade maluca de soltar uma garra, uma única garra para rasgar a garganta dessa vadia de uma orelha a outra, destroçando pele, músculos, veias e garganta! Que desejo alucinado de ver a dor em seus olhos verdes como o mar, misturada à certeza de que sua vidinha inútil chegou ao fim! Mas ainda não é chegado o momento, ela ainda terá mais algumas horas de vida. Mais tarde poderei, quem sabe, subir com ela para um dos quartos do hotel parcialmente abandonado acima de nós e mostrar-lhe um mundo de dor.
Olho em volta e me toco que terei que ficar esperto essa noite. Pelo canto dos olhos vejo sombras escorregadias, que desaparecem quando me viro para encará-las. Numa das áreas mais escuras da pista, bem debaixo de um poster gigante de Marilyn Monroe, dois sanguessugas observam o pedaço, procurando alguém para matar sua fome milenar. Já seria fácil reconhecer os palhaços pela extrema palidez de suas peles – porra, eles parecem quase transparentes! - mas o sutil cheiro de carniça neles não deixa dúvidas. Se eu ainda fosse como um dos cachorrinhos de Gaia, teria a obrigação de me revelar a eles, prevenindo-os de que estão no meu território. Como essa maldita politicagem me enoja!
Ainda me lembro da época em que eu era um desses malditos que seguem as ordens da fraca deusa, como um bando de totós, lassies ou benjies; ainda me lembro daquele papo-furado sobre Gaia e a grande missão dos licantropos de purificar e equilibrar novamente o mundo. Mas me lembro muito melhor da noite em que a máscara caiu, revelando toda a podridão que me cercava.
Era uma noite de chuva de finais de março, e eu estava sendo caçado pelos de minha própria espécie. Meu crime? Ter quebrado uma maldita trégua e abatido duas sanguessugas. Claro que com minha sorte de vira-lata não podiam ser duas sanguessugas comuns, cujo desaparecimento só seria percebido por uma meia dúzia de vampiros vagabundos. Não, uma delas tinha que ser uma espécie de princesa de sangue, favorita de um dos altos figurões dos malditos mortos-vivos. Em questão de semanas, minha vida virou um inferno, fui banido do convívio dos meus pares – ou pelo menos, dos que eu julgava como meus iguais naquela época, perdi minha casa e tudo o que tinha, passando a viver como um fugitivo. Por Hel, isso faz quanto tempo? Quinze, vinte anos?
Voltando a minha punição...eu estava perdido, ferrado de todos os jeitos. Estava cercado numa antiga fábrica abandonada na região do Brás, na verdade pouco mais do que um galpão destelhado, cheio de entulho e merda de mendigo por todos os lados. Sentia algumas costelas soltas, meus olhos já estavam fechados de tanta pancada, um braço pendia de lado, inutilizado, pingando sangue. Pelo meu corpo, marcas de mordida e pedaços de pêlo arrancado marcavam claramente cada um dos golpes sofridos. Já me preparava para vender caro minha pele para cinco dos mais fodidos licantropos de toda Sampa, e quem sabe levar um deles comigo pro quinto dos infernos, quando o tempo simplesmente pareceu desacelerar, quase parar. De repente, era como se eu me movesse entre eles, me senti num maldito museu de cera. E acima de nós, flutuando metros acima de minha cabeça, lá estava Ela, a verdadeira Deusa, envolta num bruxuleante brilho opaco. E como ela estava diabolicamente linda!
As mais diversas culturas ao redor do mundo a chamaram por inúmeros nomes através dos séculos. Nyx. Kali. Persefones. Ament. Eu prefiro chamá-la de Hel, a deusa da morte, aquela que acolheu o primeiro dos homens, e ainda estará lá para conduzir o último dos inúteis humanos rumo ao seu destino final.
Ela sorria para mim, de um jeito tão doce quanto obsceno, sua voz soando diretamente na minha medula. Nada de palavras de falso consolo, apenas a verdade nua e crua sobre a minha natureza, sobre meu verdadeiro papel no mundo. Descendo ao chão, ajoelhou-se ao meu lado, e tocando meu focinho arrebentado sussurrou em meu ouvido – Meu lobo...
Toda a dor que eu já tinha sentido naquela noite pareceu pequena perto do que veio em seguida – senti cada pedaço de meus músculos se rompendo de vez, apenas para se reconstruir, de uma nova maneira, com um novo trançado, mais forte e vigoroso. Ossos quebrados foram se esfarelando e ressurgindo no devido lugar, fortificados, órgãos danificados foram liqüefeitos e substituídos por novos. E todo o tempo o maldito sorriso não abandonou Seus lábios. Instantes viraram minutos de dor, enquanto meu corpo era inteiramente refeito. Naquele momento renasci para o mundo, para assumir meu lugar como um soldado de Hel, um servo da morte.
Minhas primeiras vitimas foram aqueles que minutos antes se vangloriavam de serem meus algozes, os desgraçados servos de Gaia. Quando o tempo voltou ao normal, marcando o começo da minha nova vida, afundei minhas novas garras em vísceras, costelas e sangue. Sob o olhar cheio de desejo e aprovação de Hel, derrubei um a um meus oponentes e profanei o mais sagrado dos votos dos licantropos, absorvendo sua alma, sua força e coragem.
1Pixies são criaturas mitólogicas, muito comuns na literatura da era vitoriana; maiores dúvidas, procure no Google!!


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